Manaus dom, 18 out
A Crítica
Opinião

Bairro de Aparecida

Por Lourenço Braga, do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas

Publicado em 02/10/2020 às 17h31 · Atualizado em 24/03/2022 às 23h03
Bairro de Aparecida

Usarei este espaço, hoje, para alguns poucos registros de um dos bairros mais antigos de Manaus, criado nos idos de 1888 e que também já se chamou bairro dos Tocos, Plano Inclinado, Cajazeiras, Vista Alegre, Rafael, Operários e Cornetas, onde está plantada, desde 1946,  igreja católica com o nome da padroeira, Nossa Senhora Aparecida, que mantém novena semanal há mais de sete décadas, às terças feiras, sob orientação de padres redentoristas, e onde já existiu importante fábrica de cerveja, a nossa XPTO,  inaugurada em 1910, de propriedade da família Miranda Correia 

Ao lado da igreja funcionava o “quartel” dos bombeiros voluntários, civis que se dedicavam ao combate a incêndios sob a orientação do Comandante Ventura, português de boa cepa. Ali residiram brasileiros ilustres: artistas como o pintor Moacir Andrade e o seresteiro Estevão Santos;professores como Sebastiana Braga, os irmãos João e José Braga, José Cyrino, pai de Zeca, Vânia e Públio Caio, Nazaré Xavier, diretora da Instituto de Educação, Cleomar Feitosa, de canto orfeônico, Benvinda Nogueira,irmã do Atacy e do Mico, e Carmela Faraco, de datilografia;magistrados como os desembargadores Sadi Paiva, Sadoch Pereira, que morava perto da escola de comércio Senador Lopes Gonçalves, e Paulo dos Anjos Feitosa; jornalistas como João Bosco Ramos de Lima e Carlos Zamith que empresta seu nome a um dos estádios de futebol de Manaus; o homeopata Zany dos Reis; o enfermeiro Modesto; o barbeiro Queiroz, um dos líderes do comunismo na cidade; políticos como Jefferson Peres, ex-senador da República, Gilberto Mestrinho, Amazonino Mendes e Omar Aziz, ex-governadores.

Morei ali, em minha adolescência, na casa 91 da rua Ramos Ferreira, que ainda lá está, alugada de Diniz, dono de uma mercearia e pai de Nelson, Nelma, Nelcília e Nelci, bem ao lado da Vila São Vicente de Paula, obra social que abrigava viúvas de poucas posses, próximo das serrarias Mathias e Hore, defronte ao terreno que abrigara o forno do lixo municipal e onde foi depois construída a  quadra da escola de samba verde e branca que honra o carnaval amazonense. A travessia para São Raimundo nas catraias foi depois substituída pela ponte que hoje liga os dois bairros, estreitando os laços de amizade entre os que ali residem.

Das muitas tradições preservadas, há em Aparecida, no mesmo dia da novena, feira também antiga, ponto de encontro de famílias, de fiéis e de namorados, que tratei assim em uma quase-poesia:

'Na feira de Aparecida'

O que comprar lá na feira,

com dinheiro na carteira,

bem ao lado da igreja

a santa que nos proteja,

o dia só começando,

o sol ao longe raiando?

Tem frutas da estação

na banca do produtor,

tem do arroz ao feijão,

pimenta, sal, macarrão,

verduras, tem sim senhor.

Peixe sempre tratado,

o espinhaço tirado,

tá pronto pra ser assado

comer com farinha e limão

é coisa de campeão;

e tem também o galeto

dá pra fazer no espeto

assar no fogo em brasa

tão logo chegue em casa.

Lá na banca de miúdo

rim, miolo, coração;

pé de porco bem graúdo,

delicioso leitão,

pode comprar a rabada,

insumos pra feijoada,

alcatra, agulha e acém,

maminha e filé também.

Tem mingau de tapioca

mungunzá pra misturar,

cada qual numa panela,

temperado com canela,

milho pra fazer pipoca,

farinha de mandioca.

Tem laranja, tem banana

abacate, maçã, mamão,

com melancia e melão

pra uma salada bacana.

Tem pupunha, abacaxi,

limão caiano, buriti,

pitomba, jaca, goiaba,

pitanga, caju, bacaba,

fruta que nunca acaba;

tem açaí, acerola,

cupuaçu, taperebá,

ingá, abiu, graviola,

biribá e maracujá.

Tem banca que vende flores

ajudando a perfumar,

conversa de vendedores

pra fazer você comprar,

tem vela, também incenso

com aroma bem intenso,

ervas pra banhos, patuá

pra quem gosta de rezar.

E pra ficar bem bacana

tem reunião de fiéis

saboreando pastéis

regados a caldo de cana.

Tem goma e tucupi,

pra fazer o tacacá,

camarão e até jambu

que não é pra comer cru

precisa saber preparar,

tem batata, macaxeira,

jerimum e tucumã

na feira de Aparecida,

da minha Escola querida

tantas vezes campeã.