Venezuelanos: ódio como modelo de governo
Os ataques a que venezuelanos ora estão sendo submetidos na cidade de Pacaraima, na fronteira Brasil/Venezuela, pelo Estado de Roraima, demonstram o pouco caso que o governo brasileiro faz diante de situações tensas com fartos indicadores de ampliação de confrontos. Desde a saída de venezuelanos em direção a Boa Vista, Manaus e, mais recentemente, a outras capitais do Brasil, que as tensões ocorrem em ritmo crescente.
Em nível local, a governadora de Roraima pediu o fechamento da fronteira, como um dos instrumentos para impedir a entrada de mais venezuelanos em Boa Vista. Pressionado por setores da população, o governo daquele Estado acionou a instância federal para tentar soluções em um problema de maior alcance. Do ponto de vista governamental, pouco foi feito para enfrentar a situação por outro caminho que não o da tradicional rejeição à presença de imigrantes ou refugiados e dos vetos violentos a estes utilizados em todo o mundo. São parcelas da sociedade civil organizada que entram em cena oferecer abrigo e encontrar outros meios de lidar com os conflitos dessa natureza cada vez mais recorrentes no mundo.
Nesse sentido, o governo federal do Brasil atuou e atua de forma encolhida destinando sua preocupação para outras áreas e, ao se comportar dessa maneira, torna-se coresponsável pelo agravamento da violência na fronteira norte do País. E se representantes da estrutura do Judiciário, das Relações Internacionais, de instituições como Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), ONU, ACNUR e as demais organizações que lidam nas cidades brasileiras com a defesa dos direitos humanos não se articularem para agir logo, com sensibilidade e responsabilidade que a questão requer, esta fronteira tende a ser transformada em palco de tragédia.
Mobilizado por uma onda de ódio, intransigência, racismo e preconceito, o Brasil escancara a outra face de uma constituição que os discursos oficiais e os escritos ensinados em sala de aula tentavam impor, o da convivência pacifica entre os diferentes. A realidade atual do País expõe os dilemas dessa convivência, mostra como a ideia racista e a autoritária seguem fortes, reúnem grupos expressivos de apoiadores que a querem consagrada como modelo de governo. Pacaraima é apenas um pedaço de uma realidade perversa do Brasil.