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Desigualdade brasileira aprofunda em cinco anos

População mais rica acumulou mais riqueza que o restante da população. Pobreza aumentou no período, marcado pela pandemia

Publicado em 18/01/2024 às 10h42
Desigualdade brasileira aprofunda em cinco anos
Foto: Agência Brasil

Um levantamento feito pelo Observatório de Política Fiscal do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV) mostra a crescente concentração de riqueza no Brasil, com um seleto grupo de adultos com renda superior aos 95% da população. 

De acordo com o levantamento, os mais ricos acumularam ainda mais riqueza nos últimos cinco anos. O período foi marcado pela pandemia de covid-19, que acentuou a crise econômica pela qual o Brasil já passava, com especial reflexo na inflação, desemprego e no aumento da pobreza. 

A dona de casa Silene Silva, 59, faz parte do grupo de 95% dos brasileiros que não acumulou riqueza como a minoria mais rica do país. A situação dela é ainda mais delicada, pois sobrevive com a ajuda de benefícios e programas sociais. 

“Fiquei desempregada e não consegui mais achar ocupação. Hoje em dia, sou cadastrada no Bolsa Família e tento, da melhor forma possível, sustentar meus três filhos. Meu esposo faz bicos para complementar a renda, mas, no fim, sempre falta algo”, disse.
Silva afirma que não compreende o porquê de algumas pessoas serem tão mais ricas enquanto outras passam fome. “Mesmo nós, pobres, ajudamos quem precisa, talvez mais do que quem tenha muito dinheiro. Posso não ter muito para mim e minha família, mas não acho justo e nem necessário que alguém seja tão rico, ao ponto de acumular tanta riqueza para si. No fim, todos nós vamos parar no mesmo lugar, mesmo vivendo de formas tão diferentes”, finalizou.

 

Crescimento 

 

O estudo sobre riquezas foi elaborado pelo economista Sérgio Wulff Gobetti, integrante do Ibre/FGV e revela que a maioria da população adulta teve um crescimento nominal médio de 33% na renda no período de cinco anos, a variação registrada pelos mais ricos foi de 51%, 67% e 87% nos estratos mais seletos. Entre os 15 mil milionários que compõem o 0,01% mais rico, o crescimento foi ainda maior: 96%.

O 1% mais rico da sociedade brasileira cresceu de 20,4% para 23,7% entre 2017 e 2022, mais de quatro quintos dessa concentração adicional de renda foi absorvida pelo milésimo mais rico, constituído por 153 mil adultos com renda média mensal de R$ 441 mil em 2022.

 

Avaliação

 

Para o doutor em sociologia Gilson Pinto, a maior parte da populaçao é pobre e enfrenta dificuldades de inserção no mercado de trabalho e, por isso, utiliza os programas de bolsas e auxílios assistenciais como renda principal.

“O Brasil nao consegue, historicamente, equacionar o problema da geração de renda e da inclusão social. O ciclo vicioso da pobreza impera na maior parte do país. Enquanto isso, há segmentos que vivem no primeiro mundo, isolados dessa pobreza crônica e em alguns casos vivendo dela. É um problema economico e político que, infelizmente, nenhum partido ou político consrguiu resolver ou minimizar”, avalia.

O especialista aponta que a pobreza é ainda mais acentuada no Norte e Nordeste, regiões que não possuem os mesmos níveis de concentração de polos econômicos como o Sudeste, por exemplo, reduzindo as oportunidades. 

“Os maiores parques industriais e comerciais estao no Sul e Sudeste. O Nordeste é muito pobre, assim como o Norte. Os estados mais pobres estão no Norte, Nordeste e sofrem mais com tal desigualdade, tendo maiores dificuldades para conseguirem se erguer e construir novos empregos e dinamizar a economia”, explica.

 

Amazonas está mais pobre

 

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por meio de levantamento da Síntese de Indicadores Sociais deste ano, corroboram com a opinião do sociólogo e confirmam o avanço da pobreza no Amazonas na última década.

O índice histórico medido entre 2012 e 2022 aponta que a população do estado amazonense que vive na pobreza saltou de 45,3% para 55,1% em dez anos. O percentual medido leva em consideração a Paridade do Poder de Compra (PPC) com parâmetros do Banco Mundial, de US$ 6,85/dia para a linha de pobreza, da população sobrevivendo com até R$ 637 por mês, ou R$ 21,23 por dia.

Para a economista Denise Kassama, o levantamento acentua que ricos só aumentaram suas posses a partir da pandemia de Covid-19. Boa parte dessa fatia (os ‘ricos’) era composta por 153 mil adultos com renda média mensal de R$ 441 mil, em 2022. 

“Durante a pandemia, houve uma retração na atividade econômica em todo o mundo. Não se podia sair de casa, não podia trabalhar e nem toda atividade pode se adaptar para trabalhar remotamente. Então não só no Brasil, várias empresas que fecharam, faliram e o cara que tinha dinheiro, deixou o dinheiro rendendo juros e foi ganhando mais mais”, explica.

Denise também ressaltou um estudo da Faculdade de Oxford, que relevou que a pandemia produziu um bilionário a cada 26 horas. “Então, o dia rendendo juros foi dando mais dinheiro. Por outro lado, quem não tinha, quem era empregado, ficou desempregado na pandemia e foi gastando o que tinha e o que não tinha, se endividando cada vez mais”.

 

 

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