Manaus sex, 16 out
A Crítica
Opinião

Mesma luta, desafios diferentes.

Em um país com tantos contrastes por que algumas diferenças pesam muito mais?

Publicado em 22/07/2021 às 10h00 · Atualizado em 24/03/2022 às 22h49

Muitas memórias são confusas da época do acidente que me tornou em um Pessoa com Deficiência. Até hoje não tenho certeza se o motivo de eu me lembrar tão pouco dos meses após é lesão é consequência somente das medicações e sedações ou se é um mecanismo de defesa. Minha memória começa a ficar menos nebulosa durante o período em que estive internada no hospital da Rede SARAH e foi nessa fase que tive a primeira percepção que mesmo com tudo o que eu tinha “perdido” eu ainda era, e sou, uma pessoa cheia de privilégios. 

Logo após o meu despertar do coma induzido, ainda com dificuldades de fala devido aos meses de traqueostomia e compreendendo a dimensão das mudanças da minha nova vida eu passei à frequentar através da internet um grupo para pacientes eu tratamento e recuperação. Lá conheci diversas pessoas, com idades, lesões, origens e possibilidades diversos mas um deles me marcou e jamais vou me esquecer o que ele me disse. Já na nossa primeira conversa tivemos algumas afinidades, quase a mesma idade, lesão nas mesmas vertebras, gostos parecidos para músicas, filmes, etc. E seguíamos com conversas leves até que um dia ele me contou sobre sua realidade e as nossas diferenças se ressaltaram.

Ele era um jovem, negro, morador de periferia, gay, não aceito pela família e se tornou tetraplégico após um tiro na comunidade onde morava. 14 anos atrás enquanto eu estava enfrentando o maior desafio da minha vida a desigualdade racial do Brasil se apresentou diante de mim através do meu novo amigo de uma forma que não pude ignorar nem deixar fingir que não vi. Eu estava diante de alguém que enfrentava desafios imensamente superiores aos que eu mesma enfrentava somente pela cor da pele, pela renda, pelo local onde morava. 

Segundo a ONU 80% das Pessoas com Deficiência de todo o mundo vivem em países em desenvolvimento (países com padrão de qualidade de vida entre médio e baixo) como resultado principalmente de violência além de acidentes e doenças relacionados à condições precárias de higiene e baixa escolaridade por parte dos pais. Além disso, ter alguma deficiência aumenta o custo de vida em cerca de um terço da renda, em média. Completar a escola primária também é um desafio maior para as crianças com deficiência: enquanto 60% dessas crianças completam essa etapa dos estudos nos países desenvolvidos, apenas 45% (meninos) e 32% (meninas) completam o ensino primário nos países em desenvolvimento. Outro dado desafiador e alarmante é que mais de 50% das pessoas com deficiência não conseguem pagar por serviços de saúde. Entre as pessoas mais pobres do mundo, 20% têm algum tipo de deficiência. Mulheres e meninas com deficiência são particularmente vulneráveis a abusos. Pessoas com deficiência são mais propensas a serem vítimas de violência ou estupro, e têm menor probabilidade de obter ajuda da polícia, a proteção jurídica ou cuidados preventivos. Cerca de 30% dos meninos ou meninas de rua têm algum tipo de deficiência, e nos países em desenvolvimento 90% das crianças com deficiência não frequentam a escola.

(fonte: Department of Economic and Social AffairsDisability)

 Algumas pessoas já nascem em enorme desvantagem e isso é um problema de todos. Em uma sociedade desigual todos saem perdendo. A quantidade de talentos e potencial perdido para a violência, a falta de educação a falta de oportunidades e diversos outros desafios que separam a sociedade entre os que podem ter conquistas e superar os desafios e aqueles que não tem sequer uma chance.

Todos os movimentos e manifestações que tomaram as cidades ao redor do mundo, inclusive a nossa Manaus, precisam ser reconhecidos e principalmente ouvidos por todos nós e em especial pelos nossos governantes. Já vivemos muito tempo sob a sombra de preconceito e criminalização e as futuras gerações não aceitam mais. Entender que para o país, nosso estado e nossa cidade evoluírem nossa sociedade precisa crescer junto é o primeiro passo e ele é urgente.

Vamos seguir rumo à uma Manaus mais inclusiva para todos. 

Se não agora, quando?

Por Nancy Segadilha, advogada e PcD