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A Crítica
Opinião

Angústia

Publicado em 29/08/2020 às 18h32 · Atualizado em 13/03/2022 às 20h05
Angústia

A pandemia expõe fragilidades estruturais dos países e sociedades – como as carências do sistema público de saúde, a multidão de pessoas desassistidas pelo Estado, as deficiências no acesso à internet – tão necessária para viabilizar o ensino online -, mas também evidencia pontos positivos, como a disposição das pessoas em ajudar os que estão em situação ainda pior. O tamanho do vácuo na oferta de internet nesta parte do continente foi quantificado pela Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), órgão da ONU. Segundo a instituição, o acesso ao trabalho ou à educação a distância ficou comprometido em 40 milhões de domicílios na América Latina.

É uma das urgências manifestadas pela expansão da covid-19: universalizar o acesso a tecnologias digitais para assegurar o direito à saúde, educação e trabalho. Não por acaso, os maiores índices de exclusão digital se concentram na parcela mais pobre da população, sendo um forte indicador da desigualdade socioeconômica na maioria dos países. Os governos precisam se debruçar sobre tal questão. A Cepal sugere uma “cesta básica digital” composta por um notebook, um smartphone, um tablet e um plano de conexão para residências não conectadas, a um custo anual inferior a 1% do PIB.

Enquanto esse suporte não vem, os desconectados – que se confundem com os “invisíveis” alijados de todo e qualquer programa oficial – dependem da solidariedade alheia para tocar a vida em meio à nova realidade.

Felizmente, essa ajuda não tem faltado. Profissionais impossibilitados de trabalhar por causa das restrições impostas pela pandemia, e que não conseguiram acesso ao auxílio emergencial, contam com redes informais de apoio que se multiplicam pelo País desde março. Um caso emblemático é dos catadores de latinhas de São Paulo, que tiveram apoio de vaquinhas virtuais e doações à moda antiga para sobreviver. Plataformas de financiamento coletivo também aliviam parte da enorme lacuna que a falta de crédito representa. O advento do novo coronavírus nos obrigou a rever conceitos e ajustar comportamentos, mas não acabou com a empatia e a disposição das pessoas em ajudar outras, principalmente nas situações em que o poder público se omite.