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A Crítica
Opinião

Amazônia em órbita

Por Jeferson Eliel da Silva, professor do curso de Física, da Área de Exatas do Centro Universitário Internacional Uninter

Publicado em 25/03/2021 às 13h54 · Atualizado em 24/03/2022 às 22h57
Amazônia em órbita

A ciência desenvolvida no Brasil nunca teve um lugar de destaque entre os mais vistos nos noticiários do país. Com pouca comemoração e certo olhar de desconfiança por boa parte da população, o lançamento do primeiro satélite que teve todo o ciclo de produção desenvolvido por brasileiros, trouxe as manchetes um evento que precisa de maiores esclarecimentos de seus benefícios e da sua importância a curto e longo prazo.

O desenvolvimento de uma tecnologia 100 % brasileira pode significar um marco no avanço tecnológico e científico do país. Em conjunto com o Centro Espacial Satish Dhawan, na província de Andhra Pradesh, na Índia, o satélite Amazônia-1 – como foi batizado – fará um monitoramento da região amazônica, além de monitorar a agricultura, a região costeira, os reservatórios de água e florestas.

Foram os satélites que monitoraram os incêndios ocorridos em Camp Fire, na Califórnia, nos Estados Unidos, em 2018 – considerado o incêndio mais mortífero da história norte-americana e  que evitaram um desastre pior do que o saldo de 85 mortos e uma cidade de 26.000 habitantes completamente dizimada. Os satélites foram operados pela Planet Labs, uma empresa de São Francisco, que dirige a maior frota mundial de satélites de observação da Terra, com cerca de 140 unidades.

Esse é exatamente um dos principais benefícios que o satélite amazônia-1 poderá trazer ao Brasil: o monitoramento das queimadas para evitar que se repitam as cenas de 2020, quando houve uma devastação da Floresta Amazônica. Por ser uma área tão abrangente – a Amazônia possui 5.500.000 de Km2 – não consegue ser observada apenas por aviões ou drones. Isso em se tratando de queimadas, pois o monitoramento de desmatamento é realizado por outros dois satélites, o satélite indiano ResourceSAT 2 e o sino-brasileiro CBERS-4. Os dois satélites têm a resolução temporal de cinco dias, o que significa que dão a volta completa ao redor do globo nesse período, o que para queimadas não é muito eficaz. Já o satélite recém-lançado está a 752 km de altitude e tem sua órbita em sincronia com a do Sol, viajando a uma velocidade de quase 27.000 km/h, o que leva apenas 100 minutos para completar uma volta na Terra.

Em longo prazo, o segundo grande benefício pode ser ainda mais abrangente, desde que seja dada continuidade no que poderia vir a ser uma tão sonhada virada no conceito que se tem do país atualmente, em relação a investimentos em Ciência e Tecnologia. Com uma economia estagnada há anos, o Brasil assiste ao surgimento de novas tecnologias a todo o momento, e sem uma capacidade científica de inovação e produção, imprescindível ao desenvolvimento econômico, fica atrasado.

E por que significa um avanço tecnológico o lançamento de um satélite 100% brasileiro? Porque além de demonstrar sua independência em relação a outros países, o Brasil se torna um dos 20 países no mundo com essa capacidade de produção. Vale ressaltar que o lançamento do foguete que levou o satélite a órbita foi realizado em parceria com a Índia, com quem o país já mantém parcerias para desenvolvimento tecnológico. Apesar de o Brasil ter uma base de lançamentos de foguetes, a Base de Alcântara, no Maranhão, poucos países possuem capacidade para lançar foguetes desse porte como a Índia. O fruto dessa parceria também poderá ser benéfico, já que a Índia possui maiores investimentos na área.

Devemos valorizar cada passo em direção ao desenvolvimento tecnológico, mesmo que sejam casos pontuais e demasiadamente demorados a serem concluídos – foram 13 anos até a finalização do projeto. Acreditamos que só havendo resultados positivos e convincentes é que podem surgir planos de investimentos num futuro próximo.