Programa de inovação e empreendedorismo capacita jovens na Amazônia
Vinte estudantes desenvolveram soluções inovadoras, incluindo uma plataforma de inteligência artificial para diagnóstico de malária
O Programa de Empreendedorismo e Inovação em Bioinformática, desenvolvido pelo Hospital Israelita Albert Einstein em parceria com a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e com o apoio do grupo Bemol, concluiu sua primeira edição, formando jovens talentos em uma interface vital entre tecnologia e saúde.
A iniciativa promoveu a capacitação de 20 estudantes, selecionados entre 150 inscritos, para desenvolverem projetos inovadores que buscam soluções para a saúde e a biodiversidade da região Norte.
Gabriela Xavier, gerente de inovação do Einstein, ressaltou a importância desse programa em entrevista exclusiva à reportagem de A CRÍTICA.
“O programa tem um papel transformador ao conectar a capacitação técnica em bioinformática com o empreendedorismo voltado à bioeconomia amazônica. Em uma região com escassez de formação especializada — especialmente em áreas estratégicas como a bioinformática —, a iniciativa se destaca por preparar pessoas não apenas para o mercado de trabalho, mas para liderar a criação de soluções inovadoras baseadas no nosso patrimônio genético.”
Segundo Xavier, os 20 bolsistas, após o programa, têm “ferramentas para transformar conhecimento em empreendedorismo”, enfatizando o impacto positivo que isso pode ter na geração de renda e no desenvolvimento sustentável na Amazônia.
Sobre o programa, Gabriela também comentou sobre a relevância da formação prática oferecida. “Os alunos tiveram a oportunidade de trabalhar em projetos reais, o que não apenas fortaleceu seu aprendizado, mas também os preparou para atuar em ambientes de alta pressão. Eles aprenderam sobre propriedade intelectual, modelo de negócios e inovação aplicada.”
Flávia Avelino, estudante do Curso de Medicina da UEA. (Foto: Junio Matos/A CRÍTICA)
Ela enfatiza que isso abre um caminho para que a bioinformática se torne um campo de pesquisa e uma nova fonte de geração de oportunidades na região: “Estamos criando não apenas profissionais, mas agentes de mudança que podem impactar suas comunidades”, completou a gerente de inovação.
O programa, que teve uma carga horária de 350 horas e uma taxa de conclusão de 90%, incluiu um módulo específico sobre inovação e empreendedorismo, onde dois projetos notáveis foram premiados. Um deles é uma plataforma de inteligência artificial para diagnóstico de malária, idealizada por um grupo de alunos, incluindo Flávia Avelino, estudante do Curso de Medicina da UEA.
Em entrevista, Flávia explicou: “Nossa ideia nasceu de uma pergunta simples, mas ambiciosa: seria possível criar uma solução capaz de diagnosticar malária em larga escala, de forma barata, acessível e escalável, especialmente no interior dos estados do Norte do Brasil?”
Ela destacou a relevância do projeto ao afirmar que “escolhemos a malária porque ela ainda é muito presente na nossa região e representa um grande desafio para a saúde pública.”
Flávia também comentou sobre os desafios enfrentados: “Entrar de cabeça nesse mundo da programação sem ter uma base prévia foi bem desafiador, mas a possibilidade de tirar dúvidas com colegas da área da tecnologia facilitou bastante as coisas.” Além disso, ela ressaltou o apoio do programa: “O apoio do Projeto na forma de um computador potente e de bolsas mensais foi essencial para que eu pudesse vencer essa curva de aprendizado.”
Fomento às novas tecnologias
Sobre a importância da tecnologia, Flávia acrescentou: “Esse resultado mostrou que a IA tem um potencial enorme para o diagnóstico de parasitoses e outras doenças infecciosas. Com um pouco mais de estrutura e investimento, dá pra alcançar um desempenho ainda melhor.” Ela enfatizou: “Ver tudo isso de perto me fez perceber o tamanho da revolução que está acontecendo — não só na pesquisa, mas também no dia a dia da prática médica.”
O professor Dr. Jucimar Maia da Silva Jr, coordenador-geral do programa pela UEA, comentou sobre a importância dessa iniciativa.
“Ideias geradas nas bancadas dos nossos laboratórios e nas salas de aulas se transformaram em soluções concretas para a nossa região. Agora, a UEA também é referência no setor de bioinformática [….] Temos orgulho de produzir ciência de ponta na cidade mais importante da Amazônia, formando mão de obra altamente qualificada e pronta para empreender com responsabilidade e impacto social”, descreve o professor do Núcleo de Computação da UEA.
Jucimar também detalha os esforços da UEA para fomentar a cultura de inovação entre seus estudantes. “Nos últimos dois anos, implementamos políticas de incentivo à inovação e ao empreendedorismo no ensino, na pesquisa e na extensão. O Laboratório Ludus, por exemplo, formou profissionais que agora dominam o mercado de jogos eletrônicos, mostrando que a educação de excelência gera oportunidades.”
Iniciativas para o futuro
O professor acredita que esta abordagem integrativa é crucial para moldar o futuro dos alunos: “Estamos preparando nossos estudantes para se tornarem líderes e inovadores em suas áreas, sempre em sintonia com as demandas do mercado.”
Estudantes desenvolveram sistema de organização de dados biológicos de fungos. (Foto: Divulgação)
Além disso, Jucimar destacou a importância da interdisciplinaridade nas formações: “Trabalhar em projetos que unem diferentes áreas do conhecimento, como biologia, computação e empreendedorismo, é fundamental para que os alunos desenvolvam uma visão ampla e possam inovar de maneira efetiva.”
Flávia Avelino ressaltou a importância do projeto em sua trajetória: “O Baré tornou mais palpável e possível o meu sonho de ser cientista e pesquisar doenças infecciosas, especialmente aquelas que acometem principalmente populações vulnerabilizadas.”
Ela expressa também gratidão pela oportunidade e pela experiência adquirida, destacando que “nada disso teria sido possível sem o conhecimento e recursos financeiros que adquiri ao longo do Projeto Baré.”
Apoio à ciência
Para Denis Minev, CEO da Bemol, o apoio a iniciativas como essa é fundamental: “Não existem alternativas para atingir um grau de prosperidade na Amazônia que não passem pelo desenvolvimento de talentos, especialmente no que diz respeito ao empreendedorismo”, aponta.
Minev também destacou a singularidade da biodiversidade amazônica.
“A biodiversidade é um dos fatores que torna a Amazônia singular, reconhecida como um dos maiores patrimônios do Brasil. Entretanto, não aprendemos ainda a utilizá-lo em benefício próprio e da humanidade.”
Resultados promissores
Os resultados do programa não se restringem apenas à formação técnica. Gabriela Xavier acredita que “os próximos passos do Einstein estão fortemente conectados com o compromisso de longo prazo que assumimos com a região.” Ela menciona ainda que o Centro de Inovação em Saúde, inaugurado em abril de 2024, já está desenvolvendo sete projetos em áreas prioritárias como saúde materna e doenças tropicais, sempre buscando reduzir iniquidades em saúde. “Estamos focados em construir um legado que queremos deixar na região”, completou.
Flávia também sublinhou a importância da educação: “Acredito fortemente que o incentivo à educação é a única forma de mudar o mundo para melhor de forma duradoura, real e justa.”
Ela finalizou sua participação ressaltando seu desejo de que mais projetos dessa natureza surjam no futuro.
“Espero que outros alunos das nossas instituições de ensino também tenham a chance de conhecer a fundo essa área e, quem sabe, se tornarem grandes pesquisadores e cientistas com descobertas que mudem para melhor a vida e a assistência à saúde das nossas populações.”