Um amazonense pelo mundo: manauara conta como é viver no Japão
Neta de japoneses, a amazonense Michele Akio Shiga se mudou para Takaoka, estado de Toyama, no Japão
Takaoka, Japão – Descendente da terceira geração de uma família japonesa, a sansei Michele Akio Shiga Menezes, 37 anos, nasceu e cresceu na capital amazonense. Ela trilhou, durante alguns anos, sua jornada profissional em escritórios e fábricas do Polo Industrial de Manaus. No entanto, sua descendência asiática, somada ao desejo de buscar uma melhoria de vida em outro país, fez com que saísse de Manaus em 2021 e imigrasse para a cidade de Takaoka, no estado de Toyama, no Japão. Mas chegou a morar por pouco tempo no estado de Kobe.
Michele recorda que um dos principais fatores que a motivaram a se aventurar como imigrante para o outro lado do mundo foi a falta de estabilidade financeira que vivia no Brasil. Acompanhando a rotina de alguns youtubers brasileiros que moram no Japão, seu interesse pela mudança de país começou a crescer.
Nesse momento, finalmente, ela decidiu, ao lado do seu esposo, se despedir do Amazonas. “Eu conheci um amigo em uma fábrica japonesa lá em Manaus que me incentivou e disse que poderia me indicar uma agência que traz pessoas para morar e trabalhar no Japão. Além disso, o fato de ser descendente de japoneses certamente foi um fator que também me influenciou”, diz.
Idioma
Michele conta que o início foi bem difícil, pois, mesmo tendo se preparado e estudado japonês no Brasil antes mesmo de ter planos de morar no Japão, o idioma foi uma de suas grandes dificuldades. “A realidade do dia a dia é muito diferente de uma sala de aula para conversação. Isso também foi um entrave”, cita.
Além do idioma, a sansei relembra que ela e o esposo tiveram que enfrentar uma demissão e, consequentemente, um despejo do local onde moravam. “Fomos despejados do apartamento e demitidos do emprego logo que chegamos ao Japão. Ainda não tínhamos nem dois meses aqui. Mas sempre acreditei que Deus estava conosco, desde o momento em que saímos de Manaus, e naquele momento eu tomei consciência de que qualquer dificuldade serviria para algo maior lá na frente; aquilo não seria à toa”, afirmou.
Durante esse período, contou com o apoio de vários amigos da igreja que ajudaram financeiramente e também a arrumar outro trabalho. “Essa é uma boa vantagem aqui no Japão. A facilidade de encontrar emprego aqui é uma realidade”, garante.
Conteúdo na internet
A imigrante amazonense diz que nunca teve vontade de produzir conteúdo para a internet, pois não se considerava apta. Mas ela menciona que, durante uma conversa com Deus, pediu uma orientação espiritual e uma oportunidade de gerar renda com algo que gostasse de fazer.
“As coisas foram se afunilando e comecei a fazer cursos para criar vídeos, mentorias, lia muito e assistia a pessoas que já estavam mais à frente. E hoje estou aqui, e quem me conhece há mais tempo sabe que sou muito tímida. Mas penso que para tudo existe um propósito. Ainda não vivo das redes sociais, mas dei início ao meu sonho”, atesta.
Ela reforça que o feedback que recebe dos seguidores gera força e motivação para conciliar o trabalho na fábrica com o de digital influencer. “Em breve estarei fazendo isso em tempo integral. No momento, meu sonho é poder trabalhar somente com a internet e me dedicar 100% a isso”, vislumbra.
Para novos imigrantes
Aos aspirantes a imigrantes, Michele recomenda apenas embarcar neste sonho, tendo a certeza de que é realmente isso que desejam. “Imigrar não é ‘turistar’. É viver a vida real daquele lugar e muitas vezes ter que deixar certos costumes de lado só para respeitar o local que você vive agora. É receber uma notícia triste do Brasil e chorar ali mesmo, porque, na maioria das vezes, não dá para retornar”, assinala.
A amazonense diz ainda que é importante ter a consciência de que é maduro o suficiente para aguentar as dificuldades, mesmo sabendo que não ficará rico, mas que, sem dúvida, vai passar por uma mudança radical de rotina, mas com inúmeras vantagens. “É uma riqueza de conhecimento. Você jamais voltará igual e com certeza vai querer sempre buscar mais. E lembrando que nenhum lugar é perfeito; cabe a nós identificar o que se encaixa na nossa realidade. Viva a sua realidade, se inspire, mas não se compare”, aconselha.
Labuta
Michele trabalha há dois anos em uma fábrica de freios para motos e carros. “Ainda não faço totalmente o que gosto, mas estou me dedicando e tenho procurado fazer o meu melhor para finalmente chegar onde eu quero”, almeja.
Vantagens e desvantagens de ter imigrado
Michele destaca que a segurança e a extrema educação do povo japonês, que inclui a boa vontade e a disponibilidade em querer ajudar, são fatores positivos que chamaram e continuam chamando sua atenção. “Você pergunta sobre alguma coisa ou pede informações sobre o que não sabe e eles logo vão te orientando. É algo inusitado que jamais imaginei viver. Sem esquecer a qualidade de vida”, pontua.
A praticidade e logística para resoluções de questões diárias, como ir ao correio, fazer um exame e ir ao banco, é outro ponto que chamou sua atenção. “Quando você se organiza para a realização dessas tarefas, no máximo em duas horas ou menos já está em casa”, destaca.
Por outro lado, como desvantagem, de acordo com ela, a culinária amazônica é algo que sente muita falta. “Nossa gastronomia é a melhor do mundo. E como boa amazonense que sou, não poderia deixar de citar isso”, brinca.