Pablo Vittar: quando a arte vai além da técnica
Por Dante Graça*
A música é, certamente, a mais democrática e completa das manifestações artísticas. Democrática pois é plural, de fácil assimilação e das mais acessíveis para quem quer dar seus primeiros passos na arte. Completa porque reúne elementos do teatro, da dança e da literatura em torno de um produto final.
E mesmo diante de tantos elementos, de tanta riqueza, há quem tente limitar a música à mera análise técnica. As reações à explosão – ou ao lacre, na linguagem atual – de Pabllo Vittar no cenário artístico mostram bem como tentam minimizar a música à técnica vocal ou à virtuose instrumental.
Pabllo Vittar não é um primor técnico. Tem falhas perceptíveis até aos leigos neste aspecto. Mas isso não a torna uma artista ruim. Muito pelo contrário. Se falta uma técnica mais apurada – coisa que a dedicação e a estrutura que agora lhe acompanha certamente oportunizará – não falta atitude. Não falta conexão com o público. Não falta alegria, nem energia. Não falta performance. Por que, então, analisá-la apenas pelo aspecto técnico, se não falta a arte em seu conceito mais geral?
Pabllo é mais que uma drag queen que se aventurou no mundo da música para fazer discurso ideológico e levantar bandeiras. Ela ou ele, Pabllo faz um trabalho que bebe nas fontes mais diversas possíveis. Vai do pop americano ao tecnobrega paraense com a mesma autoridade, pois o som é genuíno, autêntico. É um som feito para divertir, para dançar, e cumpre seu papel com excelência.
Se Pabllo virou ícone no mundo LGBT, é muito pela sua coragem em despir-se de rótulos e colocar a alegria e a ousadia em primeiro lugar. Não foram discursos rasos que a levaram onde está hoje. Gostem os exigentes ou não, foi a música. E essa música rompeu nichos e ganhou o Brasil, independente de bandeiras.
Pabllo não tira o espaço de ninguém. Quem gosta do primor técnico e da finesse instrumental, tem opções variadas. E quem quiser música para se divertir, para dançar, para curtir, vai continuar com suas opções da mesma forma.
É assim desde que o mundo é mundo. É assim desde que Pablo Vittar era apenas Phabullo Rodrigues da Silva.
*Dante Graça é jornalista e editor-executivo do Portal A Crítica