De olho em Felipe Neto e de costas para Manaus
*Por Dante Graça, jornalista.
Quem observou a reação agressiva e “combativa” do vereador Fred Mota (Republicanos) ao conteúdo de um livro do youtuber e influenciador digital Felipe Neto tem a impressão de que essa é a postura corriqueira de seu mandato parlamentar. Ledo engano.
Fred, que é segundo vice-presidente da Câmara Municipal de Manaus e tem uma vasta história de vida de “bengala” em mandatos públicos de outros políticos igualmente improdutivos, recebe um salário bruto de R$ 15 mil e tem direito a uma cota parlamentar mensal de mais R$ 18 mil. Com uma remuneração tão alta, conseguiu, em três anos e meio de mandato, apresentar 17 projetos de lei – um a cada dois meses e meio – dos quais nove foram aprovados – pouco mais de 52% do total de matérias apresentadas. Vale frisar que ele não apresentou, segundo o site da CMM, nenhum projeto este ano. E estamos em agosto.
A mais importante das leis aprovadas, talvez, sendo extremamente bondoso com produção parlamentar de Fred Mota, é a 2281/2017, sancionada em dezembro de 2017, que obriga a disponibilização de álcool em gel para higienização das mãos em praças de alimentação dos shoppings centers. É mais uma das incontáveis leis de Manaus que, sem regulamentação adequada e sem fiscalização do poder público, não são cumpridas.
Aliás, a falta de fiscalização do trabalho da Prefeitura de Manaus, que é uma das missões mais importantes de um vereador, é algo que tem faltado historicamente ao vereador. Procure reações duras de Fred Mota a respeito de funcionários a serviço da Prefeitura de Manaus que desrespeitaram a lei municipal que obriga o uso de máscara na cidade. Não terá.
Procure cobranças incisivas a respeito da lotação dos ônibus em tempos de pandemia. Não achará. Procure protesto em relação ao fato de uma faraônica obra de R$ 63 milhões da Constantino Nery precisar ficar dez dias fechada um mês depois de ter sido inaugurada. Nem um pio.
Em compensação, procure uma moção de repúdio à apresentadora Xuxa Meneghel. Aí sim, você encontrará. Basta ir às redes sociais do vereador Fred Mota, que você verá um discurso repleto de ótimos argumentos (contém ironia) a respeito de um livro da apresentadora com a temática LGBT. “Nada contra ninguém, a palavra de Deus diz que nós temos que amar os pecadores, mas o pecado, não. Esta senhora já vem causando grandes problemas desde quando fez um filme lá atrás com o menor de 12 anos. (…) Senhora Xuxa, deixe nossas crianças em paz”.
Fred foi eleito em 2016 para seu primeiro mandato com 4881 votos, usando de um velho expediente político: o apelo às massas em igrejas. Em um processo no qual ele foi cassado por abuso de poder econômico, em 2019 (ele segue no cargo por conta de recursos), consta anexo aos autos um áudio de um pastor pedindo votos para ele, afirmando que “a vitória do Fred é a nossa vitória da Igreja, a perda do Fred é a minha perda, é também a sua perda." Pelo jeito, a vitória era o ganho de um fiscal do entretenimento nacional, e não de um fiscal das leis em Manaus.
Nada contra o uso de suas redes sociais para as verborragias ideológicas, algo que Fred faz “bem” e chega inclusive a marcar o presidente Jair Bolsonaro em suas postagens. Ali, é o direito de cada cidadão se manifestar. O espaço virtual ainda é democrático, desde que tudo seja feito com responsabilidade.
Usar, porém, o dinheiro público para disparar impropérios contra um influenciador ou uma apresentadora é muito pior do que escrever um livro ruim. É um evidente desprezo por uma função legislativa que tem, entre suas óbvias atribuições, criar leis e fiscalizar a execução orçamentária da prefeitura municipal.
Como vereador, Fred deveria se preocupar mais com a legislação e com a fiscalização do poder público, e menos com o entretenimento. E como agente político, ele deve se preocupar muito mais com seus problemas na Justiça Eleitoral. As eleições estão chegando e a população deve se manter atenta ao histórico de seus candidatos.