Efeito ‘Trump’ sobre o PIM ainda é incerto
Candidato republicano foi eleito presidente dos EUA com o discurso protecionista de taxação de exportações
Representantes da indústria, do governo amazonense e pesquisadores afirmaram que é muito cedo para avaliar o impacto da eleição de Donald Trump na Zona Franca de Manaus (ZFM), mas minimizaram qualquer medida que ele possa vir a tomar a partir do ano que vem. O republicano foi eleito na madrugada desta quarta-feira com promessas de taxação das importações feitas pelo país.
Somente no ano passado, as exportações do Estado do Amazonas incluindo as indústrias do Polo Industrial de Manaus (PIM) exportaram 922,6 milhões de dólares para o mundo, com 56,5 milhões somente para os Estados Unidos, equivalente a 6,13% do total, segundo dados da Secretaria de Estado de Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Sedecti). Até setembro de 2024, o PIM exportou 789,7 milhões de dólares, sendo que 84,6 milhões foram para os Estados Unidos, equivalente a 10,72% do montante.
Apesar das promessas protecionistas de Trump, membros do governo e da indústria não veem um forte impacto na Zona Franca de Manaus. O titular daSedecti, Serafim Corrêa, afirmou que não crê que o país crie obstáculos para o principal produto de exportação da ZFM para eles, que são as motocicletas.
“Mas o cenário internacional é dinâmico, tem momentos que, por alguma razão, um país cria barreiras, em outro momento ele faz o inverso, tira as barreiras. Há essa ameaça do Trump de fazer um protecionismo, mas creio que isso diz respeito muito mais à China do que em relação ao Brasil. Portanto, vamos aguardar”, disse.
Baixo impacto
O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), Antonio Silva, avaliou que as exportações locais “não devem sofrer grandes sanções” por parte do governo de Donald Trump no próximo ano. Segundo ele, a pauta da exportação do polo industrial é constituída principalmente “de produtos do setor primário e de produtos manufaturados por empresas de capital norte-americano localizadas” no PIM.
Ele relembra que a balança comercial das indústrias da ZFM com os Estados Unidos “sempre foi deficitária, ou seja, o estado importa muito mais do que exporta para o país”.
“O país é o segundo do qual o Amazonas mais importa e somente o sexto principal destino das nossas exportações. Esse panorama apresenta tendência de mudança em 2025, em decorrência da crise que assola nossos países sul-americanos vizinhos”, disse.
O superintendente da Zona Franca de Manaus, Bosco Saraiva, também minimizou os impactos de um possível protecionismo norte-americano nos próximos anos.
“As exportações do PIM para a América do Norte são feitas basicamente por empresas americanas. Como exemplo podemos citar a marca Harley-Deyvidson, de motocicletas. Não cremos em nenhuma afetação dos nossos negócios com os Estados Unidos”, avaliou.
Procurada pela reportagem, a Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo) seguiu o mesmo tom e afirmou que o momento ainda “é precoce para dar um posicionamento sobre a eleição de Donald Trump”.
‘Não vale a pena entrar no processo de preocupação’
A economista Michele Aracaty, docente do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), ressaltou que ainda é muito cedo para a indústria amazonense se preocupar com o protecionismo dos Estados Unidos, o qual, segundo ela, sempre teve esse perfil em sua economia.
Apesar dos temores que qualquer mudança que os Estados Unidos façam em sua política, por serem uma das maiores economias do mundo, ela lembra que “não seria nenhuma novidade qualquer tipo de novas ações referentes a um protecionismo da economia americana”.
“Nos últimos anos, nós temos visto muitas atividades, principalmente em relação aos Estados Unidos e China, serem abaladas pelo comércio internacional. Lá atrás, Estados Unidos e China tinham muitas atividades em comum, com o passar dos anos, a gente tem visto isso se retroceder. Mas eu acho muito cedo a gente começar a se preocupar com esse aspecto do protecionismo”, disse.
Segundo ela, a principal razão é que os países estão esperando “uma atitude mais intensa” por parte de Donald Trump que pode não ser “tão intensa como ele está falando”.
“Os Estados Unidos vão sempre buscar atender a sua expectativa. Primeiro os Estados Unidos e depois o mundo. E hoje a gente tem uma economia cada vez mais interligada. A gente nem pode mais usar o termo globalização, porque já faz parte do passado. A economia sim, ela é completamente interligada e interdependente”, disse.
Sobre a Zona Franca de Manaus, Michele Aracaty reitera que é muito cedo para se preocupar com isso, “até porque a gente precisa ter em pauta qual é o peso percentual da participação da economia americana em relação às exportações do Polo Industrial de Manaus”, que tem outros parceiros comerciais além dos Estados Unidos.
“Não vale a pena a gente entrar no processo de preocupação intensa ou mesmo de um desespero em relação ao comércio internacional, porque isso é realmente muito recente”.