Chuvas no sul são alerta para seca extrema no Amazonas
Especialistas alertam para relação entre fenômenos e cobram medidas. Governador Wilson Lima reuniu secretariado para alinhar ações
A enchente que já matou mais de 90 pessoas e deixou outras 111 desaparecidas no Rio Grande do Sul (RS) está sendo encarada por especialistas como um alerta para um extremo climático em outra região: uma seca severa nos rios da Amazônia, prevista para o segundo semestre deste ano.
“Isso é um alerta para todas as pessoas que são encarregadas das políticas públicas, inclusive, para o perigo que constitui o negacionismo, que é algo que vai de encontro à ciência. Já se falava sobre isso há muito tempo. Na Rio 92, há mais de 30 anos, esse alerta já era feito às autoridades e agora é a realidade”, afirma o pesquisador de Tecnologia em Alimentos do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Rogério de Jesus.
Desenvolvedor de pesquisas sobre o pescado de água-doce na região, ele lembra que a estiagem do ano passado foi especialmente prejudicial para a produção e transporte de alimentos no Amazonas. Municípios ficaram isolados e houve falta de comida e até água potável, inclusive, na zona rural de Manaus.
“A perspectiva que temos aqui no Inpa é que, neste ano, haverá uma nova grande seca. A cheia não foi intensa, então o medo é esse. Se a estiagem for como a do ano passado, vai ser outra calamidade, porque prejudica tanto a comercialização como o abastecimento de todas as áreas de alimentos”, avalia.
Já o professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Marcos Castro, destaca que a relação entre as chuvas no Sul e a seca na Amazônia parte do próprio fenômeno climático pelo qual o Brasil está exposto neste período.

Wilson Lima (UB), reuniu a Defesa Civil e 30 secretários da gestão estadual para alinhar ações de enfrentamento aos efeitos da seca deste ano. (Foto: Divulgação)
“O fenômeno El Niño, que nós estamos vivenciando e já está encerrando, gera uma quantidade de massa de ar seco e quente pelo Centro-Oeste e no Norte do país, e isso acaba bloqueando a passagem das frentes frias que vêm do Sul. Elas ficam retidas lá, gerando maior quantidade de chuvas, enquanto no Norte você tem a redução das chuvas e a seca”, explica.
Na visão dele, as autoridades brasileiras ainda não despertaram para a dimensão do problema. Para o geógrafo, é necessário cuidar do solo, ter sistemas de drenagem para a cheia e mapear as áreas de risco.
“As autoridades daqui continuam dormindo em berço esplêndido. A gente continua a deixar as coisas acontecerem. Nós temos muitas cidades na calha dos nossos rios que vão continuar, na cheia extrema, as pessoas levantando suas marombas, e na seca, como ocorreu no ano passado, com as pessoas num semi-isolamento, sofrendo com o desabastecimento e falta de água”, afirma.
Movimentação
Nesta segunda-feira (6), após a crise das chuvas explodir no Rio Grande do Sul, o governador do Amazonas, Wilson Lima (UB), reuniu a Defesa Civil e 30 secretários da gestão estadual para alinhar ações de enfrentamento aos efeitos da seca deste ano.
“Estamos fazendo essa reunião de alinhamento com todas as secretarias envolvidas diretamente nessas ações de combate à estiagem e também de ajuda aos nossos irmãos que poderão ser afetados na atividade econômica ou na questão ambiental com desmatamento e queimadas, para que todas as secretarias se antecipem nas suas ações”, afirmou o governador, em comunicado divulgado à imprensa.
Conforme a mesma publicação, o governo estadual tem se reunido desde março com o governo federal, a exemplo dos ministérios de Portos e Aeroportos, Integração e Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente e Mudança do Clima, solicitando apoio na antecipação de ações que minimizem os impactos da futura estiagem.
Diagnóstico
A preocupação com o cenário deste ano nasceu ainda na seca do ano passado, quando já se falava que a estiagem de 2024 pode ser similar ou pior que a de 2023. Em janeiro, a Defesa Civil do Amazonas iniciou uma série de reuniões com prefeitos e diretores de órgãos públicos, incluindo o Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM), para que todos se preparem para uma seca severa.
Um prognóstico entregue pela Defesa Civil a esses órgãos e políticos destaca o menor volume de chuvas na região e aponta para o fato de a maior parte dos rios amazônicos estarem em níveis abaixo do normal para o período – um sinal de que devem encher pouco, logo, acentuar a seca.
Já o Serviço Geológico do Brasil (SGB), em relatório divulgado em abril, destaca a redução dos impactos do El Niño sobre a região, com a possível chegada do fenômeno La Niña no segundo semestre, que causa o efeito contrário, ou seja, aumenta a incidência de chuvas.
“O El Niño está em declínio e cada vez mais fraco. A previsão para o próximo trimestre, de abril a junho, é de chuva dentro da normalidade em boa parte da Amazônia Legal”, afirmou o meteorologista do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), Gustavo Ribeiro, em comunicado do SGB divulgado à imprensa.