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A Crítica
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Dor crônica afeta  40%  da população brasileira

Casos de hérnia e dor crônica crescem no país e atingem principalmente mulheres da região Norte

Publicado em 17/01/2026 às 21h08
Dor crônica afeta  40%  da população brasileira
Foto: Divulgação

Imagina estar em um simples dia de trabalho, daqueles que parecem que vão ser só mais um no meio da semana, quando a sua vida muda por causa de um movimento que você nunca teve problemas em executar. Foi isso que aconteceu com a estoquista Andréia Xavier, ela trabalha em uma loja de vestuário e acessórios, em Manaus, e quando foi levantar uma caixa que estava no chão, “travou”.

“Eu fui carregar uma caixa e ela não estava pesada, quando tentei me movimentar, travei. Passei dias com dor até que fui ao médico, fiquei afastada do trabalho por dois anos antes da cirurgia”, comentou Xavier.

O que parecia ser uma luxação na lombar, na verdade, foi diagnosticado como hérnia de disco. Foram meses de tratamento até a cirurgia, o último recurso. O procedimento foi um sucesso, mas o problema na coluna deixou dor crônica como consequência. Andréia pertence a uma parcela da população brasileira que cresceu com essa condição.


Andréia pertence a uma parcela da população brasileira que cresceu com essa condição (Jeiza Russo)

 

Nos últimos anos, de 2023 a 2025, a quantidade de pessoas com hérnia, que não possui cura, saltou de 36% para 40% da população, segundo estudos coordenados pelo Ministério da Saúde (MS).

Para a região Norte do Brasil, os dados traçam o perfil das mais afetadas em comparação com o restante do país: uma em cada cinco mulheres sofre com a dor crônica, aquela que dura por mais de três meses. O próprio MS reconhece que existem muitos fatores que podem contribuir para o surgimento dela, como a questão hormonal, por outro lado, o médico ortopedista e traumatologista Marcos Gassen Martins, referência em cirurgia de coluna e medicina da dor, em Manaus, lembra da influência da dupla jornada de trabalho, especialmente a doméstica.

“É dupla jornada porque ela trabalha fora e trabalha em casa também, onde tem uma sobrecarga da faxina. Elas relatam que não conseguem ficar dez minutos lavando uma louça, fazendo um almoço, que já precisa deitar {por causa da dor}”, disse Martins.

Do corpo à mente

A dor crônica é uma das grandes responsáveis por atestados e, em alguns casos, até afastamento total das atividades laborais. Segundo o Ministério da Previdência Social, ela foi a principal causa de faltas no trabalho, em 2024.

Já o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) listou: lombalgia, hérnia de disco, artrose e fibromialgia como as mais recorrentes causas de afastamento temporário por incapacidade no país.

Mas os efeitos colaterais dela vão além do físico, causam dificuldades até na saúde mental. Há estudos que mostram que a dor persistente está fortemente associada a ansiedade, depressão, distúrbios do sono e queda de produtividade. No contexto familiar, os efeitos são claros, a Andréia não conseguia aproveitar os momentos de lazer com o filho e o marido.

“As vezes eu ia à Ponta Negra andar com meu marido e meu filho e eu tinha que parar porque a dor ferrava e ela irradiava para o pé, para o joelho… Hoje em dia eu tenho uma vida mais feliz”, disse.


A medicina avançou significativamente nos últimos anos, hoje é possível contar com técnicas minimamente invasivas (Jeiza Russo)

 

O doutor Marcos afirmou que a relação entre dor e tristeza pode ser explicada através da dinâmica desses dois fatores no cérebro humano. Ocorre que eles dividem a mesma área de regulação, isso quer dizer que uma alteração da percepção da dor provoca uma disfunção de humor e cria uma espécie de ciclo vicioso onde um fica condicionado ao outro.

“Isso leva a uma perda significativa da qualidade de vida e no trabalho, gera ausências e até maior procura por atendimentos no pronto-socorro”, disse.

Diagnóstico, tratamento e prevenção

Como já foi dito, condições externas e genéticas podem causar a dor crônica, mas existe um alerta sobre o diagnóstico. O médico ortopedista e traumatologista Marcos Gassen Martins destacou que é uma etapa de bastante atenção porque ela, inicialmente, pode não ser a doença, mas o sintoma de alguma delas. Chega um momento em que a dor se “cronifica”, a enfermidade inicial se cura, mas a dor permanece.

Em muitos casos, ela surge de uma dor aguda que não foi tratada ou cujo tratamento foi inadequado; neste segundo caso pode ser resultado tanto de equívoco médico, quanto negligência do paciente em parar com a administração dos remédios. Outro ponto importante é a automedicação, que sempre deve ser evitada, e no atual cenário pode trazer complicações.

O diagnóstico preciso requer tempo e uma boa investigação, mas uma vez identificada a condição médica possui diversas formas de ser combatida, especialmente com o intuito de aliviar ao máximo possível os sintomas.

O que vai ser determinante para cada medida é a forma como o paciente reage e o tipo de dor que ele tem; nos casos agudos, as medicações podem surtir um bom efeito quando são prescritos analgésicos, opioides.

Mas, na recorrência é preciso de mudança no estilo de vida, buscar a fisioterapia, acupuntura e até os procedimentos cirúrgicos. A medicina avançou significativamente nos últimos anos, hoje é possível contar com técnicas minimamente invasivas; entre os tratamentos mais utilizados atualmente estão os procedimentos guiados por imagem; cirurgia endoscópica da coluna; neuromodulação para dor crônica, como implantes medulares e periféricos e tratamento integrado da dor ortopédica.

Sempre procurar um profissional

Sob qualquer suspeita, um médico deve ser procurado. Geralmente um ortopedista, porém, se forem dores abdominais, pode-se buscar por um neurocirugião, Neurologistas e reumatologistas também podem ser consultados. Quanto mais cedo se tiver o diagnóstico, melhor é o tratamento, mas quando o assunto é prevenção a unanimidade é vencer o sedentarismo.

“O nosso mantra na ortopedia é que o movimento é vida, ficar muito tempo sentado ou deitado causa sobrecarga muscular. Exercício, invariavelmente, é necessário. Mas, não adianta só fazer exercícios, costumo dizer aos pacientes que somos máquinas, que precisamos de manutenção. Um carro que roda 300 quilômetros vai desgastar muito mais rápido do que aquele que anda uma vez por semana. Descanso e hábitos saudáveis tem que estar em dia”, completou o médico ortopedista e traumatologista Marcos Gassen Martins.

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