Veteranos da Coiab se reúnem para fortalecer direitos indígenas
O evento aconteceu na manhã desta quarta-feira (30), na sede da Associação das Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro
O professor indígena e um dos organizadores do I Encontro de Lideranças Veteranas do Amazonas, Orlando Melgueiro Baré, afirmou que reunir os líderes e ativistas mais antigos dos povos originários tem objetivo de fortalecer as lutas travadas, como demarcação de terras indígenas e direitos humanos. O evento aconteceu na manhã desta quarta-feira (30), na sede da Associação das Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro.
“Este evento que aconteceu agora foi para avaliar esta caminhada desses últimos 36 anos de COIAB. Percebemos que a COIAB teve altos e baixos, mas o seu princípio fundamental por lutar por território, uma educação de qualidade, saúde diferenciada e auto sustentabilidade continua sendo a nossa bandeira de luta”, disse.
O professor informou que um dos principais motivos da realização do evento é não permitir que “a velha guarda” fique alienada e também defender a presença dos povos indígenas nas decisões políticas.
“O mundo se capitalizou, as ideologias são muito fortes, mas nós precisamos ser fortes também com a parceria, primeiro entre nós mesmos, segundo com as diferentes instituições, como universidades, igrejas que são abertas ao diálogo, aos partidos, tanto que a Coiab nasceu também com apoio de partidos políticos na época de esquerda. Hoje nós queremos partidos que nos ouçam e caminhem conosco e obviamente não falando de direita, pois nascemos como movimento de esquerda”.
Ele explicou que é necessário que os povos originários compreendam sua dimensão e complexidade para que lutem por políticas públicas eficazes.
“Nós estamos brigando hoje para que os parentes se conscientizem de que nós somos um número considerável. Em Manaus, somos mais de 71 mil cidadãos indígenas morando nas periferias, buscando o caminho para sobreviver. Por que que vieram? Nós não demarcamos nossos territórios, nós ainda estamos lutando por territórios. Na verdade, precisa que as políticas públicas olhem para esse outro lado”, informou.
O educador ressaltou que a luta agora é para que os direitos dos povos indígenas sejam cumpridos, já que em governos anteriores foram retirados. “Tivemos um governo que disse que não ia demarcar um palmo de terra para indígenas. Sabemos que tudo isso tem a ver com a política internacional também, sobretudo quando se trata de subsolo, quando se trata de minerais em terras indígenas. Então, territórios indígenas demarcados tornam-se empecilhos. Por isso buscamos conscientizar nossos parentes e lutar por nossos direitos”.
Questionado sobre as violências sofridas pelos povos originários, Orlando Baré analisou o relatório do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), que aponta o Amazonas como o segundo estado com maior número de assassinatos de indígenas no Brasil em 2024, com 45 mortes. O estado fica atrás somente de Roraima (57) e é seguido por Mato Grosso do Sul (33) e Bahia, com 23 indígenas.
“Nos falta segurança pessoal e segurança coletiva, que também é a nossa prioridade. O Estado brasileiro precisa acompanhar os nossos parentes, principalmente quem está na área de fronteira. É por lá que correm muitas drogas e muitos suicídios também. Faltam políticas públicas”, disse.
O professor ressaltou que os dados revelam uma dura realidade no Amazonas, que sofre influência da pobreza e falta de presença do Estado nos territórios.
“A caminhada é difícil, o diálogo é difícil, mesmo que tenhamos hoje profissionais indígenas ocupando espaço nas políticas públicas. Não tem espaço para as populações indígenas. Ou seja, meio paliativo essas situações. Mas as organizações também precisam se fortalecer em diferentes situações, principalmente a política econômica. Uma das razões das mortes é a situação da pobreza desses parentes que vêm para as periferias, sobretudo de Manaus”, afirmou.
Ele defendeu que esses diálogos devem continuar acontecendo para fortalecer os movimentos indígenas em busca de saúde, segurança, educação e da garantia de dignidade, mesmo aos povos originários que vivem na capital.
O veterano no movimento indígena Cláudio Pereira Mura, 77, receberá a próxima reunião em seu território, em Autazes. Ele afirmou que o principal motivo do encontro será debate sobre o projeto Potássio do Brasil.
“O motivo dessa reunião acontecer em Autazes é porque tá tendo um projeto da Potássio do Brasil que é pra tirar a mineração. É uma preocupação, pois há movimentos indígenas que estão defendendo isso, vamos dizer assim: estão defendendo o direito do branco, pois é um projeto do Canadá, que é a mineração da Sauvinheta. Então isso é muito preocupante, porque não está preocupado com o nosso desenvolvimento”, informou.
Cláudio Mura criticou a falta de debates e, principalmente, reuniões que expliquem de fato do que se trata o projeto.
“Nós temos medo de ter um impacto muito grande. Eles vão mexer na terra, no subsolo e isso pode prejudicar a vida da população de alta, não só do indígena, como do branco, como do negro, como do quilombola e trabalhador ribeirinho, pois tudo vai ser prejudicado. Então é preciso ver a sociedade saber e ver como será o impacto do projeto na água, no solo e nos peixes. Mostraram um vídeo, mas nem todo mundo entende direito”.