Manaus dom, 18 out
A Crítica
Opinião

Pensar a visitação com o respeito merecido

Publicado em 30/10/2021 às 12h31 · Atualizado em 13/03/2022 às 19h17
Pensar a visitação com o respeito merecido

O primeiro final e começo de semana de flexibilização ampliada tem, entre outros destinos, o ritual da visita aos mortos. Este ano, a visitação marca um momento de emoção agudizada para 13,7 mil famílias que perderam seus entes queridos, muitos quais mortos em circunstâncias à espera de serem esclarecidas, como o é a falta de oxigênio em Manaus e outros municípios amazonenses.

Na pandemia da Covid-19, a cidade viveu cenas de profundo impacto como a falta de urnas funerárias, enterros coletivos, corpos enterrados sem a presença dos parentes e amigos. São cenas de muito sofrimento e dor que ainda não estão dimensionadas, convivem diariamente com parcela dos que ficaram vivos, dos que sobreviveram à doença e dos que estão lidando com sequelas.

A pandemia do novo coronavirus modificou de forma bruta atitudes sociais e costumes tradicionalmente observados como os velórios e o luto de e pelos mortos. A voraz contaminação impediu que os familiares pudessem velar seus entes queridos e enterrá-los, para muitos sequer foi possível identificar onde estão enterrados porque o foram em meio a outros corpos.

Pensar nessa experiência de tantos é uma necessidade para compreender, pouco a pouco, o que ocorreu em Manaus na fase mais explosiva da Covid-19 e, em alguma medida, é exercitar o afeto e a solidariedade para com a multidão de vítimas diretas da pandemia. A dor permanece e o vazio das vidas que se forma é imenso. Caberá ao que percebem o quanto é delicado esse tempo presente e como deve ser encarado com o respeito e a seriedade que merecem.

A ida ao cemitério é parte desse entendimento onde vários sentimentos estarão misturados. Para muitos, será a primeira vez que poderão chorar seus mortos, fazer preces por eles, colocar flores e acender velas, aos que observam o cristianismo, agradecer pela vida vivida com eles. Todos esses atos comuns no ritual da despedida que não pode ser feita e que, agora, com maior flexibilização, o será no ambiente dos cemitérios. Que sejam observados os cuidados tanto por parte dos visitantes quanto por parte dos administradores desses espaços a fim de que o cerimonial seja realizado com amorosidade e se cumpra uma etapa não observada antes.