Manaus dom, 1 nov
A Crítica
Opinião

A banalização da dor humana

Publicado em 30/04/2020 às 12h09 · Atualizado em 13/03/2022 às 20h22
A banalização da dor humana

A dor dos que perderam parentes e amigos na pandemia da COVID-19 ou em meio a ela não pode ser medida; a dor dos que não puderam acompanhar e enterrar os mortos não pode ser medida, ou de vê-los enterrados em valas comuns. São dores sentidas em inúmeros e profundos aspectos. O que pode e deveria ocorrer como comportamento natural do ser humano é a expressão concreta da solidariedade aos que estão em luto, alguns que tiveram duas e até três pessoas mortas pelo novo vírus ou por outras causas sequer referenciadas.

A dor dos que buscam atendimento médico e não o encontram porque a rede hospitalar já asfixiou, dos que buscam auxilio para transportar os corpos de familiares mortos em casa e não o encontram, não tem parâmetro. O que se pode fazer é desenvolver ações que os ajudem, que reduzam a aflição, e denunciar a situação encontrada. 

O pós-guerra levou os governos do mundo a criação de organismos que em meio as disputadas econômica-política selaram compromissos em defesa da dignidade humana e dos direitos humanos das pessoas em todo mundo. A Declaração Universal dos Direitos Humanos é um desses documentos demarcatórias da humanidade e que não foi enterrada a despeito de toda a violência praticada por governos e grupos de poder nas diferentes regiões do planeta. A Declaração permanece como documento-base ou de suporte para várias leis instituídas como mecanismo de defesa dos direitos da pessoa. Ajudou a embasar importantes mudanças constitucionais em muitos países que experimentaram longo processo de ditaduras.

É inaceitável que em momento de morbidade planetária, o presidente de um país ironize as mortes de pessoas cuja vida ele tem compromisso constitucional de zelar, visto que o aspecto humanidade parece não importar. Com mais de 5 mil brasileiros mortos pelo coronavirus, o presidente Jair Bolsonaro demonstra, mais uma vez, a falta de apreço à população e de respeito às famílias enlutadas. “Fazer o quê?” Presidente, escute os relatos dos que buscam desesperadamente por socorro médico, dos que que perderam mãe, pai, irmão, tio, avô, daqueles que não puderam ir aos enterros e veem pela TV os caixões depositados coletivamente numa vala; olhe o tamanho das filas em frente as agências da Caixa. O senhor, como presidente de um país, tem muito para fazer.

Foto: Euzivaldo Queiroz