Manaus está há dois meses sofrendo com a fumaça de queimadas
Capital do Amazonas adentra o mês de novembro encoberta por nuvens fumaça de incêndios florestais criminosos na Região Metropolitana e agora também do Pará
Manaus entra no terceiro mês seguido com os céus encobertos por fumaça proveniente de queimadas florestais. O problema ambiental vem se agravando desde setembro, quando os principais focos de incêndio se concentravam na região metropolitana da cidade.
Nesta sexta-feira (3), secretários municipais de meio ambiente, governo do Estado, Ibama e registros do Sipam apontam que a capital do Amazonas também sofre os impactos da devastação em estados vizinhos com o Pará.
O Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam) detectou incêndios no oeste do Pará no entorno de duas rodovias federais (a Cuiabá-Santarém e transamazônica). E o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) mapeou dois focos de calor nas proximidades de Santarém, município paraense distante a 596,35 quilômetros de Manaus.
O superintendente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no Amazonas, Joel Araújo, afirmou em vídeo nesta quinta-feira (2), que além da região metropolitana, outros estados, inclusive do Nordeste, já possuem focos de incêndio maiores do que os apresentados no Estado.
“Já temos fumaça vindo do Amapá, Mato Grosso e de estados do Nordeste que estão carregando essa nuvem de queimadas para Manaus. O Ibama continua atuando na região metropolitana com 122 brigadistas e no dia 10 de novembro vamos realizar um curso de brigadistas de incêndio para as cidade de Careiro da Várzea, Careiro Castanho, Autazes e Manaquiri para formar 60 agente brigadistas”, declarou.
Focos no Pará
O secretário de meio ambiente do Amazonas, Eduardo Taveira, se manifestou por meio de nota, nesta sexta-feira. Afirmou que a fumaça intensificada sobre Manaus, é fruto dos 5.234 focos de incêndio no Pará e, em menor intensidade, na Região Metropolitana de Manaus, onde no mesmo período foram registrados 140 focos.
“Apesar da intensificação da fumaça na capital, apenas 6 focos foram notificados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) na Região Metropolitana de Manaus (RMM) na quinta-feira. Na mesma data, na mesma data, 746 focos foram registrados no estado vizinho. O fluxo de ventos tem trazido o material particulado em suspensão para a Região Metropolitana de Manaus e encontrado dificuldades em se dispersar devido a ausência de chuvas e calor intenso, potencializados pelo El Niño severo deste ano”, diz trecho da nota.
A publicação também reforça o trabalho realizado nos municípios do Sul do Amazonas, com forças ambientais e de segurança tendo reforçado as ações de combate e fiscalização na Região Metropolitana desde o dia 11 de outubro.
“Como resultado, os focos de calor na RMM caíram de 675 – registrados de 1º de outubro a 10 de outubro -, para 194 focos – registrados a partir do dia 11 até esta quinta. Pequenas formações de chuva sobre a região também têm ajudado na redução desses focos”.
Sobre as medidas para minimizar a fumaça, a pasta afirma que na terça-feira, enviou mais 250 servidores, entre bombeiros, policiais militares, analistas ambientais do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) e agentes do Batalhão Ambiental da PM-AM foram enviados para reforçar as ações em Iranduba, Itacoatiara, Manacapuru, Manaquiri, Rio Preto da Eva, Presidente Figueiredo, Careiro Castanho e Autazes.
A Secretaria de Meio Ambiente ressalta ainda que, com a baixa precipitação, a massa de calor sobre Manaus deve continuar a interferir na qualidade do ar para os próximos dias, uma vez que partículas de fumaça encontram dificuldades em se dispersar nessas condições.
”Outros 116 brigadistas do PrevFogo do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) continuam atuando nas ações de combate na Região Metropolitana”, finaliza.
Efeito cascata
A presidente do Fórum Permanente das Secretarias Municipais de Meio Ambiente do Amazonas (Fopes), Jane Crespo, afirmou que os municípios amazonenses combateram os focos de incêndio de modo “hercúleo”, por conta da falta de estrutura para esse tipo de emergência.
“Esse é o caso dos municípios fora do Sul do Amazonas e da Região Metropolitana. A densa fumaça que ainda paira sobre alguns municípios, como Maués, mesmo sem ocorrência de queimadas, é reflexo do efeito cascata com o vizinho Pará. Creio que o Ipaam e a Sema devem continuar com o monitoramento e identificação dos focos que ainda podem estar ocorrendo”, detalhou.
Crespo destaca que em Maués, município do qual ela é titular da secretaria ambiental, apresenta apenas dois focos de incêndio, um na Zona Rural e outro na BR-230.
“Nós passamos quase um mês passando fumaça para lá e agora é o efeito contrário. O estado começa a enfrentar a seca, que nós já estamos lidando há pelo menos 40 dias. Essa fumaça já passa por nós há três dias com uma densidade forte, com qualidade do ar extremamente comprometedora, que causa uma irritabilidade nos olhos, garganta e nariz. Uma visibilidade baixa, você vai para frente da cidade e não consegue enxergar o rio”.
De acordo com o secretário de meio ambiente de Lábrea, Daniel Santiago, os investimentos em contratação de brigada de incêndios florestais, surtiram efeito. Para ele, a mesma taxa de sucesso não se repete na região metropolitana pela falta de autoconsciência de quem pratica ações de queima de pasto.
“Estamos vivendo um período atípico, observados o aumento de focos de calor em outros estados, como Pará, Maranhão e Mato Grosso. As políticas de combate ao fogo, não somente como emprego de brigadas e fiscalização ambiental não resolverá. Precisamos avançar, no nível Amazonas, em regularização fundiária, e destravar o zoneamento ecológico e econômico do Estado do Amazonas. Por exemplo: há dez anos, o zoneamento da região do calha do Purus, é discutido, estudado mas não ocorreu sua efetivação”, criticou.
MPF-PA cobra medidas
O Ministério Público Federal (MPF) cobrou de órgãos de fiscalização ambiental respostas urgentes sobre a estrutura existente para o combate a incêndios florestais na região oeste do Pará. Os questionamentos foram motivados pela ocorrência de uma nuvem de fumaça que encobriu Santarém nesta quinta-feira.
Além de enviar questionamentos a órgãos de fiscalização ambiental, o MPF também solicitou informações a órgãos da área da saúde sobre atendimentos e internações causadas por problemas respiratórios e solicitou dados a órgãos policiais para saber se desde o início de outubro foram instalados inquéritos para investigação de casos de incêndios florestais.
Nos ofícios enviados à presidência do ICMBio, à presidência Ibama e à Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (Semas), o MPF requisita informações sobre a estrutura dos órgãos para o combate aos incêndios florestais na região oeste do Pará, especialmente sobre medidas adotadas pelos órgãos para combater os incêndios que encobrem Santarém e outros municípios do oeste paraense.
O órgão também questiona se a estrutura atualmente existente é suficiente para conter os focos de incêndios e se os órgãos dispõem de aeronaves para o combate aos incêndios se há, instrumento jurídico que determina período proibitivo de queimadas no Estado do Pará; e ainda sobre a existência de apoio mútuo entre Estado do Pará e União para combater aos incêndios florestais, devendo especificar a forma de colaboração, se houver.
O MPF também expediu ofício à Diretoria de Proteção Ambiental do Ibama (Dipro/Ibama), ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), à Gerência Regional Norte do ICMBio e à Diretoria de Fiscalização Ambiental da Semas para que apresentem relatórios ambientais, a partir de dados de satélites e de eventuais documentos produzidos por suas equipes de campo, que possam identificar a origem do denso volume de fumaça na região oeste do Pará, principalmente em Santarém.
Além disso, o MPF também enviou ofício à Delegacia da Polícia Federal em Santarém e à Diretoria de Polícia do Interior da Polícia Civil do Estado do Pará para que informem se foram instaurados inquéritos policiais para investigar incêndios ocorridos na região oeste do Pará.
O que diz o governador?
Veja a declaração do governador do Amazonas, Wilson lima (União):
“Mais uma vez a cidade de Manaus amanheceu com muita fumaça comprometendo a qualidade do ar, nós (do governo) estamos trabalhando muito com as nossas equipes aqui na região metropolitana e também no sul do Amazonas. Cerca de 100 pessoas já foram detidas (pelas queimadas), mais de R$ 140 milhões em multas foram aplicadas. Do dia 1º a dia 10 de outubro foram registrados aproximadamente 700 pontos de calor, ontem dia 2 de novembro, o registro que nós temos são de menos de 10 focos de calor, resultado do trabalho intenso que a gente tem feito. Essa fumaça que está vindo, é proveniente do estado vizinho, o Pará. Nesse momento também começa a sofrer os efeitos da estiagem, uma seca histórica. Além disso, temos esses problemas de desmatamento e queimadas e também a questão da ajuda humanitária, que é preciso chegar aquelas pessoas que tanto precisam, como cesta básica, água potável”.
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