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Com 20 feminicídios registrados em 2025, Amazonas ainda vive crise profunda, dizem ativistas

Ativistas apontam lacunas no combate à violência contra a mulher, cobram políticas públicas e indicam subnotificação

Publicado em 23/01/2026 às 15h50
Com 20 feminicídios registrados em 2025, Amazonas ainda vive crise profunda, dizem ativistas

Em 2025, o Amazonas registrou 20 casos de feminicídio. Embora o número represente uma redução de 31% em relação a 2024, quando 29 mulheres foram mortas, ativistas classificam o cenário como uma crise profunda no enfrentamento à violência contra a mulher, pela quantidade e brutalidade dos crimes. E pelo fato de, segundo o Ministério da Justiça, o número de tentativas de feminicídio no Estado ter saltado de  98 (em 2024) para 108 (em 2025), 10% a mais.

De acordo com os dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), do Ministério da Segurança, disponibilizados nesta segunda-feira (20), o Brasil bateu, novamente, o recorde de feminicídio. Ao todo, 1.470 mulheres foram mortas em 2025, o que superou 2024, quando o país teve 1.459 feminicídios.

Esse número é sequencial ao crescimento histórico, já que a taxa de feminicídios no país aumentou em 0,7% de 2023 para 2024.

No Amazonas, houve uma redução de 31%, sendo 20 casos registrados em 2025. A métrica já havia sido repercutida pelo secretário de segurança do Amazonas, Coronel Vinicius, via Instagram, em dezembro de 2025, quando publicou que “isso coloca o estado do Amazonas como o mais seguro para uma mulher viver no nosso país”.
Para a historiadora e ativista do Movimento das Mulheres Negras da Floresta, Francy Júnior, é um insulto considerar que o Amazonas seja seguro para as mulheres. Ela ressalta que, embora o estado tenha uma redução de 31%, ainda registra dezenas de mortes e enfrenta graves problemas de subnotificação.

“Essa fala não condiz com a realidade vivida por nós, nas periferias e no centro da cidade. Nenhum lugar que registra dezenas de mulheres assassinadas por serem mulheres pode ser chamado de seguro. Mesmo quando há uma redução numérica, estamos falando de 20 a 30 vidas interrompidas; isso não é estatística, são histórias, famílias destruídas, filhos e filhas órfãos”, criticou a historiadora.

A ativista destacou que a realidade local “ainda é de medo” e que há uma subnotificação (dificuldade de registros das mortes de mulheres com a classificação de feminicídio).

“Há, ainda, a dificuldade de acesso à rede de proteção e de mulheres que continuam morrendo dentro de casa, muitas vezes depois de já terem pedido ajuda, registrado o boletim de ocorrência, de ter conversado com líder religioso ou de ter pedido ajuda à família”, informou.

Ela disse que os dados mostram que o Brasil e o Estado do Amazonas vivem uma crise profunda no que diz respeito à proteção da vida das mulheres.

 “Revela que as políticas públicas são insuficientes, descontinuadas ou não chegam a quem mais precisa. Para o movimento de mulheres negras da floresta-Dandara, isso confirma aquilo que a gente denuncia há anos: que a violência contra as mulheres, especialmente contra mulheres negras, pobres e periféricas, não é um problema individual; é um problema estrutural, político e social. Mostra também que, apesar das leis, o Estado ainda falha em prevenir, proteger e agir antes que a violência vire morte”.

Entre os motivos apontados como impulsionadores desse crescimento no país, francy Júnior afirmou que o machismo estrutural, racismo, desigualdade social, impunidade dos agressores, falhas graves na prevenção, dependência econômica, ausência de redes de acolhimento e proteção, cultura de naturalização da violência, normalização do controle e atuação tardia do Estado.

A ativista ressaltou que esses fatores estão agravando o problema e, com isso, tornando os crimes bárbaros cada dia mais presentes no país. Ela criticou, ainda, a banalização da violência e a naturalização de discursos de ódio contra as mulheres

“Os crimes estão cada vez mais cruéis, mais violentos e mais carregados de ódio, é nítido. Casos como o da mulher arrastada por um carro mostram o nível de desumanização que as mulheres estão sofrendo. Isso não é só violência, é mensagem de terror, é punição exemplar, é a tentativa de mostrar que a vida da mulher não vale nada”.
Amazonas não prioriza políticas para as mulheres

A ativista Luzanira Varela afirmou que os números exemplificam a falta de políticas públicas eficientes e mostram que o Amazonas, na verdade, ainda é um lugar inseguro para as mulheres.
“Nos ônibus, as mulheres sofrem importunação sexual; nas paradas de ônibus, no escuro, muitas mulheres são estupradas e vítimas de feminicídio. As delegacias de proteção à mulher só funcionam de segunda a sexta-feira, em horário comercial”, disse.

Ela informou que, quando vê o Estado comemorando a redução e dizendo que é um local seguro para as mulheres, é uma afronta, pois os programas prometidos não saem do papel.

“Não sei onde está essa segurança toda para as mulheres que estão falando. A falta de funcionamento da rede de proteção à mulher, um dos exemplos é a Casa da Mulher Brasileira, que era para ter inaugurado em março do ano passado e, até hoje, só tem as colunas levantadas”.

Luzanira Varela destaca que somente a mudança da cultura machista pode alterar a realidade de ódio contra as mulheres.

“Eu acredito que o machismo e o patriarcado continuam muito vivos no Brasil e no Amazonas. Temos que educar nossos meninos, lembrar que mulheres não são sua propriedade, que, quando elas dizem não, eles chegam, batem, até tirar a vida delas”, informou.

Subnotificação e tipificação inadequada
De acordo com os dados do Ministério da Segurança, foram registrados no país 31.185 estupros no ano de 2025. No Amazonas, foram 391 estupros, 9% a mais que em 2024, quando o estado registrou 356.

As tentativas de feminicídio no país foram de 3.661, aumento de 16% em relação a 2024, quando 3.133 casos foram registrados. No Amazonas, o número saltou de 98 (em 2024) para 108 (em 2025), 10% a mais.

Para a coordenadora do Fórum Permanente de Mulheres, Marília Freire, o crescimento da violência contra a mulher está relacionado ao avanço do pensamento fundamentalista religioso e de ideologias patriarcais que defendem a submissão das mulheres. Ela avalia que, mesmo com a redução de mortes, o Amazonas não é um lugar seguro para ser mulher.

“Não é exatamente seguro para uma mulher viver no Amazonas com um dado como esse de feminicídio; ademais, a morte é o mais grave dos desfechos do contexto de violência contra a mulher, mas estamos entre os maiores índices de estupro e de violência doméstica. Não dá pra dizer que o Amazonas é seguro quando, em apenas um dos índices, nós não estamos entre os primeiros do país”, informou.

Ela ressaltou que um dos fatores que fazem o estado registrar menos feminicídios é a falta de transparência na tipificação dos crimes, como o caso de Julieta Hernandez, assassinada em dezembro de 2023, em Presidente Figueiredo.

“Outra questão é que é necessária transparência nos dados, haja vista que o Estado do Amazonas tem classificado feminicídios como outros tipos penais, como no caso de Julieta Hernandez, que teve seu feminicídio classificado como latrocínio. Talvez um indicador de esclarecimento de homicídios possa nos aproximar de uma melhor compreensão do fenômeno”, destacou.

Freire afirma que, nos últimos anos, houve um aumento da brutalidade dos crimes, evidenciado pelo fato de que os homens não apenas matam mulheres, mas as executam de forma cada vez mais odiosa. Para ela, essa violência é agravada pela normalização da misoginia, alimentada pela impunidade.

“Há também um aumento no televisionamento das violências, ou seja, os casos estão mais brutais, sim, e também há mais registros audiovisuais dessas violências, em razão da possibilidade de monitoramento dos espaços privados e também do fato de termos uma câmera na mão, através do celular. Para deixar o cenário ainda pior, os homens se sentem mais à vontade para serem violentos, em razão da impunidade”.

A ativista cobrou que o Estado seja mais célere nas políticas públicas e que a educação seja uma base para mudar o comportamento machista.

“Esses dados mostram que ainda temos muito o que avançar em políticas públicas, como a implementação da Casa da Mulher Brasileira, que mais uma vez teve as obras de sua construção paralisadas pelo Governo do Estado. Também precisamos olhar com atenção para a infância e a forma e valores que estamos transmitindo para as gerações futuras, meninos e meninas”, disse.

Atuação especializada
Com a redução de 31% de feminicídio no Amazonas e redução de 47%, a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) atribuiu o controle às ações ostensivas, preventivas e fiscalizadoras da Polícia Militar, por meio da Ronda Maria da Penha, que têm garantido o cumprimento de medidas protetivas às mulheres que já foram vítimas de violência.

Além disso, a SSP destacou que o patrulhamento tem mantido a presença constante nas ruas, o que garante o atendimento rápido em caso de acionamento emergencial.

O secretário, Vinícius Almeida, ressaltou que o resultado é reflexo das ações integradas das Forças de Segurança, que contaram com o apoio da rede de proteção às mulheres.

“Esses números consolidam um ano de muito trabalho de todas as Forças de Segurança, em especial a Polícia Militar, por meio da Ronda Maria da Penha, e a Polícia Civil, que, com suas equipes, estiveram muito focadas em defender e fazer prevalecer os direitos das mulheres do nosso estado. Não tenham dúvidas de que, este ano, iremos trabalhar ainda mais para garantir a segurança de toda a nossa população”, afirmou o secretário.

Fortalecimento de atendimento
Em Manaus, as Delegacias Especializadas em Crimes Contra a Mulher (DECCM) tiveram as ações de polícia judiciária fortalecidas. Além disso, a Polícia Civil conta, ainda, com o Núcleo de Combate ao Feminicídio, que, dos oito crimes registrados na capital, garantiu que todos os suspeitos fossem presos. A SSP informou, ainda, que, ao longo de 2025, as

Forças de Segurança realizaram, de forma integrada com a rede de Proteção às Mulheres, operações preventivas, educativas e repressivas, direcionadas não só a Manaus, mas a todo o estado.

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