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A Crítica
Economia

Planejamento ambiental fortalece a mineração em regiões de cavernas

Engenheiro Hugo Rocha Silva analisa como o conhecimento do subsolo e a gestão integrada de riscos ajudam a conciliar produção mineral, proteção da água e segurança

Publicado em 21/10/2026 às 07h56 · Atualizado em 21/10/2026 às 11h37
Planejamento ambiental fortalece a mineração em regiões de cavernas

As regiões onde se formam cavernas também abrigam recursos importantes para o abastecimento de água e a produção industrial. Segundo a Unesco, os ambientes cársticos, originados pela dissolução de rochas como o calcário, fornecem água potável a mais de um bilhão de pessoas no mundo. A presença de reservas minerais nesses territórios exige que decisões sobre exploração considerem as relações entre superfície, subsolo e recursos hídricos.

No Brasil, o Cadastro Nacional de Informações Espeleológicas atingiu 30 mil cavernas registradas em 2025. O número reúne cavidades conhecidas e cadastradas, sem representar a totalidade existente no país. Para empreendimentos de mineração, essa diferença reforça a importância da investigação de campo: a ausência de uma caverna nos registros não dispensa o levantamento das condições da área.

A questão ganha relevância na exploração de calcário, matéria-prima utilizada na fabricação de cimento, cal e corretivos agrícolas. Em polos produtores como Arcos, Pains e Doresópolis, no Centro-Oeste de Minas Gerais, o planejamento precisa considerar tanto a disponibilidade da jazida quanto os ambientes naturais associados a ela.

“O calcário que interessa à indústria é a mesma rocha em que muitas cavernas se formam. Por isso, avaliar uma jazida exige mais do que conhecer o volume disponível para exploração. É preciso entender as cavidades, a circulação da água e as relações entre o subsolo e a superfície, porque essas informações podem mudar a localização e o desenho da operação”, explica Hugo Rocha Silva.

Com mais de uma década de atuação e formação em Engenharia Ambiental e Sanitária, Engenharia Mecânica e Agronomia, Hugo trabalha na interface entre licenciamento, processos produtivos e segurança. Sua experiência inclui a coordenação de projetos com estudos espeleológicos e Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental, o EIA/RIMA.

Um exemplo foi o licenciamento da indústria de cal Tecnocal, cuja coordenação envolveu EIA/RIMA e resultou na concessão da licença ambiental. O caso reúne duas dimensões relevantes para o setor: a avaliação das condições ambientais do empreendimento e a organização de informações técnicas para fundamentar a decisão do órgão licenciador.

No mercado, a dificuldade está em incorporar essa investigação antes que as principais escolhas de investimento estejam encerradas. Estudos realizados tardiamente podem revelar restrições que demandam revisão de acessos, estruturas e áreas de exploração. O levantamento inicial ajuda a comparar alternativas e identificar quais decisões ainda precisam de informação.

“O estudo ambiental precisa participar da construção do projeto. Quando ele entra apenas depois que a empresa já escolheu onde e como pretende operar, aumenta a possibilidade de retrabalho. Conhecer as restrições desde o início permite discutir alternativas com base técnica e elaborar um cronograma mais compatível com a realidade do empreendimento”, afirma o engenheiro.

A avaliação de áreas cársticas também exige atenção à água. Nesses ambientes, estruturas subterrâneas podem conectar pontos que parecem separados na superfície. Por isso, o diagnóstico deve investigar possíveis interferências sobre a drenagem e os habitats associados às cavernas, conforme as características de cada local.

Essa necessidade de integrar informações dá aos estudos ambientais uma função que ultrapassa a apresentação de documentos. Quando exigido, o EIA examina os impactos e as alternativas do empreendimento. O RIMA apresenta suas conclusões em linguagem acessível, oferecendo à população uma base para compreender e discutir o projeto.

“O valor do EIA/RIMA está em mostrar quais impactos são previstos, quais alternativas foram consideradas e como a empresa pretende controlar e acompanhar esses efeitos. A informação precisa fazer sentido para quem não trabalha com engenharia. A comunidade deve conseguir compreender o que está em discussão e apresentar suas dúvidas”, avalia Hugo.

A comunicação não elimina divergências, mas permite que elas sejam tratadas com acesso às informações. Questões sobre poeira, água, circulação de veículos e mudanças no uso do território precisam ser discutidas a partir das condições previstas para a operação e das medidas propostas.

Há também uma conexão entre o controle ambiental e a saúde dos trabalhadores. Em atividades como britagem e transporte de materiais, a geração de poeira demanda avaliação das fontes de emissão, das características das partículas e da exposição de quem trabalha ou vive no entorno.

“Uma fonte de poeira pode exigir medidas de proteção ocupacional e de controle ambiental ao mesmo tempo. Se as equipes trabalharem de forma isolada, a empresa pode deixar lacunas no diagnóstico. Integrar essas áreas ajuda a definir responsabilidades, escolher medidas de controle e verificar se elas estão funcionando”, explica.

A obtenção da licença, portanto, dá continuidade a uma rotina de gestão. Condicionantes, programas de monitoramento e procedimentos operacionais precisam acompanhar a atividade, de acordo com as exigências aplicáveis ao empreendimento.

“A licença não é o ponto final. O que foi previsto nos estudos precisa ser traduzido em procedimentos, responsabilidades e acompanhamento. Monitorar é verificar se as medidas estão produzindo o efeito esperado e identificar quando a operação precisa de ajustes”, afirma Hugo.

A importância global dos ambientes cársticos mostra que o desafio não se limita a uma região produtora. Para a mineração, conhecer o território e acompanhar os efeitos da atividade são condições para tomar decisões mais consistentes. É esse trabalho que permite avaliar onde a produção pode avançar, quais limites precisam ser respeitados e como os riscos serão administrados durante a operação.