Reféns das organizações criminosas
Os assassinatos de quatro pessoas, uma família inteira, no interior do Município de Beruri, não se resumem na expressão isolada de crueldade. A forma de matança das pessoas, dois adultos jovens, e duas crianças, é sim expressão de crueldade que envolve uma tragédia em pleno desenvolvimento no Amazonas.
Os suspeitos de matar a família são também jovens. Estariam cumprindo ordens de chefes de organizações de narcotraficantes com os quais o pai das crianças teria assumido dívidas não quitadas. Esse é o primeiro relato até agora em circulação. Moradores de uma comunidade de Beruri, os mortos expõem o tamanho do domínio dos grupos de narcotraficantes no interior do Amazonas.
A população de Beruri na sede do município tem assistido nos últimos tempos os sinais da violência, antes urbana, avançando em direção à cidade. Nas comunidades mais distantes, onde a vida comunitária ainda é referência, os traficantes chegaram e se tornaram senhores, recrutam jovens, adolescentes, impõem as regras de convivência e estabelecem novos espaços para os negócios do crime. São a outra lei, a outra ordem e a população deve prestar contas aos chefes dessas organizações.
Há tempo, pesquisadores e representantes de núcleos comunitários têm apresentado dados sobre o aprofundamento das formas de violência no Amazonas e a necessidade de tomada de posição firme, ampla e permanente. Os governos tanto o estadual quanto os municipais não conseguiram sair de questões mais particulares e perceber o agravamento dessa questão. A omissão sistemática vinculada a discursos de bufões propiciaram a interiorização do crime e a constituição de redes que ampliaram os lucros desse tipo de negócio e arregimentaram mais braços para o trabalho criminoso por eles desenvolvidos. Não têm dificuldade em agir.
Os jovens e os adolescentes das cidades amazonenses são afetados diretamente por esse esquema criminoso transnacional. Suas vidas e seus sonhos estão sendo entregues aos grupos do crime e suas famílias arrastadas para um cotidiano de pavor. Uma família inteira é assassinada no interior do Amazonas e a esse caso juntam-se outros que reunidos criam a fotografia da condição de abandono em que os amazonenses e os moradores do Amazonas se encontram. A ação de enfrentamento exige outras estratégias e inteligência criativa em permanência porque o crime se estabeleceu de fato como governo paralelo com poder de longo alcance. Somos tomos reféns.