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Manaus
MASSACRE

Autores do massacre do Compaj pouparam detentos que portavam Bíblia nas mãos

Também escaparam de morrer alguns que se esconderam no telhado ou nos bueiros e um que foi reconhecido como cliente de “boca de fumo” 24/11/2017 às 15:34 - Atualizado em 24/11/2017 às 16:58
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Foto: Reprodução/internet
Vinicius Leal e Joana Queiroz Manaus (AM)

Os autores do massacre do Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), que vitimou 56 detentos em 1º de janeiro deste ano, em Manaus, pouparam da morte os presos considerados “irmãos da benção”, ou seja, aqueles que portavam uma Bíblia nas mãos durante a chacina ou que eram conhecidos dentro do presídio por serem religiosos.

A informação consta na denúncia oferecida nesta sexta-feira (24) pelo Ministério Público do Amazonas (MP-AM) à Justiça, onde 213 pessoas são denunciadas pelos crimes de homicídio triplamente qualificado por motivo torpe, meio cruel e impossibilidade de defesa; homicídio tentado qualificado por motivo torpe; tortura; vilipêndio de cadáver e organização criminosa.

“Alguns detentos foram poupados. E a maioria foi poupada porque eram ‘irmãos da benção’, religiosos. O cara era pego com a Bíblia na mão e falavam ‘não, esse é irmão da benção’”, explicou o promotor de justiça Edinaldo Medeiros, autor da denúncia criminal. “Teve um deles que foi salvo porque foi confundido como ‘irmão da benção’. Ele não era, mas foi confundido e foi salvo”.

No bueiro e no telhado

De acordo com o promotor, também escaparam de morrer alguns detentos que se esconderam nos bueiros do Compaj. “As tentativas (de homicídio) são seis. Elas dizem respeito a membros do próprio do PCC (Primeiro Comando da Capital) que foram salvos. Um exemplo são três deles que entraram no bueiro e se arrastaram. Depois jogaram bomba neles, mas não conseguiram matá-los”, explicou Medeiros.

Já os alvos do massacre que tentaram se proteger indo para os telhados não tiveram a mesma sorte. “Subir no telhado não era uma garantia de se salvar, pelo contrário. A maioria que subiu no telhado foi morta. Eles (autores) subiam atrás e jogavam lá de cima, pegavam pela perna e jovagam, nove metros abaixo”, ressaltou Edinaldo Medeiros. “Outros sobreviveram porque não foram encontrados, ficaram debaixo das telhas”.

Porém, um dos “arremessados” do telhado do Compaj acabou sobrevivendo. “Tem um que sobreviveu. Jogaram ele lá de cima, ele caiu e desmaiou. Depois acordou no meio de um monte de corpos, mas não morreu”, completou Edinaldo Medeiros.

Antigo cliente de ‘boca’

Conforme o promotor Edinaldo Medeiros, também houve um detento que sobreviveu por ter sido reconhecido como cliente de uma “boca de fumo”. “O pessoal estava sendo colocado na quadra do pavilhão 3, o local das execuções, e uma das pessoas capturadas ia ser morta. Ele (Garrote, um dos líderes das execuções) reconheceu o detento como um dos clientes da ‘boca’ dele. E disse esse ‘não mata, não’. Mas não é que ele seja bom, havia um interesse”.

2.162 anos de pena

Segundo a denúncia criminal do Ministério Público, um documento com 110 páginas, a somatória das penas aplicadas a cada um dos 213 denunciados pelo massacre equivale a 2.162 anos de detenção. Entre estes denunciados estão líderes da facção criminosa Família do Norte (FDN) como “Carnaúba”, “Zé Roberto” e “João Branco”.

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