Rumo à tragédia
As reações em relação ao aumento no número de casos e de óbitos por covid-19 no Amazonas são das mais diversas. Na capital, muitos aplaudem o relaxamento das medidas inicialmente anunciadas pelo governo Estado, que previam o fechamento do comércio e demais atividades não essenciais até 10 de janeiro. Alheias aos riscos, prefeituras anunciam festas de réveillon e confirmam eventos religiosos que, tradicionalmente, reúnem multidões. Há prefeito que, sem qualquer estudo científico ou pseudocientífico, afirma que as aglomerações ocorridas nas eleições não guardam qualquer relação com a intensificação da pandemia no Estado. O prefeito em questão é Beto D’Ângelo, de Manacapuru, cidade do interior com mais mortes pelo novo coronavírus.
A politização da covid é um dos fatos tristes da pandemia, tão triste como a prioridade que muitos dão aos próprios lucros, em detrimento da vida e da saúde dos outros e até de si mesmos. A proliferação de fake news leva parte da população a ignorar a situação cada vez mais preocupante nos hospitais públicos e privados de Manaus. Hospital Adventista e Hospital Santa Júlia já informaram que atingiram lotação máximo nos leitos de UTI. Na rede pública, o Hospital Delphina Aziz informa que a ocupação já está em 90%. Em outras unidades privadas, a situação é semelhante.
Enquanto isso, a movimentação no Centro de Manaus é das mais intensas. Consumidores ávidos tentam fazer as compras de última hora antes do aguardado réveillon para alegria dos lojistas. Se a aglomeração nas ruas vai agravar o quadro da pandemia na capital, pouco importa. A comoção parece restringir-se às famílias e amigos das vítimas, como o professor André Luiz Soares, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), falecido no último domingo em decorrência da doença.
Aquele cenário dantesco presenciado nos cemitérios de Manaus nos meses de abril e maio, pico da pandemia no Estado, dá sinais de que está voltando. Há filas de ambulâncias nos hospitais e filas de carros nos cemitérios para acompanhar sepultamentos à distância.
E a tendência é de agravamento. O revanchismo político precisa ser deixado de lado, a ânsia por lucros não pode vir primeiro que os cuidados com a saúde. O Amazonas precisa se unir contra a pandemia sob pena de retornarmos aos dias mais terríveis.