Dor, persistência e superação
O movimento migratório de venezuelanos no Brasil, que atinge principalmente os Estados de Roraima e Amazonas, já motiva um dos principais problemas humanitários do País no novo século. São mais de 500 migrantes venezuelanos entrando na Venezuela diariamente, segundo estimativas da Polícia Federal. Não se trata apenas de pessoas em busca de novas oportunidades de vida, são fugitivos da fome, da miséria e do esfacelamento social por que passa a Venezuela. Mas no Brasil, essa população encontra um cenário amplo de dificuldades e acaba ficando em situação de extrema vulnerabilidade, o que exige a atuação do poder público e da sociedade como um todo.
Superar essa situação é um desafio e tanto. As histórias dos refugiados costumam ter muita dor, persistência e superação como ingredientes. É o caso do juiz venezuelano Oswaldo José Ponce Pérez, refugiado no Brasil há três anos, fugindo da perseguição dos governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro. Ele se recusou a participar de esquemas de corrupção em seu país, teve o filho assassinado e refugiou-se no Brasil temendo pela própria vida. Após trabalhar até como artista de rua para sobreviver, José Ponce Pérez conseguiu ter seu diploma revalidado. Agora ele atua em mutirões da justiça voltados para a legalização de imigrantes venezuelanos em situação precária, situação que ele conhece bem.
O enfrentamento da crise humanitária vivida pelos venezuelanos no Brasil é uma questão delicada que não pode ser ignorada. Além dos programas já em andamento para acolhimento dos refugiados, algo que pode ser feito é a atualização da Lei 9.474 de 1997, a “Lei de Refúgio”. A legislação poderia facilitar o próprio reconhecimento da situação de refugiado, algo enfrentado diariamente por Pérez, viabilizando a obtenção de documentos e autorização para trabalhar, por exemplo.
De qualquer forma, isso é algo que não é responsabilidade apenas do poder público. É algo que precisa do envolvimento da sociedade. De acordo com o IBGE, mais de 80% da população brasileira é formada por cristãos. A atual crise migratória é uma excelente oportunidade para a prática da empatia e da caridade, tão difundidas pelas igrejas cristãs. Não há lugar para preconceitos e qualquer tipo de discriminação. O desafio é de todos.