Introdução alimentar e o desenvolvimento de alergias: qual a relação?
Especialistas explicam se a exposição tardia a certos alimentos reduz ou não o risco do desenvolvimento de alergias
A fase da introdução alimentar é um assunto que gera muitas dúvidas, principalmente quando atrelado ao tema “alergia alimentar”. É comum que após o aleitamento materno – que deve ser realizado até o sexto mês de vida conforme recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde – algumas mães ainda tenham certa resistência em começar a incorporar determinados alimentos na alimentação do bebê, por conta das tão temidas alergias. No entanto, segundo especialistas, evidências atuais mostram que a exposição tardia a alimentos alergênicos (por exemplo, ovo, amendoim e frutas ácidas) não reduz o risco de desenvolver alergias, podendo inclusive causar o efeito oposto: aumentar a chance de reações alérgicas mais tarde.
Segundo a professora de saúde da criança na Faculdade de Medicina UFAM, a pediatra e neonatologista Rossiclei de Souza Pinheiro, a introdução alimentar é um período fundamental para a criação de hábitos alimentares saudáveis e início da apresentação de novos alimentos. “Lembrando que até 6 meses as crianças devem ser alimentadas exclusivamente com leite materno. Na ausência do leite materno, os bebês fazem fórmula infantil de partida sem necessidade de outros alimentos até 6 meses”, enfatiza ela.
“A partir dos seis meses as crianças podem ingerir alimentos naturais (tubérculos, frutas e legumes), ou minimamente processados (arroz, feijão, lentilha, grão de bico, amendoim, nozes etc.). Além disso, devem entrar em contato com outras proteínas animais (ovo, carne, peixe e frango)”, complementa a Dra. Rossiclei.
Alimentos recomendados
De acordo com a nutricionista, Manoela Cordeiro – CRN 7 – 6643, é recomendado oferecer de tudo um pouco na fase da introdução alimentar, observando como o pequeno responde.
“Pode começar a nova alimentação do bebê pelas frutas, que entram na hora do ‘lanche’. Ou pela própria refeição, baseada em verduras (couve, espinafre, repolho…), legumes (berinjela, couve-flor, brócolis, abóbora, beterraba…), fontes de carboidratos (arroz, batata e macaxeira) e a proteína de origem animal (carne, frango ou peixe) e as leguminosas (feijão, lentilha e grão de bico). O importante é começar de forma lenta e gradual”, pontua.
A profissional enfatiza que todos os alimentos devem ser amassados com o garfo e de preferência servi-los separadamente para que o bebê possa identificar a cor, sabor e textura de cada alimento. “Os alimentos não devem ser liquidificados, peneirados ou processados”, ressalta Manoela.
Alimentos industrializados como: biscoitos, pão, alimentos riscos em açúcar, café, sal e até mesmo o suco natural sem adição de açúcar devem ficar de fora nesse momento.
Alimentos alergênicos
Segundo a Dra. Rossiclei, “a prevalência de alergias alimentares mediadas por imunoglobulina E (IgE) em crianças teve aumento significativo nas últimas décadas”. O leite de vaca, ovos de galinha, soja, amendoim, nozes, trigo, peixe e marisco são os mais frequentes alimentos alergênicos envolvidos.
Ela destaca que na década de 1990, a prevenção da alergia alimentar era baseada na exclusão alimentar em bebês de alto risco, ”ou seja, com história de atopia em família de primeiro grau, e até mesmo em suas mães durante a gravidez e a amamentação. Portanto, a recomendação era realizar a introdução tardia de alimentos alergênicos (por exemplo, ovo, amendoim e frutas ácidas, após os 12 meses de idade)”.
Evidências atuais mostram que postergar a introdução de alimentos alergênicos na alimentação do bebê não reduz o risco de desenvolver alergias. “Estudos mostram que a introdução do ovo de galinha no início da introdução de alimentos associou-se à redução do risco de alergia ao ovo em comparação com a introdução posterior. Além disso, foi constatado que um maior tempo de cozimento reduz a alergenicidade do alimento”, pontua Pinheiro.
Grãos inteiros como amendoim e nozes não devem ser ingeridos por crianças menores de dois anos, pelo risco de asfixia. Uma alternativa é comer em forma de pasta.
Tratamento
Então como proceder ao identificar a ingestão de alimento suspeito em crianças com antecedentes de reações clínicas anteriores desencadeadas pelo mesmo alimento? A Dra. Rossiclei explica: “Nestes casos, devemos orientar a interrupção imediata da ingestão ou do contato com o alimento envolvido. E reintroduzir (teste de provocação) após um intervalo pequeno de 3-4 semanas”.
Segundo ela, os exames laboratoriais tem baixa sensibilidade nos primeiros dois anos de vida e a maioria das vezes os resultados serão normais. “O tratamento deve estar voltado para o alívio dos sintomas desencadeados. Dependendo do alimento, a exclusão não deve ser por tempo prolongado e a reintrodução deve ser gradual em baixas quantidades, mas as crianças não podem ficar isentas por tempo indeterminado”, conclui Rossiclei.