Comunidade ribeirinha de Parintins recebe projeto de residência artística e transformação social
Iniciativa que une arte, educação e meio ambiente conta com a participação de artistas do Rio de Janeiro, Espírito Santo e Parintins
Idealizado pelo artista plástico parintinense Freyzer Andrade, presidente do Instituto Serra da Valéria, o projeto Palafita & Arte surgiu em 2023 com o objetivo de democratizar o acesso à arte e ressignificar o cotidiano da comunidade ribeirinha Boca da Valéria, localizada às margens do rio Amazonas, no município de Parintins (distante 369 quilômetros de Manaus). Por meio da pintura nas casas de palafitas, a zona rural parintinense se transforma neste período em uma galeria com obras de arte a céu aberto.
O modelo de intervenção artística já é utilizado em outras comunidades do Amazonas; no entanto, esse formato se difere por apresentar uma iniciativa de transformação social que une arte, educação e meio ambiente em uma das regiões mais biodiversas do planeta. Além disso, a ideia é proporcionar oportunidade de residência artística em plena Amazônia para artistas de outros estados e países desenvolverem projetos paralelos.
Para isso, o instituto responsável pela execução da proposta artística recebe na área rural do município dos bumbas, desde o dia 1º de julho, artistas do Rio de Janeiro, Espírito Santo e também de Parintins.
Residências artísticas são rotativas e acolhem profissionais de diferentes áreas, como pintura, fotografia, arte urbana, e o intercâmbio se dá de forma horizontal e imersiva. (Foto: Instituto Serra da Valéria)
Segundo Freyzer Andrade, as residências são rotativas e acolhem profissionais de diferentes áreas, como pintura, fotografia, arte urbana, e o intercâmbio se dá de forma horizontal e imersiva.
“Os artistas vivem na comunidade, convivem com as famílias, escutam histórias e trocam saberes com os moradores. A seleção é feita por convite, curadoria, e em alguns casos, por inscrição via edital. Buscamos perfis comprometidos com escuta, respeito e construção coletiva”, destaca.
Participam desse projeto os artistas: Clarissa Barbosa (Rio de Janeiro), Liadora (Espírito Santo), Caio Cruz (Espírito Santo), Tales (Espírito Santo), Hiago (Parintins), Sandel (Parintins) e Freyzer (Boca da Valéria).
O presidente diz ainda que a seleção acontece de forma colaborativa, considerando afinidade com o território e linguagem artística sensível ao contexto amazônico, diretamente com base em trajetórias que dialogam com a arte-educação e a sustentabilidade.
A seleção dos artistas é feita por convite, curadoria, e em alguns casos, por inscrição via edital (Foto: Instituto Serra da Valéria)
“As experiências vividas na comunidade são o ponto de partida para a criação. Até hoje, mais de 25 artistas já participaram diretamente do projeto. Muitos artistas mudam suas propostas iniciais após se depararem com a força simbólica do território. As casas pintadas, os objetos fotografados e os textos escritos durante a residência são frutos de escuta, não de imposição”, afirma Andrade.
Obras que retratam espécies amazônicas ameaçadas, como o gavião-real, o pirarucu, a ararajuba, a jandaia amarela e o boto-cor-de-rosa fazem parte desse contexto, como também pinturas que dialogam com os ciclos do rio, a ancestralidade e as plantas medicinais. “Essas imagens não são apenas decorativas: são educativas e provocam reflexão”, disse.
A intenção, de acordo com Freyzer, é criar uma conexão entre estética, pertencimento, memória e meio ambiente em um gesto de resistência poética em territórios historicamente marginalizados. “O projeto nasceu em 2023, a partir de um desejo profundo de valorizar as casas de palafitas da comunidade ribeirinha da Boca da Valéria, transformando-as em suportes vivos de expressão artística. A ideia surgiu do cruzamento entre memórias afetivas, vivência comunitária e a necessidade de afirmar a identidade amazônica através da arte. No início, foi concebido por artistas locais em parceria com o Instituto Serra da Valéria. Agora ganha outro corpo fazendo um intercâmbio com pessoas de outros estados e países”, explica o artista.
Impacto social
Para ele, o impacto social mais imediato é o orgulho comunitário, já que as famílias passam a enxergar sua casa como parte de uma galeria viva, destacando também, como consequência positiva, o estímulo ao turismo sensível, à economia local e ao imaginário coletivo. “Já mensuramos um aumento no número de visitantes interessados em vivências culturais e maior engajamento das crianças em práticas criativas. Mais do que números, o projeto mede impacto em sorrisos, pertencimento e histórias compartilhadas”, atesta.
A intenção, de acordo com Freyzer, é criar uma conexão entre estética, pertencimento, memória e meio ambiente em um gesto de resistência poética em territórios historicamente marginalizados (Foto: Instituto Serra da Valéria)
Instituto Serra da Valéria
O artista Freyzer Andrade ressalta que, quando pensou em criar o Instituto Serra da Valéria, desejou preencher uma lacuna: a ausência de oportunidades para crianças ribeirinhas.
“Eu queria que outras crianças tivessem a chance de se expressar, de descobrir talentos. A arte tem um poder transformador quando chega como ferramenta de liberdade, e o Instituto busca exatamente isso: acender a criatividade em territórios esquecidos”, reforça.
Para ele, a organização social é uma iniciativa independente que visa democratizar o acesso à arte, à educação e ao desenvolvimento cultural nas comunidades ribeirinhas da Amazônia. “É um espaço de encontros, de afeto e de potência criativa. O Instituto atua onde as políticas públicas ainda não chegam, promovendo transformação real”, garante.
Expansão
Para o futuro, a ideia é expandir o Palafita & Arte para outras comunidades ribeirinhas do Amazonas, criar um catálogo digital das obras realizadas, implementar oficinas formativas permanentes para jovens locais e captar novos apoios institucionais que permitam continuar com autonomia e profundidade. “Estamos estruturando um centro cultural flutuante que possa circular entre comunidades, oferecendo oficinas, biblioteca e atividades interativas. Também planejamos formar uma rede de arte-educadores ribeirinhos e consolidar parcerias com universidades e instituições culturais nacionais e internacionais”, anuncia o artista Freyzer Andrade.
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