Mãos que falam
Intérpretes de LIBRAS, profissão que quebra barreiras e promove a inclusão social.
Ser elo de comunicação entre povos, culturas e tradições. Essa é uma das principais atribuições dos profissionais que falam com as mãos. Em 26 de Julho celebramos o Dia Nacional do Tradutor/Intérprete, um momento para celebrar a profissão, que está em constante crescimento no mundo todo e é fundamental para quebrar a barreira da comunicação entre pessoas oralizadas e surdos.
Muito importantes no processo de globalização, tanto o tradutor quanto o intérprete atuam como elos de comunicação entre o emissor e o receptor da mensagem. O trabalho do tradutor requer um cuidado minucioso. É preciso que a ideia original seja fielmente traduzida para que o entendimento possa acontecer sem ruídos. Da mesma forma um intérprete deve estar sempre atento e dominar as expressões e peculiaridades da linguagem traduzida, já que geralmente seu trabalho é feito de forma simultânea. Nestes meus longos anos de atuação em movimentos pro Pessoas com Deficiência pude ver e testemunhar diversas situações em que a dificuldade ou impedimento de comunicação era o maior causador de transtornos e também conheci pessoas que fizeram da sua missão de vida ser ponte para que essa comunicação aconteça.
Conheci o Edivam, quando fomos colegas de trabalho na extinta SEPED – Secretaria de Estado do Direito das Pessoas com Deficiência, ele é interprete de LIBRAS e me contou um pouco da sua trajetória nesses 14 anos na profissão. O primeiro contato com a Língua de Sinais começou de forma bem parecida com a de muitos intérpretes aqui de Manaus, por motivo religioso. Quando ele tinha 18 anos, sentiu a necessidade de aprender LIBRAS para ajudar as pessoas surdas que iam nas mesmas reuniões que frequentava – “Vi que alguns surdos iam nas reuniões, mas não tiravam nenhum proveito do que era dito ali porque não havia intérprete. Ficavam só sentados observando o que era dito. Aquilo mexeu comigo, daí eu disse para mim mesmo que precisa aprender LIBRAS para ajuda-los".
Por não ser uma língua oral o aprendizado foi um desafio, é diferente de qualquer outra língua que existe e por ser muito visual na língua de sinais você precisa usar as mãos e expressões faciais para se comunicar. “Isso foi difícil porque sou um pouco tímido, então era difícil ter que fazer essas expressões na frente de outras pessoas. Com o passar do tempo fui ganhando mais confiança. Mas confesso que dependendo do tema que estou traduzindo ainda é um desafio mesmo depois de anos fazendo isso.”
A língua brasileira de sinais, LIBRAS é o oficialmente o 2° idioma do Brasil e por ser uma língua visual atrai muitos a querer aprender o idioma. Sem dúvidas as lives com show que tivemos nos últimos tempos popularizaram ainda mais a profissão e mostram como ela é fundamental para que o conteúdo seja difundido de forma inclusiva, respeitando os mais de 9 milhões de surdos brasileiros. “É sempre bom, além de procurar fazer um curso de LIBRAS, é importante manter o contato com a comunidade surda. Como qualquer outro idioma, se a gente não praticar acabamos esquecendo. Então, se você está aprendendo LIBRAS crie o hábito de todos os dias ter algum contato com ela. Não precisa muito tempo, quinze minutos já estaria bom por dia. Assim você tem um melhor rendimento do que estudar um dia inteiro e no resto da semana não conseguir estudar nenhum pouco. Com o tempo você vai ganhando confiança no idioma e pode até se tornar um intérprete.” Edivam incentiva todos que querem aprender LIBRAS.
A profissão de Tradutor e Intérprete da LIBRAS foi reconhecida no dia 1º de setembro de 2010 pela Lei nº 12.319 e algo que chama minha atenção, tanto na história do Edivam com as LIBRAS quanto na de diversos outros profissionais que já conheci é que todos são levados à ela por um sentimento de solidariedade e por identificarem a necessidade fundamental dessa profissão para que a inclusão ocorra e ela acaba se tornando sua profissão. Nós temos em âmbito federal e estadual diversas leis de inclusão e acessibilidade que se fossem aplicadas da forma correta já seria um grande avanço pois possibilitam que haja capacitação de intérprete de LIBRAS para atuarem nos locais públicos e privados como escolas, hospitais, delegacias, agências bancárias e assim por diante, promovendo a acessibilidade. Também incluir a profissão de intérprete de LIBRAS nos fóruns e tribunais pelo país, possibilitando uma maior valorização da profissão e o entendimento da sua real importância.
Que a valorização da profissão venha não só pela força da lei, que muitas vezes tarda, mas por uma mudança de mentalidade da nossa população. E eu acredito que já começou.
Por Nancy Segadilha – Advogada e PcD
Agradecimentos:
Ao amigo Edivam Gaio de Castro por compartilhar sua história.
Referências:
#ParaTodosVerem Foto de mulher em cadeira de rodas posando ao lado de homem que está de pé. Estão em um ambiente de auditório com algumas pessoas conversando ao fundo. Ele tem a pele morena, usa calça, cinto e sapato pretos e camisa verde. Ela veste macacão com estampa preta e branca, um blaser preto e sapatos vermelhos, tem a pele clara e cabelos pretos longos. Ambos olham para câmera e sorriem