Dark web e saúde mental: os perigos ocultos dos ambientes virtuais extremos
A internet foi uma das invenções modernas que mais transformou o mundo, em especial, por permitir a criação de um ambiente virtual onde pessoas de todo o mundo podem se conectar e compartilhar ideias livremente. No entanto, essa liberdade também tem seu lados obscuros que já afetam diversas camadas de nosso cotidiano e sociedade, mas que ainda não estamos inteiramente prontos para compreender e evitar: em sites como o 4Chan e Reddit, as comunidades podem gerar o chamado “efeito bolha”, onde os usuários são expostos apenas a ideias que confirmam suas próprias crenças e opiniões, enquanto conteúdo cada vez mais intenso ou capaz de gerar respostas emocionais é beneficiado pelo algoritmo e pelos usuários afetados pela bolha – gerando um ciclo vicioso capaz de tornar ideias moderadas em extremas, e pessoas comuns em potenciais ameaças.
De forma ainda mais preocupante, no entanto, há uma região da internet que não pode ser acessada de forma tão livre e aberta, a denominada dark web. Ao contrário da internet convencional, a dark web é uma rede anônima e criptografada, onde a atividade online não pode ser facilmente rastreada – isso significa que seu conteúdo não pode ser encontrado em plataformas como a busca do Google, e seus usuários podem criar websites que só podem ser acessados por quem já conhece a “senha” necessária para encontrá-los. A dark web é frequentemente associada a atividades criminosas, como a venda de substâncias e objetos proibidos, serviços ilegais, dados pessoais de pessoas comuns, como mostra o relatório da ExpressVPN, e fotografias e vídeos de conteúdo abusivo – é neste ambiente, também, que bolhas ainda mais extremistas e perigosas se formam diariamente, organizando esforços que vão desde manipulação de conteúdo em redes sociais até atentados no mundo real.
O efeito bolha é capaz de radicalizar indivíduos
O efeito bolha é um fenômeno psicológico que se refere à tendência das pessoas de se cercarem de informações, opiniões e perspectivas que confirmam suas crenças e valores pré-existentes. Isso pode criar uma bolha de informação em torno de uma pessoa, onde ela só é exposta a ideias e visões de mundo semelhantes às suas, o que pode levar a uma diminuição da empatia, compreensão e aceitação das opiniões divergentes, além de expor uma pessoa comum aos perigos de uma profunda desinformação sobre conceitos médicos, sociais, e até mesmo uma grande desconexão com o funcionamento do mundo real.
Este efeito, e o abuso de seu mecanismo pelos algoritmos de redes sociais, tem um potencial preocupante de radicalização de indivíduos. O mecanismo psicológico por trás deste fenômeno está relacionado à forma como o cérebro humano processa as emoções, como a raiva, que podem ser ativadas quando uma pessoa é exposta a informações que desafiam suas crenças. O cérebro pode interpretar essas informações como uma ameaça à identidade e aos valores pessoais, desencadeando uma resposta emocional negativa e que gera a visão de oposição entre “meu grupo” e “inimigos”. Esse mecanismo pode ser acentuado nas redes sociais, que amplificam as opiniões polarizadas, criando uma espiral de reforço que pode levar a uma maior radicalização. Infelizmente, esse processo pode resultar em situações extremas, como a adesão a grupos violentos ou a realização de ataques terroristas, como observado em diversos países do mundo na última década – em muitos ataques, autoridades foram capazes de identificar as exatas comunidades e comentários que motivaram o agressor.
A Dark Web não deve ser utilizada
No Brasil, a dark web não é ilegal por si mesma, já que não há leis ou regulamentações que previnam seu uso e, em teoria, existam preocupações reais de privacidade que poderiam justificar o uso de uma rede obscura, como um jornalista entrevistando alguém vazando informações confidenciais. No entanto, é fundamental enfatizar que o acesso à rede é extremamente desaconselhável para usuários comuns, que seriam expostos a uma grande quantidade de conteúdos indesejáveis, psicologicamente danosos, e em muitos casos, infectados com vírus e outros tipos de programas maliciosos para o computador.
É importante ressaltar, também, que os efeitos danosos dos grupos extremistas não existem apenas nesse lado escuro da internet – grupos privados no WhatsApp já foram responsáveis por acidentes médicos e manipulação de resultados eleitorais, além de motivar agressões e até mesmo perseguições em massa. Algoritmos de plataformas como o TikTok e Facebook prometem que moderadores de conteúdo humanos são capazes de prevenir que conteúdo falso, radicalizante ou perigoso seja exibido ao usuário – mas esta solução também conta com sua gama de limitações: embora esses sites tenham políticas claras de proibição de conteúdo ilegal e ofensivo, muitas vezes é difícil para os moderadores acompanhar a grande quantidade de conteúdo postado diariamente. Funcionários dessas empresas relatam frequentemente os danos psicológicos decorrentes da exposição ao conteúdo sem filtros, incluindo casos de depressão e ansiedade. Além disso, o controle manual é limitado e pode deixar passar conteúdos problemáticos, como foi visto no caso do TikTok, que recentemente foi criticado por não conseguir identificar e remover vídeos violentos e adultos que foram publicados por usuários.
Assim a única solução real para o problema das bolhas virtuais é a conscientização do público sobre o efeito, reconhecendo que qualquer pessoa pode sucumbir ao seu modelo predatório e, desse modo, gerar uma sociedade mais adaptada à convivência com as redes sociais, promovendo seu uso positivo e evitando as consequências negativas.