Manaus sáb, 17 out
A Crítica
Opinião

Imigrantes, sofrimento em dobro

Publicado em 24/11/2019 às 19h25 · Atualizado em 13/03/2022 às 22h06
Imigrantes, sofrimento em dobro

A operação Acolhida, criada para funcionar como uma base adequada de recepção a imigrantes demonstrou, nessa primeira fase de atuação em Manaus, o quanto o Brasil, com forte participação de imigrantes na sua formação populacional, está despreparado para atuar nessa área. Na capital amazonense cujo fluxo é expressivo, mas não numeroso como ocorre em outros lugares, a forma de acolhimento operacionalizada se revelou um problema a mais para pessoas que já estão em situação de vulnerabilidade.

Matéria de A CRÍTICA, p. C3, divulgada na última quinta-feira, relata a precariedade com que funcionou o Posto de Interiorização e Triagem (PITRG), na avenida Torquato Tapajós. Idealizado pelo Comitê Federal de Assistência Emergencial do Governo Federal, o posto de acolhida não foi pensado para proporcionar um atendimento mais digno aos imigrantes. A fila formada em área aberta obrigou adultos a crianças a enfrentarem horas de sol forte em chão de terra batida.

Na busca de atendimento, muitos imigrantes têm que chegar de madrugada ao local e ficar horas seguidas na fila.  O representante do Ministério da Defesa, órgão responsável pela realização dessa operação, informou por meio de nota que a situação de Manaus será “verificada para as devidas providências” e não quis falar com a imprensa.

Mesmo com dificuldades, um plano ou programa de acolhida a imigrantes não poderia ser pensado ou desenvolvido dessa maneira como ocorreu em Manaus. Se a proposta é ser um esforço conjunto para criar uma estrutura que funcione adequadamente, com respeito a dignidade dessas pessoas, não deveria ter sido feito da forma como foi, com pessoas de diferentes idades e dificuldades colocadas em filas longas, a céu aberto numa temperatura elevada como o é a de Manaus. Esse tipo de conduta fere os direitos humanos e fere a cidade que tem na sua marca a receptividade afetiva e cordial. Quando os que estão sendo recepcionados são migrantes, como é o caso – venezuelanos e haitianos –  o modelo adotado provoca mais mal-estar e sofrimento a quem está a dias vivendo situações de abandono, repressão, sofrimento por tudo que representa deixar a terra natal, elos de convivências, parentes, amigos, alguns bens e partir em busca de uma chance para viver melhor.