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A Crítica
Opinião

Reparação impossível

O selo Quilombos do Brasil que identifica produtos da Agricultura Familiar originados em territórios quilombolas foi oficializado no Diário Oficial da União desta terça-feira

Publicado em 22/11/2023 às 10h11
Reparação impossível
Foto: Divulgação

 

A criação, pelo Governo Federal, de um selo específico para identificar produtos de origem quilombola é uma inovação com duplo objetivo: ampliar a visibilidade desses grupos pelo País e, de certa forma, tentar reparar, pelo menos em parte, a omissão estatal de muitas décadas em relação a essas populações. 

Objetivo inglório diante da omissão histórica: basta dizer que apenas no Censo do ano passado, realizado pelo Instituto Brasileiro de geografia e estatística (IBGE), a pesquisa incluiu em seus questionários perguntas para identificar pessoas que se autodenominam quilombolas. 

O selo Quilombos do Brasil que identifica produtos da Agricultura Familiar originados em territórios quilombolas foi oficializado  no Diário Oficial da União desta terça-feira. Trata-se de uma população tão invisível que pouca gente sabe que no Amazonas existem mais de 2,5 mil quilombolas, muitos ainda vivendo em comunidades que resultam diretamente de agrupamentos formados por escravos que fugiram mata adentro há mais de um século, como o localizado no município de Parintins, entre tantos outros.

Só o município de Barreirinha abriga mais de 1855 quilombolas sendo esta a cidade amazonense com maior incidência de pessoas que assumem essa identificação. Tais pessoas são o registro vivo de um dos aspectos mais obscuros de nossa história, quando a economia brasileira era baseada no trabalho de pessoas escravizadas. Por isso o estudo de História é tão indispensável: essa era a realidade no Brasil há pouco mais de 135 anos.

A escravidão, inicialmente de índios, depois de africanos, fez parte de praticamente 75% de nossa história. Com o fim do sistema escravocrata, em 1888, o preconceito e a dificuldade de plena inserção social passaram a ser os principais obstáculos para os recém-libertos; situação que perdura ainda hoje. 

O racismo estrutural está em todos os lugares e se reflete na omissão estatal em relação à população quilombola, na “cegueira” do  IBGE ao longo de tantos anos, e em argumentos criativos e cínicos como a “meritocracia” que se opõe às ações afirmativas oficiais. Será preciso muito mais que selo de identificação, vagas em universidades e em concursos públicos para compensar séculos de violência e abusos.