Manaus tem as maiores taxas de HIV do Brasil
Cidade registra taxa quase três vezes superior à média nacional e escancara desafios no combate ao estigma
Manaus tornou-se símbolo de alerta nacional diante do avanço preocupante do HIV. Em 2023, a cidade registrou uma taxa de 63,6 casos por 100 mil habitantes, uma das mais altas do país, quase três vezes superior à média nacional de 21,8. Os dados são do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan).
O Estado do Amazonas também reflete a gravidade da situação: entre janeiro e novembro de 2024, foram contabilizados 2.370 novos diagnósticos, especialmente entre homens jovens, com idades entre 20 e 39 anos. A epidemia permanece ativa e demanda ações mais direcionadas para populações vulneráveis, segundo informações da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-RCP).
Crescimento no Norte e Norteste
Ao lado do Nordeste, o Norte já responde por mais de 32% dos casos acumulados desde 2007, apesar da concentração histórica no Sudeste (41%). Estados como o Amapá apresentaram crescimento expressivo: 61,2% entre 2020 e 2023, o maior salto proporcional do país. Em Belém (PA), a taxa chegou a 53,9 por 100 mil habitantes.
Além da expansão regional, os dados indicam mudanças no perfil epidemiológico. Em 2023, a epidemia se apresentou ainda mais masculina, com 27 homens diagnosticados para cada dez mulheres, apontando para uma masculinização acelerada da transmissão.
Embora o Norte e o Nordeste apresentem crescimento acelerado nos casos de HIV, o restante do país também enfrenta desafios importantes. Em 2023, o Brasil registrou 46.495 novos diagnósticos, um aumento de 4,5% em relação ao ano anterior.
A taxa nacional de detecção foi de 21,8 por 100 mil habitantes, mas a distribuição regional mostra contrastes: Sudeste: 34,7% dos casos (16.134 registros), mantendo a liderança histórica em números absolutos; Sul: 16,4% dos casos (7.619 registros), com destaque para Porto Alegre entre as capitais com maiores taxas. Centro-Oeste: 9,3% dos casos (4.304 registros), com tendência de estabilidade
Mortalidade em queda
Apesar do crescimento nos diagnósticos, a mortalidade por Aids caiu para 3,9 óbitos por 100 mil habitantes, a menor taxa desde 2013. Especialistas atribuem essa queda à ampliação do acesso ao tratamento antirretroviral e à testagem, especialmente com o uso da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), que já conta com mais de 109 mil usuáriosno país.
A epidemia de HIV no Brasil, embora controlada em termos de mortalidade, segue como um desafio de saúde pública. O crescimento dos casos, especialmente entre populações vulneráveis, exige ações intersetoriais, educação sexual, combate ao estigma e fortalecimento da rede de prevenção e diagnóstico.
Impactos
Além dos avanços médicos, João Marcos Dutra Batista destaca os impactos emocionais e sociais. “A autoestima balança. Preconceito dentro da família, dificuldade de seguir a vida, estudar, manter o trabalho. É aí que entra a saúde mental. Viver com HIV é possível l, a pessoa pode ter filhos, trabalhar, ser mãe, pai, avó, empresário. Mas ela precisa de apoio, oportunidade. Nem todos têm essa rede de acolhimento.”
João também falou sobre o tratamentobe a disse que prioriorizar a saúde é o ponto fundamental no processo.
“O medicamento é diário. Tomo todos os dias. E faço exames duas vezes por ano com o infectologista para acompanhar minha imunidade. É um cuidado contínuo, que salva vidas”, disse João Marcos.
É importante que o HIV/AIDS seja prioridade política. Que a gestão municipal, estadual e do próprio Ministério da Saúde tenha uma visão de fim do HIV como problema de saúde pública. Precisamos de investimentos reais em educação em saúde, prevenção e novas tecnologias.”
João ainda fez um alerta e disse que os avanços são lentos e desiguais.
“Infelizmente, estamos dando passos lentos. Um exemplo contrário é o Estado de São Paulo, que reduziu fortemente o número de casos, ampliou a PrEP e eliminou a transmissão vertical do HIV. Isso mostra que é possível com vontade política.”
Sensibilização
Mas além dos dados, há vozes que precisam ser ouvidas, como a de João Marcos Dutra Batista. Hoje com 30 anos, João descobriu o HIV aos 15. Ele vive com o vírus há metade de sua vida e transforma essa vivência em luta e sensibilização pública:
“Quando eu descobri o HIV, comecei o tratamento só cinco anos depois. Naquela época, os protocolos do Ministério da Saúde eram diferentes. Você só iniciava a medicação quando a imunidade começava a cair. Mas desde 2015, isso mudou. Quem descobre o HIV já inicia o tratamento, é acolhido, é bem recebido nos serviços de saúde. Hoje é outra história”, disse.
João, que atua como assistente social, revela como o diagnóstico o levou a caminhos transformadores e de busca por conhecimento.
“O HIV me abriu portas. Conheci métodos de cuidado, movimentos sociais, grupos de apoio. Descobri que viver com HIV é possível, mas também muito desafiador por conta do estigma e do preconceito.”
Ele também denuncia a invisibilidade da pauta e reafirmar o compromisso de falar sobre o assunto. “A gente só lembra do HIV em dezembro, no Dezembro Vermelho, ou no carnaval. E ao longo do ano, não se fala. A falta de campanha, de sensibilização, de debate público, inclusive na mídia privada, só alimenta o estigma.”
João reforça a importância da ciência para quem vive com o vírus. “Hoje a gente fala muito do indetectável, intransmissível. Se a pessoa vive com HIV, faz tratamento e está com carga viral indetectável, ela não transmite o vírus. Isso é comprovado desde 2017. Mas ainda falta força para essa mensagem chegar.”