‘Imperioso é retirar as pessoas dessas áreas de risco’, diz doutor em Geografia Humana
Marcos Castro avalia que o poder público tem responsabilidade sobre a tragédia do Jorge Teixeira
Doutor em Geografia Humana (USP), Marcos Castro considera haver responsabilidade do poder público na tragédia ocorrida neste domingo, no bairro Jorge Teixeira, em Manaus. Um deslizamento de terra em área de risco resultou na morte de oito pessoas, sendo quatro crianças.
“Se o poder público sabe que pode ocorrer uma tragédia e não faz nada, tem que haver uma responsabilidade por isso. Existem dois conceitos básicos chamados gestão e planejamento. Não dá para fazer gestão sem planejamento. A gestão é o agora. N ão adianta fazer gestão da tragédia. Deveria ter feito planejamento para que a tragédia não acontecesse”, afirma o especialista.
Segundo o Corpo de Bombeiros do Amazonas, a área em que houve o deslizamento no Jorge Teixeira é um dos 25 pontos na capital do estado classificadas como risco iminente de desabamento.
No mês passado, a diretora substituta do Centro nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Regina Alvalá, afirmou que Manaus é a cidade para qual mais emitiram alertas de deslizamento desde 2016.
“As ações posteriores à tragédia sempre visam remover os problemas imediatos. Levam a escavadeira, procuram os corpos, lamentam na imprensa, vai o governo, a prefeitura, dizem que estão ajudando as famílias, que vão ajudar com o velório, mas isso não traz a vida de volta, a questão tem que ser tratada antes”, pontua o geógrafo.
Socioambiental
Pesquisador há duas décadas de geografia urbana de cidades da Amazônia, Castro ressalta que a tragédia ocorrida em Manaus é, principalmente, um problema socioambiental. O primeiro ponto é todo o processo de ocupação de áreas de encosta ou fundos de vale, fazendo com que a vegetação do local seja retirada, deixando o solo enfraquecido e mais suscetível às chuvas, resultando nos deslizamentos.
“Já a questão social é porque afeta as pessoas que estão morando ali e não têm para onde ir, porque ninguém pode dizer que a pessoa mora em área de risco porque quer, isso é um discurso que camufla o processo de desigualdade pela terra urbana”, comenta Marcos Castro.
Ele diz que a melhor solução para evitar novas tragédias é a retirada imediata das famílias. “Usar alertas de SMS, como fazem, é importante, mas isso já é no momento da ocorrência. O que é imperioso é retirar as pessoas dessas áreas de risco, fazer um cadastro, uma campanha, pagar um aluguel social”, sugere.
Intervenção
O prefeito David Almeida (Avante) afirmou, ontem (13), que Manaus solucionou problemas de grandes erosões em 17 locais da cidade. Além disso, anunciou ação imediata para evitar deslizamentos no bairro Monte das Oliveiras, onde já houve erosão do solo.
“Nós temos 62 áreas como esta em que estamos aqui fazendo a intervenção. Fomos no Jorge Teixeira, vamos entrar no conjunto João Paulo, no Santa Inês, já estamos no conjunto Francisca Mendes, só que as chuvas são muito intensas e isso acaba prejudicando o trabalho”, disse.
Os moradores da área afetada pelo desabamento no Jorge Teixeira foram alocados provisoriamente na Escola Municipal Helena Augusta Walcott localizada na rua Itaúba, bairro Jorge Teixeira. Segundo a diretora de área da Secretaria Municipal de Assistência Social (Semasc), Ana Nascimento, as famílias ficarão abrigadas na escola até receberem o auxílio aluguel municipal.