Racismo & Violência
Por Lourenço Braga / Cada vez mais aprimoram-se, com técnicas e com instrumentos de tecnologias modernas, os requintes da violência de uma relação a que, infelizmente, nos vamos acostumando no dia-a-dia.
Dois dias após publicar crônica em que louvei a solidariedade demonstrada por americanos de diferentes classes sociais em protesto contra o assassinato de um negro sob o joelho criminoso de um policial não-negro, em plena via pública, eis que recebi mensagem que estaria circulando aqui como em algumas cidades dos Estados Unidos da América do Norte contendo o que seria uma folha corrida criminal da vítima daquele homicídio, dizendo-o processado por furto, por assalto e por tráfico de drogas.
Não vou conceder aqui espaço para detalhar a ignomínia do que considero covardia contra quem não se pode defender de acusações que o texto nem demonstra preocupação de comprovar, calado definitivamente pela brutalidade de um aparelho de Estado, mas tenho por necessário lembrar que no século em que vivemos não é possível admitir qualquer forma de condenação sumária, tanto mais se acompanhada de cumprimento de pena de morte como ali se deu, sem sequer garantir-se primaríssimo direito de defesa.
Admitindo, para argumentar, que George Floyd pudesse ter praticado os crimes que agora lhe querem imputar, nenhum deles, qualquer que fosse, seria capaz de justificar a barbárie contra ele praticada por um “agente da lei”, pago com o produto de impostos que ele também recolhia para garantir-lhe a segurança e a vida. Nem mesmo o “olho por olho, dente por dente”, de tão lamentável registro na história humana, deixaria de rebelar-se contra a desproporção entre a falta dita cometida e o rigor absoluto da punição. O que ali se deu foi, insisto sem medo de errar, manifestação de ira irracional provocada por sentimento de todo desprezível fundado em discriminação racial odiosa. Basta ver a foto que circulou o mundo com o policial-assassino tendo uma das mãos no bolso da calça e um olhar de desprezo e de indiferença que, no dizer de Lino Chixaro, ilustre causídico amazonense que honra nossa Defensoria Pública, haverá de bastar como eloquente libelo acusatório.
De outro ponto, em fotos e vídeos exibidos fartamente é possível constatar a presença de não menos tradicional violência com que se costuma estabelecer, lá como em vários lugares outros do planeta, aqui inclusive, a relação entre alguns chamados agentes da lei e acusados da prática de delitos, leves ou não, sobretudo os dos guetos, das favelas, das invasões, os que não costumam ter acesso ao trabalho formal, à educação de qualidade, à atenção à saúde, vítimas que são de não menos condenável discriminação social.
Carros-tanque ou simplesmente blindados abrem passagem derrubando barracos e casas, invadem espaços urbanos habitados por muitos que não devem ser acusados de prática delituosa, trabalhadores ou estudantes, ao tempo em que metralhadoras, fuzis e outros apetrechos conhecidos por referência nas notícias circulantes põem-se a distribuir balas em velocidades sempre crescentes, certeiras ou perdidas, ceifando vidas em guerras intermináveis sobretudo nos centros de maior concentração populacional e de menores índices de desenvolvimento humano. E cada vez mais aprimoram-se, com técnicas e com instrumentos de tecnologias modernas, os requintes da violência de uma relação a que, infelizmente, nos vamos acostumando no dia-a-dia, a ponto até de pretender justificar o crime contra George ou de deixar de sentir a vitimização de crianças, de adolescentes, de adultos ou de idosos indefesos, com balas que a eles não se dirigiriam se vivessem em lugares e em condições sociais diversas.
Quando escrevo estas linhas, como se dizia na época das cartas, encontro notícia que confirma, com igual destaque, a histórica violência policial, de que a americana é apenas mais um exemplo: no estacionamento de um shopping, alguém foi encontrado adormecido no interior de um veículo, provavelmente de sua propriedade, e um “zeloso” representante do Estado fê-lo acordar para, saindo do carro, submeter-se a teste de bafômetro, que indicou haver o sonolento cidadão ingerido bebida alcoólica. Reagindo com responsabilidade, teria o motorista informado ao policial que cuidaria de ir para casa usando outra condução, que não o teria ao volante, para só mais tarde buscar a que lhe pertencia, objeto da abordagem. Insatisfeito com a solução, o forte agente deu voz de prisão e tentou algemar quem, em verdade, não estava a praticar delito qualquer, muito menos de trânsito, porque não imagino meu estimado Félix Valois ensinando que dormir no interior de seu próprio veículo regularmente estacionado após ingerir bebida alcoólica constitua crime. E, como também penso, ingerir bebida com qualquer teor de álcool não constitui, igualmente, infração de qualquer natureza, não passando de agressão à saúde do próprio organismo. Pois bem, como terminou essa “epopeia”? Livrando-se das algemas, o sonolento homem foi morto com dois tiros nas costas quando empreendia fuga. Novas passeatas, nova manifestação de revolta da população neste tempo de cobrança pela reformulação de conceitos, de meios e métodos de ação da polícia.
Se regionalizarmos o olhar, podemos mencionar Barueri, ou Jaçanã, onde policiais espancaram, no final da semana, jovens sem explicação qualquer, com requintes da violência que a muitos deles dá prazer, e uma das vítimas ainda foi conduzida a um distrito policial para assinar, “por livre e espontânea coação”, boletim cujos termos foram ditados pelo próprio agente-agressor. Não fora gravação feita em celulares de circunstantes que assistiram a uma e a outra agressão, tudo isso ficaria sem registro qualquer, salvo na mente dos próprios agredidos e dos que lhes são próximos. Não faz muito, foi possível saber, por noticiário regular e por notas em redes sociais, da morte de um menino que se escondera em própria residência, naturalmente assustado e com medo, para fugir de um tiroteio com que policiais subiam as vielas estreitas da favela em que habitava e que terminou sendo atingido por uma das mais de setenta balas disparadas contra a casa onde ele estava. O crime? Ser favelado e pobre.
Felizmente, parece estarmos dando sinais, ainda tímidos é verdade, de querer sair do imobilismo social que nos fez acostumados com os muitos e repetidos lamentos restritos a cemitérios, na hora da dor maior, ou ao ambiente familiar das muitas vítimas dessa brutalidade, para, quem sabe, construir nova forma de ação e reação entre a força do Estado e os administrados, principalmente os desvalidos.