Linchamento vira prática comum nas periferias de Manaus
Somente neste mês de novembro já foram registrados três assassinatos nas ruas da cidade de pessoas suspeitas de crimes
Nas últimas duas semanas, casos de linchamento em local público de “suspeitos de roubo” e “possíveis tarados” vieram à tona na capital amazonense. De acordo com informações do Instituto Médico Legal (IML), três situações desta natureza foram registradas pela polícia neste mês.
Dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Amazonas (SSP-AM) também apontam que 76 crimes de lesão corporal seguida de morte, onde estão inseridos parte desta “punição com extrema violência” foram computados nos últimos três anos.
Para o professor especialista em Segurança Pública da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Fábio Candotti, que é coordenador de uma pesquisa científica sobre linchamento em Manaus, a principal causa desta prática na sociedade são os crimes contra o patrimônio.
Conforme ele, este tipo de crime é uma “tortura pública, no meio da rua”, ou seja, não sendo uma justiça com as próprias mãos, mas sim, através de vários instrumentos.
“O primeiro ponto a se considerar é que não é toda população que apoia linchamentos, se dispõe a linchar ou que lincha. Em todas as situações que nós obtivemos relatos e que os pesquisadores presenciaram sempre há um número expressivo de pessoas contrárias e que tentam evitar essa prática”, disse o professor, que é coordenador do Grupo de Pesquisa Ilhargas do Departamento de Ciências Sociais da Universidade.
“É curioso que a população não acredita na justiça criminal, no sistema carcerário e por isso lincha, mas a polícia e a justiça tem aprisionado uma quantidade cada vez maior de pessoas ao longo das últimas duas décadas”, informou o pesquisador.
Produção de sofrimento
O professor Fábio Candotti classifica o linchamento como uma produção de sofrimento e punição, que também não é distinta de como o Estado atua nas pessoas suspeitas de crimes.
“O estado faz uma produção de sofrimento físico e psíquicos extremos, seja como a maneira como a polícia atua no momento da detenção, ou seja, como o sistema carcerário trata as pessoas presas, que é na base da tortura, que é um problema muito grave em Manaus e no Brasil”, enfatizou.
Dados
A pesquisa sobre linchamento revela que pelo menos 345 casos foram registrados no Amazonas entre 2011 e 2020. O estudo tem como alvo Manaus – assim como as cidades de São Luiz (MA) e Vitória (ES).
Conforme o documento, em 2011 foram registrados cinco casos de linchamento, enquanto que em 2020 foram confirmados 78.
Sobre o perfil das vítimas do linchamento, a pesquisa aponta que 98% foram confirmadas como sendo homens, sendo que 93% não são brancos, e 55% eram jovens.
Casos recentes
No dia 1° deste mês, o jovem Cleyviano Gomes de Souza, 23, foi agredido pela população por suspeita de roubo e acabou assassinado com três tiros. O crime contra ele foi filmado por moradores da região e divulgado em redes sociais.
Na última quinta-feira (9) Ednilson da Cruz Oliveira, 45, foi linchado por um grupo de pelo menos dez homens na rua Dr. Lopes Gonçalves, bairro Novo Aleixo, zona Norte de Manaus. De acordo com informações repassadas pela Polícia Militar, Ednilson teria se masturbado para algumas crianças e que traficantes da área, ao tomar conhecimento, deram ordem para que Ednilson fosse morto.
Um assaltante foi linchado pela população após ele o comparsa ter esfaqueado um adolescente, de 17 anos, na noite de quinta-feira (9), durante uma tentativa de assalto. Nenhum dos dois foi identificado.
O caso ocorreu na rua Itajaí, bairro Novo Aleixo. De acordo com informações da Polícia Militar, o adolescente foi atacado pela dupla após ter descido de um ônibus.