Violência histórica na Amazônia
Relatos de agressões a indígenas, estupro de jovens e crianças aldeadas, ameaças e ataques armados vêm se avolumando
Os assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips somam-se a tantas outras mortes e atos de violência na Amazônia. Casos como os de Chico Mendes e Dorothy Stang ganham repercussão internacional e comovem o País, mas são apenas algumas de muitas vítimas cujas mortes mal são percebidas.
Garimpeiros, grileiros, traficantes e outros criminosos vêm intensificando suas atividades em terras indígenas, aproveitando a inércia do Estado, que ao deixar de agir, legitima tacitamente a ação dos invasores. Relatos de agressões a indígenas, estupro de jovens e crianças aldeadas, ameaças e ataques armados vêm se avolumando. A situação exige que a inoperância estatal em relação a esses povos amazônicos seja interrompida. Já passou da hora de o Estado Brasileiro desenvolver e implementar uma política indigenista séria no País, especialmente na Amazônia, onde ainda existem povos isolados que precisam de proteção redobrada.
As mortes de Dom e Bruno descortinaram um cenário de conflito que vem de muito tempo e que vai se agravar caso nada seja feito. Uma providência que não pode esperar é o imediato aumento do efetivo de agentes do Estado em áreas de conflito como o Vale do Javari. O papel da Fundação Nacional do Índio (Funai) precisa ser repensado e a instituição, fortalecida. A atuação da Polícia Federal também pode ser intensificada na proteção das terras indígenas e a política de demarcações precisa ser retomada para dar segurança jurídica a esses brasileiros.
O panorama é dos mais complexos e exige atuação estratégica. O País precisa desenhar o mapa da violência na Amazônia. No Vale do Javari, por exemplo, ficou escancarado que a pesca e a caça ilegal encabeçam a lista de ameaças; em outras áreas, o problema é o avanço do garimpo clandestino, em outras, a extração de madeira… É necessário identificar os problemas, mensurá-los e agir adequadamente sobre cada um. Esse diagnóstico e o plano de ação resultante precisam ser executados com a participação ativa dos próprios indígenas. É essencial que esses povos tenham voz, e que essa voz seja ouvida e levada a sério.
O fato é que algo precisa ser feito. As mortes de Dom Philips e Bruno Pereira, e a realidade que eles enfrentavam na Amazônia, não podem cair no esquecimento.