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A Crítica
Opinião

Brasileiros negativados

A queda na renda média das pessoas e o fato de que muitos passaram a ter ganhos variáveis e incertos por conta da informalidade contribui para esse cenário

Publicado em 21/10/2022 às 08h56
Brasileiros negativados
Foto: Agência Brasil

Em setembro, o número de brasileiros negativados, ou seja, com CPF inscrito nas instituições de proteção ao crédito (Serasa e SPC), atingiu o recorde de 64 milhões de pessoas. Isso significa que quatro em cada dez brasileiros estão com dívidas em atraso há mais de 90 dias, e impedidos de fazer novas compras a prazo, além de outros constrangimentos. Trata-se de um retrato fiel da situação financeira das famílias, um dado alinhado ao crescimento da informalidade, que também alcança os maiores níveis da história recente.

A queda na renda média das pessoas e o fato de que muitos passaram a ter ganhos variáveis e incertos por conta da informalidade contribui para esse cenário. A pressão inflacionária mantém elevados os preços de itens essenciais, como alimentos, forçando as famílias a priorizar despesas, buscar empréstimos e até usar o limite do cartão de crédito como se fosse parte da receita.


Não é à toa que os negativados se concentram na parcela mais pobre da população, tanto que a dívida média das pessoas gira em torno de R$ 3,6 mil. Vendo o orçamento cada vez mais apertado, os brasileiros recorrem a bancos em busca de empréstimos, submetendo-se a juros proibitivos e entrando em uma verdadeira armadilha financeira. As instituições bancárias são as principais credoras dos brasileiros, respondendo por mais de 60% dos débitos, mas serviços públicos como água e energia também ocupam posições de destaque no endividamento das famílias.

Por outro lado, o descontrole de muitos em relação às próprias finanças revela o despreparo generalizado de grande parcela da população para lidar com o orçamento doméstico. O tema é de tamanha relevância que já deveria fazer parte do currículo escolar há muito tempo. O crescimento do endividamento e da inadimplência não interessam a ninguém (exceto aos bancos). São dezenas de milhões de consumidores que têm sua capacidade de gastos restringida, tendo que reduzir seu nível de consumo. Pior para setores como serviços e comércio.

O poder público pode e deve agir sobre essa situação promovendo programas de educação financeira, desestimulando o endividamento desenfreado.