Anciãos indígenas se foram e levaram ‘bibliotecas’ de saberes
Morte de lideranças indígenas pelo novo coronavírus está se tornando uma tragédia frequente, com povo ficando órfão de conhecimentos e saberes
O pajé Sakamiramé Asurini era um dos líderes mais importantes do povo Asurini do Tocantins: ele morreu aos 93 anos vítima da Covid-19 no dia 24 de maio, após passar os últimos dias de vida em estado grave, numa unidade de pronto atendimento, à espera de um leito na UTI do Hospital Regional de Tucuruí (PA).
No dia 30 do mês passado, o vírus levou a liderança Graciliano Pena Tukano aos 80 anos de idade no município de Santa Izabel do Rio Negro (a 846 quilômetros de Manaus). Antes, dia 17 do mesmo mês, se foi Paulinho Paiakan um dos guerreiros e líderes expressivos na década de 1980, até hoje lembrado como destaque na Eco 92 no Rio de Janeiro, ecologista reconhecido mundialmente na luta contra a Barragem de Belo Monte (PA).
As perdas se somam a de outros anciãos indígenas e, com eles, se foram parte de toda uma ancestralidade, num repasse de conhecimento que foi interrompido bruscamente como bibliotecas que se foram.
“As perdas de lideranças tradicionais e políticas são uma questão muito preocupante porque sabemos que, culturalmente, os indígenas vivem com bastante idade, mas o coronavírus chegou para eles que são linha de frente de suas organizações e comunidades e não têm como fugir, pois precisam fazer suas articulações e a ‘ponte’ com instituições governamentais e não-governamentais e parceiros aliados. São bibliotecas vivas que se foram numa perda dolorosa. O Estado de Roraima, por exemplo, está perdendo líderes tanto tradicionais quanto políticos”, analisa Rosimere Teles Arapasso, 50, coordenadora da Rede de Mulheres Indígenas do Amazonas (que se chama Makira-Êta e quer dizer “Rede de Estrelas”.
Homenagens e pesar
No último dia 22, em sua conta no Instagram, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), postou um comentário do Movimento Munduruku Ipereg Agu, em nota de pesar, sobre a questão.
“Em comunidades indígenas, é comum que os mais velhos sirvam de conselheiros e guardiães de sabedoria e tradições em sociedades caracterizadas pela transmissão oral da história, das tradições e informações de gerações anteriores. [A epidemia] está sendo uma das formas de destruição de nosso povo, a morte dos nossos sábios, nossos velhos, nossos conhecedores’”.
Já na última terça-feira, Marivelton Barroso Baré, presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), também postou em seu Instagram sobre a perda de Graciliano Pena Tukano, que, como conhecedor tradicional e liderança, contribuiu ativamente no movimento indígena no município, especialmente através da Associação das Comunidades Indígenas do Médio Rio Negro (Acimm), inspirou e participou da formação de novas lideranças indígenas que atuam, hoje, na região, numa perda que é considerada irreparável para os povos indígenas do rio Negro.
“E com grande pesar que recebemos notícia de falecimento de mais um parente que teve uma grande importância para nós em nossa caminhada e tudo que nos incentivou e buscamos juntos. Essa pandemia veio e está nos tirando de uma forma muito violenta com perdas irreparáveis a nós povos indígenas. Que o nosso parente e líder tradicional Graciliano Pena Tukano descanse em paz e seu legado é a sua história sempre será lembrando por nós”, disse Marivelton Baré.
Em números
9.983
É o número de casos confirmados de Covid-19 em indígenas por todo o País, sendo que a maciça maioria – 7.379 – dos infectados são dos Estados da Amazônia, segundo dados da Coiab até o último dia 30.
407
É o total de indígenas que morreram até agora por conta do Novo Coronavírus, com 358 deles provenientes da região amazônica.
57
É o número de mortos do povo Kokama, que lidera o infeliz ranking de povo com mais vítimas fatais nesta pandemia.
‘Perdas irreparáveis’
O diretor-presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), Marivelton Barroso Baré, entidade que representa 750 comunidades da área de abrangência de São Gabriel da Cachoeira, Santa Izabel do Rio Negro e Barcelos, relata que o Covid-19 já matou mais de 50 indígenas naquele território.
“E entre essas perdas há lideranças que desempenharam importante papel no movimento indígena e para a criação da Foirn e o próprio fortalecimento dela nessas três décadas”, salienta o dirigente. Ele lamenta, entre outras, mortes como a do artista dessana Feliciano Lana; Higino Tenório, intelectual e pioneiro na educação escolar, também responsável por coordenar o projeto de mapeamento dos sítios de locais sagrados de origem dos povos indígenas do rio Negro; e Graciliano Pena, tukano contribuinte e militante do movimento indígena com forte atuação no reconhecimento do sistema tradicional agrícola do rio Negro, tombado como Patrimônio Imaterial dos povos indígenas.
“São perdas irreparáveis que acabamos tendo, com prejuízos enormes, seja para as nossas questões culturais, práticas, incentivos a jovens lideranças, transmissão de conhecimentos. Lamentamos muito essas perdas que vamos sentir por vários anos, mas vamos levar à frente todo esse legado e história que contribuíram conosco”, disse o líder.
Citando as subnotificações de casos do Covid, que ele diz serem altas, Marivelton Baré comentou que tem-se tentado fazer uma forma de poder buscar atuar no acompanhamento e monitoramento de casos nas comunidades indígenas dentro do território. “Aqui no Rio Negro a salvação de tudo foi a medicina tradicional, claro com ações conjuntas para tratamento aos infectados com o vírus, senão os índices de mortes poderiam ter sido ainda mais ‘violentos’ na região. E não parou nem está bem. Não se pode afrouxar medidas e qualquer flexibilização demais pode pôr em risco para um contágio ou pico que pode vir pela frente”, disse o representante da Foirn.
Blog: Mário Wapixana – vice-coord. Coiab
“O Covid-19, segundo os dados que temos, tem levado mais vidas de indígenas homens e os mais idosos, homens e mulheres, em cada Estado, tanto em Roraima, onde estou, quanto no Amazonas, Pará, Acre, Rondônia, Amapá, Mato Grosso e Tocantins. Se foi um legado de história pela luta dos territórios, que é o nosso maior projeto de vida, e toda uma geração de ensino de conhecimento no processo de aprendizado além da escola. São mortes prematuras que estão levando a história de cada povo junto, um trabalho histórico de décadas. Essas mortes também refletem a omissão de atendimento ao nosso povo, o preconceito em hospitais de alta e média complexidade, o racismo institucional e as invasões de nossos territórios por parte de madeireiros”.
Memorial Vagalumes visa reparação histórica
Com o objetivo de prestar uma singela homenagem aos mortos e solidariedade às famílias dos povos indígenas afetados pela Covid-19 no Brasil e em países vizinhos, uma rede voluntária de professores e pesquisadores de todo o País criou o site “Memorial Vagalumes” (memorialvagalumes.com.br), onde quem acessa pode conhecer a biografia de importantes lideranças.
A iniciativa visa, também, reparações históricas a essas lideranças até mesmo em caso de ações jurídicas contra a ineficiência das políticas públicas de saúde e assistência indígena.
Lá você pode saber mais da história de indígenas como Feliciano Pimentel Lana, que faleceu no último dia 12 de maio em São Francisco, comunidade indígena situada no Alto Rio Negro: dessana, ele morreu aos 83 anos e era um artista plástico de estilo inconfundível.
Ou da amável Meriná, que se chamava Bernaldina José Pedro, que era da etnia macuxi da terra indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, e que se foi da companhia física de seus parentes aos 75 anos de idade. E outros ícones indígenas.
“Nenhuma pessoa pode ser apenas um número entre centenas de milhares de vítimas da Covid-19. A pessoa que parte viveu uma vida, deixou parentes, amigos e relações! Algumas eram famosas e deixaram obras de arte, livros, filmes, ou tiveram postos de comando e voz, feitos guardados como rastros de sua memória. Muitas não obtiveram visibilidade pública ao longo da sua existência, porém deixaram ideias e pensamentos no seu círculo mais íntimo de relações, que se perpetuam no plano da vida espiritual e cultural de sua comunidade. Isso vale para qualquer ser humano. Mais ainda para os povos indígenas”, retrata texto de apresentação do Memorial.
“(Vagalumes) Porque acreditamos que os povos indígenas são como que vagalumes no mundo atual: brilham. E de tempos em tempos fazem piscar uma luz em meio à escuridão, trazendo-nos uma centelha de esperança de que as atrocidades, o ódio, a intolerância e a avareza gerada pelo lucro e a cobiça desenfreada pela devastação da natureza possam vir a ser transformados. A morte de cada pessoa indígena ameaça a existência dos povos indígenas e, consequentemente, ameaça a própria possibilidade da vida plena no planeta. Cada morte apaga definitivamente uma luz”, relata outro texto incluso no site.
Análise: Pedro Rapozo, professor da UEA e coordenador do Núcleo de Estudos Sócio-Ambientais da Amazônia (Nesam)
“O Estado do Amazonas, segundo os últimos dados apresentados pela Coiab e outras organizações indígenas demonstra que o Amazonas é o Estado que tem maiores impactos e notificações de óbitos quando se fala de populações indígenas. E particularmente na região do Alto Rio Negro e Alto Solimões se tem um percentual significativo de idosos morrendo. E 88% dos mortos entre as populações indígenas são de idosos. Quando estamos falando na perda dos mais velhos precisamos ter a compreensão que essa perda não é simplesmente material. Dentro das particularidades sócio-culturais desses povos eles são sabedores e detém conhecimento repassado historicamente dos seus antepassados. Eles concentram todas as experiências sociais, valores, representações sobre ambientes que permitem um sistema de organização das comunidades indígenas. Se perde um referencial de cultura, de história, de língua, de conhecimentos e saberes aplicados no dia a dia. Se perde, praticamente, uma biblioteca”.