Nova onda do petróleo no Amazonas reacende dilema ambiental e econômico
Na semana em que a Petrobras suspende a prospecção de petróleo na Foz do Amazonas por vazamento de fluidos, outra frente de exploração dos fósseis se abre: em Coari, no Amazonas, com perfurações previstas para o segundo semestre
O anúncio de uma nova frente de exploração de petróleo no Amazonas, após dez anos sem perfuração de poços, tem dividido especialistas e o governo estadual, responsável pela regularização do projeto. De um lado, o plano bilionário é apontado como estratégico para a economia do estado. De outro, a iniciativa expõe o conflito entre a expansão do combustível fóssil e o discurso de transição energética defendido pelo Brasil, inclusive na COP 30, em Belém.
O projeto da Petrobras prevê a abertura de novos poços no Polo de Urucu, em Coari (a 442 quilômetros de Manaus), e está em análise na Secretaria de Estado das Cidades e Territórios (Sect). A empresa de energia estima investir cerca de US$ 500 milhões nesta etapa, que inclui a perfuração de 22 poços e a implantação de aproximadamente 40 quilômetros de linhas, com início previsto para fevereiro.
A coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima, Suely Araújo, afirmou que a retomada vai na direção contrária às prioridades ambientais do país.
“Entendo que a retomada das perfurações na região de Urucu-Coari vai na direção contrária do mapa do caminho nacional para o afastamento da dependência dos combustíveis fósseis, demandado pelo próprio Presidente da República. O estado do Amazonas não deveria apostar nos fósseis como solução para seus problemas econômicos”, disse.
A pesquisadora destacou que o estado deveria priorizar alternativas que não dependam de combustíveis fósseis. “Precisamos declarar a Amazônia como um território livre do petróleo. A região e o Brasil ganharão muito mais com isso do que apostando em soluções que desconsideram a gravidade da crise climática”.
RISCOS
A queima de carvão, petróleo e gás natural é responsável pela maior parte das emissões de gases de efeito estufa (GEE) globais, como o dióxido de carbono. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) estima que os combustíveis fósseis representam cerca de 70% do problema global de emissões, agravando os extremos do clima que já afetam, inclusive, a Amazônia, com secas e cheias mais intensas.
Questionado sobre a transição energética e as preocupações de reduzir a utilização de combustíveis fósseis, o secretário de Estado de Energia, Mineração e Gás (Semig), Ronney Peixoto, informou que esse processo é gradativo e já está acontecendo no Amazonas.
“A transição energética não é algo que vai acontecer do dia para a noite, é um processo. Um exemplo aqui: nós temos hoje 97 sistemas isolados que usam óleo diesel vindo do petróleo. Hoje, o consumo é de cerca de 1,5 milhão de litros de óleo diesel por dia para suprir essas termelétricas em diversas localidades. Só que já tem várias que estão no processo de hibridização de utilização de energia solar, de outras fontes de energia para substituir o consumo do diesel; portanto, isso já é transição energética, já está acontecendo”, afirmou.
ECONOMIA
A economista Denise Kassama avalia que uma nova perfuração trará mais arrecadação ao estado, permitindo maior disponibilidade de recursos para investimentos estruturais.
“A retomada da exploração do petróleo e gás rende milhões para o município e uma arrecadação gigantesca para o estado do Amazonas em ICMS. Então, ganha o estado, ganha todo mundo. E ganha o município, que, além de ter um repasse maior de ICMS, também vai faturar com os Royalties”, disse.
Kassama afirmou que os repasses aumentaram para Coari desde que as perfurações iniciaram e que, em tese, deveriam virar políticas públicas para aumentar a qualidade de vida da cidade.
“Em 2023, o município recebeu R$ 83 milhões em Royalties. Coari não é um município muito grande, daria para fazer muita coisa boa. Na verdade, entendo que, com esse recurso, Coari poderia ser uma cidade de primeiro mundo”.
Embora entenda a exploração como positiva para a arrecadação pública, a economista faz questão de ressaltar que Coari, apesar de explorar petróleo há mais de 30 anos, continua com problemas básicos que impactam a vida da população.
“Eu diria que o fator principal é a questão da administração pública, de priorizar, de ter transparência no gasto público, porque é muito dinheiro”, avaliou.
INVESTIMENTO
Desde o início do governo Lula 3, a Petrobras tem sido pressionada a ampliar ações de transição energética. Em outubro, após o início da perfuração na Foz do Amazonas, a presidente da companhia, Magda Chambriard, afirmou que a estatal investe na redução da intensidade de carbono de seus produtos, incluindo o chamado escopo 3.
“Estamos projetando combustíveis renováveis, diesel com 10% de óleo renovável, bunker de navegação com 24% de renovável, o SAF [combustível sustentável de aviação] com 1,2% de renovável. Estamos fazendo asfalto mais verde, coque mais verde, temos gasolina de carbono neutro”, enumerou.
Secretário vê benefícios para setor energético
O Secretário de Estado de Energia, Mineração e Gás (Semig), Ronney Peixoto, destacou a iniciativa como uma oportunidade para o estado alavancar o setor energético.
“O Amazonas se destaca com esse polo energético que ele se tornou. Nós temos hoje o polo industrial, que tem a nossa economia baseada nele, mas hoje, como alternativa econômica consolidada, a gente tem o polo de energia e de mineração”, disse.
Ele ressaltou que no setor energético já há destaques para Silves e Itapiranga, onde há exploração de gás natural, e que há uma expectativa de que Itacoatiara também inicie perfurações.
“Possivelmente, Itacoatiara também vai iniciar umas perfurações. E esse investimento anunciado pela Petrobras é um reflexo de tudo isso. Porque, se nós olharmos o Amazonas e o Brasil como um todo, as reservas que nós temos hoje em Urucu, por exemplo, elas dão para atender o mercado local até 2030”.
O secretário afirmou que as novas perfurações estão no planejamento como tentativa de aumentar as reservas já existentes.
“São 22 poços, 20 são em áreas já conhecidas. Então, sabe que tem óleo nessa área e ali eles vão aumentar a produção. E dois poços são poços exploratórios, para novas descobertas, ampliação do campo. Então, quando eles vão perfurar esses novos poços, eles já têm uma expectativa de que vai aumentar ali a reserva verificada”, destacou.
DESENVOLVIMENTO
Ronney Peixoto avalia que a nova perfuração em Coari trará maior desenvolvimento econômico para o estado, com geração de emprego e renda.
“Isso gera emprego, gera renda para a população. Então, o governo tem uma preocupação grande com o impacto que isso tem na sociedade. Com esse aumento da economia, isso melhora a qualidade de vida para as pessoas, aumenta a renda da população, movimenta mais a economia. A exemplo disso, a gente olha ali municípios como Silves e Itapiranga, que têm hoje uma nova realidade econômica com mercado de energia”, disse.
Destaque
O governo Lula, apesar de defender a transição para longe dos combustíveis fósseis, também tem aberto novas fronteiras exploratórias, como a prospecção do petróleo na Foz do Amazonas, no Amapá. Nesta semana, a atividade foi suspensa após o vazamento de 15 mil metros cúbicos de um líquido que a Petrobras diz ser biodegradável.