Mandato tampão é estratégico na guerra eleitoral das máquinas
Pleito de outubro, no Amazonas, colocará em confronto o poder de alavancar votos das administrações municipais, federal e estadual
A pressa para eleger o novo governador do Amazonas na eleição tampão de 4 de maio revela o peso da máquina estadual na disputa de outubro. Os cálculos de votos na Assembleia Legislativa (Aleam) e a renúncia surpresa do ex-governador Tadeu de Souza (PP) indicam que ninguém trata da eleição indireta sem olhar para o pleito geral.
Até o momento, o cenário favorece o deputado estadual e governador interino Roberto Cidade (União). Ele está em seu terceiro mandato como presidente da Aleam e tem forte influência sobre os deputados, únicos a votarem no pleito indireto.
A posição pode fortalecer Roberto Cidade tanto para uma eventual vice em uma chapa (hipótese que parece cada vez menos provável) quanto para uma candidatura ao governo no período de 2027–2030.
Neste cenário, Roberto Cidade embaralharia o jogo que já conta com os pré-candidatos Omar Aziz (PSD), Maria do Carmo (PL) e David Almeida (Avante) entre os principais nomes nas pesquisas.
Nos bastidores, porém, há quem diga que um acordo ainda pode surgir. Roberto Cidade poderia apoiar um candidato, como Omar Aziz, compartilhando o peso da máquina na campanha e até mesmo ocupando a vice. A mais de seis meses da eleição, nada está descartado.
Essa possível parceria, inclusive, poderia ser explicada pelo fato de Aziz não ter se colocado publicamente como adversário de Cidade na eleição indireta, embora siga fazendo contas nos bastidores, sempre de olho no pleito de outubro.
Poder da máquina
As máquinas do governo, das prefeituras e até de entidades importantes no estado, como a Associação Amazonense de Municípios (AAM), são consideradas essenciais para uma vitória eleitoral – embora não sejam garantia de êxito. É o que explica o cientista político Afrânio Soares, da Action Pesquisas.
“As máquinas ainda são muito importantes nas eleições e a do governo é quatro a cinco vezes maior do que a de Manaus, que é a maior entre os municípios. Você não tem só orçamento, mas indicações políticas, capilaridade no interior e recursos para as prefeituras”, disse Afrânio Soares.
Se eleito para o mandato tampão, Roberto Cidade terá a possibilidade direcionar justamente essa força para uma candidatura própria ou de uma aliança. Mas ele não concentra todas as forças eleitorais disponíveis.
Do ponto de vista das máquinas, o senador Omar Aziz também tem o apoio da mais poderosa do país, o governo federal sob o presidente Lula (PT), seu aliado. Além disso, o presidente da Associação Amazonense de Municípios (AAM), Anderson Sousa, também caminha com ele. A entidade representa os interesses das prefeituras no meio governamental.
Enquanto isso, o ex-prefeito de Manaus, David Almeida, conta com a máquina municipal do prefeito da capital, Renato Júnior (Avante), seu aliado, para fortalecer a candidatura. Já a empresária Maria do Carmo Seffair, que se apoia no bolsonarismo, também tem nos seus investimentos privados uma alavanca para a campanha.
A cientista social Marilene Corrêa vê um cenário aberto.
“Acho que essas próximas duas semanas vão ajudar a definir o resultado da eleição indireta, vão definir o espaço de intervenção [no pleito de outubro] e o próprio projeto político do Cidade, que sempre quis ser governador e conseguiu”, afirmou a socióloga.
Prefeituras
Outra força que naturalmente é procurada nas eleições é a das prefeituras. Enquanto a capital está com David Almeida, os outros 61 municípios são um campo aberto. O presidente da AAM, Anderson Sousa, diz que os prefeitos estão com Omar Aziz, mas um cenário com Roberto Cidade poderia alterar as forças.
Enquanto isso, só nos dez maiores colégios eleitorais do Amazonas, que reúnem juntos mais de 500 mil eleitores, o orçamento das prefeituras está na média dos R$ 355,4 milhões. Um em cada cinco eleitores amazonenses está em uma dessas cidades. Os dados são de um levantamento de A CRÍTICA.
Nos três maiores, Manacapuru, Itacoatiara e Parintins, o caminho é para apoio a Omar. Os prefeitos são, respecticamente, Valcileia Maciel (MDB), Mario Abrahim (Republicanos) e Mateus Assayag (PSD).
“O apoio do prefeito, especialmente se bem avaliado, influencia bastante. Essa busca de apoios já está acontecendo há tempos. Omar Aziz articula no Senado para o interior do Estado. Não que não faça pela capital, mas no interior a penetração é invejável. O David Almeida não tem tanta capitalidade, mas pode se estruturar trazendo para si lideranças. Há pessoas nos municípios que influenciam os votos, como pastores, professores, pessoas importantes nas cidades”, diz Afrânio.
Senado
Na disputa para o Senado, o impacto também pode começar a ser medido. Marilene Corrêa destaca que a presença de Wilson Lima reduz as possibilidades do campo da esquerda e fortalece a direita. Ele também sai com o apoio do governo interino e da Associação dos Municípios.
“O presidente da Associação dos Municípios está puxando o Wilson Lima, apresentando como candidato para fazer a dobradinha com o Eduardo Braga. Além disso, ninguém pode esquecer que o Wilson foi governador duas vezes, ele tem uma base eleitoral que trabalhou durante oito anos”, avaliou Marilene.
Outros pré-candidatos ao Senado no Amazonas são: Plínio Valério (PSDB), Capitão Alberto Neto (PL), Chris Melchior (PSB), Marcos Rotta (Avante), Rodrigo Sá (Progressistas) e Ismael Munduruku (Rede).