Brasil na contramão
Às vésperas da COP-26 – 26ª Conferência das Nações Unidas para a Mudança do Clima, que começa no domingo (31) em Glasgow, na Escócia – temos uma boa notícia: a emissão de gases que causam o efeito estufa caiu quase 7% em todo o mundo no ano de 2020. É claro que o resultado está diretamente relacionado aos efeitos da pandemia de covid-19, que causou uma desaceleração global nas atividades econômicas e na circulação de pessoas. Por outro lado, o Brasil conseguiu a façanha de, no mesmo período, aumentar o total de emissões brutas em 9,5%. O motivo principal é o aumento das queimadas na Amazônia e no Cerrado brasileiro.
O resultado – revelado pelo Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima (SEEG) – coloca em dúvida capacidade do País de cumprir com as metas assumidas, juntamente com outros países, para frear o aumento da temperatura global causado pelos gases de efeito estufa. Se quiser recuperar sua abalada imagem no exterior em relação às questões ambientais, o País precisa acelerar medidas de combate ao desmatamento e às queimadas. O controle desses fatores já resultaria em redução significativa do volume de emissões.
Avançando de forma descontrolada ano a ano, as queimadas já fazem da Amazônia um forte emissor de gases danosos. De acordo com os dados do SEEG, se fosse um País, a região emitiria mais gases do que a Alemanha, sendo o nono maior emissor do mundo. O cenário é tão vergonhoso que até o presidente da República sabe disso. Tanto que afirmou à TV A Crítica, na última quarta-feira (27), que não pretende comparecer à Conferência do Clima. O País será representado pelo ministro do Meio Ambiente Joaquim Leite.
Na questão ambiental, assim como em qualquer área da política internacional, não basta assumir compromissos, é necessário definir ações, implementar estratégias e mostrar resultados. Não se trata apenas de limpar a barra no cenário externo, mas de fazer a nossa parte para reduzir a emissão de gases do efeito estufa e cumprir a meta global de estabilizar o aquecimento da Terra em 1,5°C neste século. Para isso, é preciso derrubar as emissões globais em 7,6% ao ano até 2030. Até aqui, o Brasil tem atuado na contramão; desde 2010, o país elevou em 23,2% a quantidade de gases de efeito estufa que despeja na atmosfera anualmente. Uma mudança de rota é indispensável.