Quase 80% do PIB do AM é produzido em Manaus
Com 55% da população do Estado, a capital concentra a maior parte da produção da riqueza por conta da produção industrial da ZFM
Manaus concentra quase 80% da geração de riqueza do Estado, segundo os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados nessa semana. A cidade que, em 2020 foi o quinto Produto Interno Bruto do País, responde por 79,10% do PIB do Amazonas, enquanto outros quatro municípios não chegam a 2% de participação.
Dos cerca de 4,1 milhões de habitantes do Amazonas, 2,2 milhões, vivem na capital, o que presenta 55% do total. Os outros 45% residem nos 61 municípios do interior do Estado, ou seja, mais de 1,8 milhão de pessoas.
Itacoatiara, o segundo maior PIB, correspondeu a 1,96% de participação; seguida de Coari, com 1,66%; Manacapuru, com 1,23%, e Parintins, com 1,14% do PIB estadual. Os municípios do Estado com menores participações no PIB estadual foram Japurá, com 0,05%, Amaturá, 0,09%, e Itamarati, com 0,09%.
A indústria de transformação foi o principal fator de incremento do PIB em Manaus, em função do modelo de desenvolvimento da Zona Franca de Manaus (ZFM). Como os incentivos se concentram na capital e na Região Metropolitana, concentra-se também a geração de riqueza.
A análise do IBGE das principais atividades econômicas, na Amazônia Legal, retrata bem a realidade do Estado – com a exceção de Manaus, obviamente por conta da Zona Franca. Na região composta por 772 municípios, a maior atividade em 506 cidades foi a administração pública, em 132 as lavouras, em 51 os demais serviços (serviços, excluindo comércio e a administração pública), e em 28 a pecuária.
Dependência
A análise confirma a dependência dos municípios menores quanto aos repasses federais e estaduais pela falta de alternativa econômica.
A falta de indústrias e outras alternativas permanentes no interiordo Estado é destaca pelo presidente do Conselho Regional de Economia do Amazonas (Corecon-AM), Marcus Evangelista. Para ele, a atração de indústrias no interior é caminho para manter os recursos e a mão de obra nesses municípios.
“Onde tem indústrias com geração de empregos, tem comércio e ofertas de serviços transformando e deixando a economia aquecida. É um desafio para os governos”, diz o economista.
Evangelista lembra que iniciativas tentaram incrementar a economia do interior do Estado como a criação da Região Metropolitana de Manaus (RMM).
“Mas não teve grande efeito por vários fatores que vão desde falta de mão de obra qualificada, isolamento geográfico e dificuldade de escoar produção”, argumenta.
Na outra ponta, este ano, por exemplo, segundo projeções feitas pela Federação da Indústria do Estado do Amazonas (Fieam), o Polo Industrial de Manaus (PIM) terá um faturamento de R$ 179,8 bilhões, 10,42% superior ao do ano passado. O PIM deve fechar o 2022 com alta de 3,32% em relação à média de empregos do ano anterior, com 112.961 postos de trabalho.
Governo lançará um programa
No seu segundo mandato, o governador do Amazonas, Wilson Lima deverá implementar um amplo programa de desenvolvimento sustentável que impactará o interior do Amazonas.
Quem garante é o secretário-executivo da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação (Sedecti), Valdenor Cardoso. Citando um mapeamento que foi apresentado no Forum Permanente de Desenvolvimento Sustentável , em 20 de junho.
“O fórum identificou 15 vetores de desenvolvimento no Estado, sendo que 14 são fora da área de Manaus e atendem às demandas de descentralização da riqueza para o interior”, diz Valdenor.
As áreas envolvem atividades como piscicultura, manejo florestal, mineração, petróleo e gás e outras.
“Em oito meses com o secretário Angelus Filgueiras à frente da secretaria nós estamos construindo pontes dentro e fora de Manaus com todo o apoio do governador Wilson Lima“, destaca o secretário-executivo.
Projetos e obras aquecem a economia
O coordenador executivo da Unidade Gestora de Projetos Especiais (UGPE), engenheiro civil Marcellus Campêlo, destaca investimentos em obras e projetos do governo do Amazonas no interior que contribuem para o desenvolvimento dos municípios e ajudam na geração de renda e riqueza, segundo o gestor.
Em 2022, as obras feitas através da UGPE chegaram a pelo menos 38 municípios. São convênios firmados com as prefeituras e obras diretas, que somam aproximadamente R$ 600 milhões em investimentos.
Conforme Campelo, embora não seja finalidade específica da UGPE gerar desenvolvimento econômico no interior, as obras e programas que o órgão executa aquecem os mercados locais, fomentando toda uma cadeia produtiva. São ações que se refletem na geração de empregos ou na movimentação econômica que promove nos serviços oferecidos, como hotéis, restaurantes, transporte, além do comércio.
“A construção civil é a área que mais emprega com carteira assinada e, quando levamos obras para o interior, também estamos induzindo o desenvolvimento e ajudando a gerar riqueza”, observa o coordenador. “A construção de ramais, por exemplo, ajuda a escoar a produção agrícola”, complementa.
Marcellus também cita a implantação, pela UGPE, do Programa Ilumina+ Amazonas, que substitui as lâmpadas antigas da iluminação pública por luminárias de LED, mais econômicas e sustentáveis, contribuindo com a segurança, o turismo e o meio ambiente.
“Com as ruas iluminadas, os comerciantes e vendedores autônomos podem estender seus horários de funcionamento, aumentando a expectativa de renda”, completou.
O Ilumina+ Amazonas acaba de implantar luz de LED em 29 municípios, concluindo a primeira fase do programa, que contou com investimentos de cerca de R$ 138 milhões.
Já os convênios com as prefeituras do interior somam R$ 370 milhões, a maioria para a recuperação viária na sede e na zona rural dos municípios. Somam-se, ainda, obras na Saúde, como o hospital de Manacapuru, que tem R$ 78,9 milhões em investimentos.
Outros investimentos do Estado, via UGPE, em andamento no interior, são as obras complementares do Programa de Saneamento Integrado do Interior (ProsaiMaués). “Quando realizamos obras de saneamento, água e esgoto, a população adoece menos, deixa de ir para a unidade de saúde, deixa de faltar ao trabalho, que são efeitos diretos e indiretos, além da geração de emprego e renda”, destaca.
Outra forma de contribuir com a geração de riqueza, explica Campêlo, é com os impostos que as obras e serviços proporcionam às prefeituras. “Uma obra de R$ 1 milhão gera 2% de recolhimento de ISS (Imposto Sobre Serviços), ou R$ 20 mil, assim como o material comprado no município também gera ICMS (Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviço). Essa movimentação contribui com o PIB das cidades”, reforçou.
Blog
Valdenor Cardoso, secretário-executivo da Secretaria de Des. Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação
“Manaus tem uma atração natural de interesse porque seu nome se relaciona com tudo que diz respeito à Amazônia. O ‘Selo Amazônia’ desperta a atenção, é um fator de atração com rios e a floresta. Além disso, a dinâmica que a Manaus construiu com Polo industrial está permitindo que hoje, as indústrias da Zona Franca estejam desenvolvendo tecnologia. Estive em fábrica que desenvolvem, produzem e exportam chips e estão faturando R$ 1,6 bilhão por ano. Estão criando tecnologia dentro de seus laboratórios, fazendo uso da verba de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento, estabelecida pela Lei de Informática que direciona parte do faturamento das indústrias para pesquisa).
Outro fator é que Manaus tem muita mão de obra treinada. Já em relação aos portos, temos carência e precisamos dar fluidez dentro da cidade, mas isso é algo que já está sendo feito em conjunto entre o prefeito de Manaus David Almeida e o governador do Amazonas, Wilson Lima.
A logísitica ao meu juízo está atrasada. Pela via da navegação e por rodovia estamos levando para tirar daqui e deixar nos outros mercados, 60 dias pelo Atlântico. O Governo está focado em viabilizar o escoamento pela BR-174 (Manaus – Boa Vista -Venezuela) para chegar aos mercados do Caribe e ter um ganho de 30 dias pelo Pacífico.
Enquanto isso, estamos batendo recorde na aprovação de projetos pelo Conselho de Desenvolvimento do Estado do Amazonas (Codam). Semanalmente entre quatro a cinco empresas nacionais e internacionais procuram o governador Wilson Lima interessadas em fazer investimentos em Manaus*.
Comentário
Serafim Correa, deputado e economista
Tem que buscar as vocações
A concentração da economia do Amazonas em Manaus é um fato antigo. Lá na fase áurea da borracha, nós tínhamos uma maior atividade em Manaus, mas também atividade econômica no interior. Hoje a grande realidade, a dura realidade, é que os maiores recursos que circulam no interior são do INSS, do Bolsa Família, e no dia que sai o pagamento da prefeitura. Então, basicamente o rendimento só vem do poder público. Seja do INSS, seja do Bolsa Família, seja o do próprio município. Mudar isso requer atividade econômica.
Só que para ter atividade econômica, o primeiro pré-requisito é ter energia. Depois tem que identificar qual é a atividade econômica que aquele lugar melhor se adapta. E a partir daí avançar. Agora não vai ser do dia pra noite que nós conseguiremos isso. Cada município tem a sua a sua maneira de ser a sua vocação. E isso nós temos mais empiricamente, não cientificamente. E, a partir daí, no esforço conjunto de autoridades, empresários e tudo mais, fazer essa tentativa de desenvolver o interior.
No governo José Lindoso, houve uma tentativa de obrigar as empresas que recebiam incentivos do governo a investirem no interior, mas essa política que era de médio a longo prazo foi abandonada após a saída dele. Em linhas gerais, é primeiro buscar as vocações e depois procurar quem queira investir.