Pessoas que doam sangue falam sobre o ato de serviço e esperança
A fidelização dos doadores é importante para a manutenção do estoque dentro da Hemoam, única captadora e distribuidora de bolsas de sangue no Amazonas
Dentro do centro de coleta da Fundação Hospitalar de Hematologia e Hemoterapia do Amazonas (Hemoam), a fonoaudióloga Inês Santana dá continuidade a um hábito que dura 20 anos. Nos minutos em que ela se disponibiliza para a retirada dos 495ml de sangue, doa também vida, esperança e fé. A amazonense começou a ser doadora por acreditar que existe uma troca de benéficos entre doador e paciente que recebe a bolsa sanguínea.
“Eu acho que a troca, quando você faz isso pelo outro, é muito fidedigna, satisfatória; penso até que faz mais bem para você, doador, do que para a outra pessoa, quando se faz de coração”, comentou.
Inês perdeu a conta de quantas pessoas ajudou com as doações ao longo das duas décadas. Para ela, o sentimento sempre é o mesmo: de dever cumprido e solidariedade.
Com base nisso, ela busca encorajar outras pessoas a ter o mesmo ato de compaixão. E dessa forma, fazendo esse ato pela primeira vez, Mirele de Souza resolveu doar, em dezembro deste ano. A auditora disse ter nutrido sempre o desejo de ajudar através da doação, mas não encontrava tempo suficiente e se prendia ao medo de que a retirada do sangue fosse dolorosa.
“Eu tinha muito nervosismo, mas tive que deixar pra trás. Não é nem demorado vir aqui, é o básico, e a agulhada não dói nada como eu pensei que doía antes”, comentou rindo.
Até o mês de outubro deste ano, o Hemoam teve um total de 55.389 doações, com 68.772 candidatos a doadores, dos quais 12.216 foram pela primeira vez. Segundo a diretoria, o total está dentro do comum, porém há uma necessidade de atenção maior neste mês de dezembro.
A gerente de captação de doadores da fundação, Nívia França, explicou que a época do fim de ano sempre tem uma demanda muito maior de bolsas de sangue puxada pela grande possibilidade de acidentes que geralmente acontecem no período.
“Temos que ter pelo menos uma reserva para três dias. Atualmente, é consumido uma média de 140 bolsas de sangue por dia. A maior tipagem sanguínea no Amazonas é O+, as demais representam algo perto de 50% do estoque” informou Nívia.
Única no Amazonas
No Amazonas, não há outra captadora e distribuidora de bolsas de sangue além do Hemoam, e embora haja o alerta para que as doações possam ser mantidas com alta frequência, não há, neste momento, nível crítico do estoque na unidade.
Ainda de acordo com as informações da gerente de captação, os prontos-socorros têm uma demanda diária muito maior do que as demais unidades de saúde do Amazonas. Os campeões são o Platão Araújo e o 28 de Agosto.
Dentro da finalidade do uso das bolsas, existe uma variedade muito ampla de aplicação do material: cirurgias cardíacas, urgências, e tratamentos de pacientes oncológicos são os usos mais frequentes, enquanto que as cirurgias eletivas ficam em segundo plano.
Em condições críticas de abastecimento, esse segundo pode até ficar sem a recarga com novas remessas de sangue para atender os casos do primeiro grupo, no entanto Nívia disse que essa medida não é usada há alguns anos.
Fábrica de sangue em laboratório
Uma vez dentro do Hemoam, o sangue captado passa por um rigoroso processo até que esteja pronto para ser usado por algum paciente em uma das unidades de saúde do Amazonas, seja particular ou pública.
O gerente de fracionamento da fundação, Marcelo Reis, brinca que se fabrica sangue em chão de fábrica dentro dos laboratórios. O jargão é usado porque, na verdade, de cada bolsa de 495ml de sangue captada, se “constrói” três materiais sanguíneos: concentrado de hemácias, concentrado de plaquetas e o plasma fresco congelado.
“Esses produtos são separados para atender necessidades específicas dos pacientes, as hemácias podem ser usadas para quem tem problemas de oxigenação: as plaquetas para quem foi alvejado, está sangrando. Paciente que tem problemas de coagulação, usa-se o plasma fresco” explicou Marcelo.
Todo o processo começa na captação do sangue. Os candidatos doam, e a bolsa passa por uma série de exames sorológicos para identificar se o material doado possui alguma infecção. Caso o diagnóstico seja positivo, o sangue é descartado.
Se não houver nenhum patógeno, ele segue para a “linha de fábrica”, que acontece dentro do Hemoam, através da técnica de centrifugação.
Este é o ponto mais importante, segundo Marcelo, embora simples. São 8h de tratamento para que os materiais do sangue possam ser separados e dessa forma concentrados dentro dos três produtos que vão ser distribuídos para as unidades de saúde.
“Para a gente processar todos os três produtos, precisa da centrifugação. Como o sangue, as células têm peso, a gente consegue separar por essa unidade de medida os materiais que estamos querendo”, disse o gerente.
Importância de fidelizar o doador
A média de doações mensal no Hemoam é de 5.500 candidatos. Desse total, 1.500 são de “primeira viagem”. A fidelização desse público é muito importante para a manutenção do estoque dentro da fundação; isso acontece porque os doadores têm um limite anual: homens podem fazer quatro doações e mulheres três, a cada 12 meses.
Dessa forma, a gerência busca alcançar o maior número de pessoas possível para que elas tenham como promover uma maior rotatividade entre as doações.
“É interessante a gente fidelizar também porque esses doadores sabem doar, se preparam com cuidados com a saúde, com alimentação, com hábitos saudáveis. O ideal é que tenhamos essa fidelização para manter a média de doações todos os meses” disse Nívia França.
Como doar?
Para se tornar um doador, basta estar com boa saúde, ter entre 18 a 69 anos e pesar mais de 50 quilos. Caso tenha entre 16 e 17 anos, pode doar somente acompanhado do responsável ou representante legal.
Também é importante estar bem alimentado e munido de documento de identidade oficial com foto (RG, CNH, passaporte ou Carteira de Trabalho). O Hemoam funciona de segunda a sábado, das 7h às 18h, na avenida Constantino Nery, 4397, Chapada, zona Cetro-Sul.