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A Crítica
Saúde

Desafios da vacinação em bebês prematuros

Pesquisa inédita revela que 65% dos pais consideram imunização um momento de estresse intenso

Publicado em 14/12/2025 às 14h12 · Atualizado em 14/12/2025 às 14h57
Desafios da vacinação em bebês prematuros
Foto: Luís Madaleno

São Paulo (SP) –  O nascimento prematuro chega, na maioria das vezes, de forma inesperada. Nenhuma família está plenamente preparada para viver essa experiência que transforma alegria em angústia, expectativa em medo. Para os pais de bebês que nascem antes das 37 semanas de gestação, o trauma da UTI neonatal é apenas o início de uma jornada marcada por inseguranças – e a vacinação, fundamental para proteger essas crianças mais frágeis, tornou-se um dos momentos de maior estresse.

Uma pesquisa inédita realizada pelo Datafolha a pedido da Sanofi, que ouviu 200 famílias de prematuros em todas as regiões do país, revela um cenário preocupante: 65% dos pais consideram a vacinação uma experiência de estresse moderado a intenso. Quase metade relata medo de reações adversas, 24% sentem ansiedade ou nervosismo e 11% chegam a sentir culpa por acreditar que o bebê está sofrendo.

“Os pais de prematuros carregam uma memória de fragilidade intensa. Quando chega o momento da vacinação, muitos revivem aquele período crítico”, explica o infectologista pediátrico Dr. Daniel Jarovsky.

“Mas é justamente por terem maior risco de infecções graves que os prematuros precisam ser vacinados no tempo certo e com as recomendações específicas.”

Essa sensibilidade emocional tem raízes profundas: 92% dos bebês ouvidos na pesquisa passaram por internações em UTI neonatal, muitos com peso muito baixo, dificuldades respiratórias ou de alimentação e, em alguns casos, risco de vida.


Denise Suguitani é a diretora executiva da ONG Prematuridade.com. (Luís Madaleno)

 

Desinformação adia a proteção

O medo, no entanto, não é o único obstáculo. A falta de informação clara e consistente compromete diretamente a adesão ao calendário vacinal. Os dados mostram que 43% dos responsáveis ouviram informações contraditórias sobre vacinação de prematuros, e 24% consideraram as orientações confusas ou simplesmente não receberam qualquer explicação após o nascimento.

“A desinformação ainda é um grande problema, uma grande barreira de acesso das famílias de prematuros aos seus direitos e às vacinas”, afirma Denise Suguitani, diretora executiva da ONG Prematuridade.com.

“É preciso trazer a vacinação dos prematuros como um tema de campanha nacional, anualmente, porque não é um tema fácil – são muitas vacinas, muitas doses, e os profissionais precisam ser qualificados recorrentemente”, acrescenta.

As percepções equivocadas também atrasam a proteção: um em cada quatro pais prefere adiar a vacina até que o bebê “fique mais forte”, embora as evidências científicas mostrem que a proteção precoce é fundamental. Além disso, 36% acreditam que prematuros seguem o mesmo calendário de bebês nascidos a termo, quando na verdade esses bebês têm recomendações específicas relacionadas à idade gestacional e peso.

O diretor-geral de vacinas da Sanofi, Guillaume Pierart, destaca a urgência de preencher essas lacunas.

“Quando pensamos em proteção e saúde pública, especialmente na primeira infância, a informação é o ponto de partida”, afirma.


Infectologista pediátrico, Dr. Daniel Jarovsky destacou que a vacinação é um momento crítico para os pais (Luís Madaleno)

 

Calendário especial e a busca por equidade

O calendário vacinal dos prematuros, recomendado pela Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), inclui vacinas como a hexavalente acelular, disponível no SUS apenas para bebês nascidos antes de 33 semanas ou com menos de 1,5kg. A vacina protege contra seis doenças com uma só aplicação e causa menos reações adversas – um diferencial importante para bebês que já passaram por tanto.

“Hoje não existe equidade no acesso à vacina hexavalente”, denuncia Suguitani. “Uma grande parte dos bebês prematuros nasce entre 33 e 37 semanas e fica vulnerável às reações adversas que a vacina pentavalente pode trazer. Temos relatos de mães cujos bebês sofreram com reações bem fortes.”

A falta de clareza sobre os Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIEs), serviços do SUS preparados para atender grupos vulneráveis, é outra preocupação: apenas 39% dos responsáveis conhecem esses centros, enquanto 30% desconhecem totalmente o serviço. Entre aqueles que conhecem, porém, 85% relatam que seus filhos foram vacinados ou orientados no local, evidenciando o potencial desses centros para reduzir inseguranças.

Barreiras e desigualdades

Além dos desafios emocionais e informativos, obstáculos práticos dificultam a imunização: 75% dos pais enfrentaram alguma barreira, incluindo falta de vacinas, longas filas, horários incompatíveis e ausência de orientação adequada.

As desigualdades regionais agravam o problema.

“Regiões menos favorecidas economicamente, especialmente Norte e Nordeste, têm acesso à saúde e à informação muito menor”, explica Suguitani. “Justamente onde as taxas de prematuridade são maiores e os serviços mais precários.”

Mesmo com todos esses desafios, há esperança: 58% dos pais afirmam se sentir aliviados por entender que estão protegendo seus filhos ao vaciná-los. “Informação clara, transmitida com empatia e consistência, transforma a vacinação em uma etapa de confiança, não de temor”, conclui Suguitani.

Novembro roxo e a luta por direitos

Em setembro, a Lei nº 15.198/2025 oficializou o dia 17 de novembro como o Dia Nacional da Prematuridade, instituindo o Novembro Roxo como mês oficial da causa. A legislação reforça o compromisso com a prevenção do parto prematuro e assegura o direito de acompanhamento pós-alta dos bebês até os 2 anos de idade, com prioridade no atendimento e calendário especial de imunizações.

Para contribuir com a conscientização, o TV Saúde Brasil Net, com apoio da Sanofi, lançou um documentário especial sobre prematuridade, disponível gratuitamente no YouTube. A produção explica os diferentes graus de prematuridade, riscos associados e direitos das famílias, além de destacar a importância da imunização.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o Brasil está entre os países com maior número absoluto de nascimentos prematuros no mundo. Os bebês nascidos antes de 37 semanas enfrentam riscos significativamente maiores à saúde, incluindo complicações respiratórias, cardíacas, neurológicas e atrasos no desenvolvimento. Para essas crianças, cada vacina no tempo certo pode ser a diferença entre proteção e vulnerabilidade.

*Repórter viajou à convite da Sanofi