Mulheres são apenas 27% da força de trabalho do PIM
Índice teve pouca variação nos últimos cinco anos, mantendo-se por volta dos 27% até agosto de 2025
Dados divulgados pela Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) mostra que, até gosto deste ano, as mulheres eram apenas 27,44% da força de trabalho do Polo Industrial de Manaus (PIM), o equivalente a 35,6 mil trabalhadoras de um total de 129,9 mil efetivos, temporários e terceirizados empregados pelas empresas instaladas no Distrito Industrial.
Segundo os indicadores industriais, esse percentual variou pouco entre agosto de 2020 e agosto de 2025. Há cinco anos, inclusive, era ligeiramente menor: 27,3% dos trabalhadores da Zona Franca de Manaus (ZFM) era composto por mulheres. O índice chegou a cair para 26,97% em agosto de 2021, subindo para 27,25% em 2022.
Em 2023, o número caiu novamente para 26,87%. No ano seguinte, foi registrado o menor número do período: apenas 26,77% dos trabalhadores do PIM eram mulheres. Com os dados de agosto de 2025 divulgados na última semana pela Suframa, a reportagem apurou que o percentual subiu para 27,44%.
Os números são bem menores do que os registrados no polo industrial na década passada. Em 2013, por exemplo, 31% da mão de obra do PIM era de mulheres. No setor eletroeletrônico, esse índice chegava a 64%, embora já tenha sido maior apenas dois anos antes. Segundo o Jornal do Commercio, o segmento era composto por 70% de trabalhadoras em 2011, desde o chão de fábrica a postos executivos.
Na época, o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) no Amazonas, Valdemir Santana, afirmou que as mulheres “investiram pesado na profissionalização e conquistaram a sua fatia no mercado de trabalho”. Para A CRÍTICA, a economista Denise Kassama ressaltou que o cenário atual contrasta com o que se via há “duas, três décadas”, em que a mão de obra feminina era majoritária na ZFM.
“O que aconteceu nesse período? Alguns segmentos, como o polo relojoeiro, que contratava majoritariamente mão de obra feminina, deu uma reduzida, não aguentou a concorrência com o Paraguai, China, etc. É um polo que reduziu significativamente a sua produção. O polo eletroeletrônico, que também usava muita mão de obra feminina, principalmente na inserção de componentes, também [reduziu a participação delas] porque acabou se modernizando”, disse.
Kassama destacou ainda como fator o crescimento exponencial em produção de faturamento de segmentos como o do polo de Duas Rodas, especialmente na produção de motocicletas e na metalurgia, que exigem mais mão de obra mais pesada.
A economista Karla Martins apontou que alguns fatores podem indicar esses indicadores, como a “baixa participação feminina nas áreas de STEM, que são áreas voltadas a ciências, matemáticas e tecnológicas, na região Norte”.
“Um outro ponto, eu colocaria um ponto cultural. Há um estigma de que mulheres têm maior presença em atividades relacionadas ao cuidado, como enfermagem, cuidar de pessoas em casa. Nas entrevistas, é possível que homens se sobressaiam porque não teriam tanto que sair para a escola dos filhos, dependendo do caso. Mulheres sofrem com isso também na hora da indústria”, disse.
Ela ressalta a necessidade de serem criadas políticas afirmativas no ambiente industrial, citando como um caso positivo a Yamaha, que possui em sua área de solda uma grande presença feminina.
Embora tenha-se registrado redução nos últimos anos, a economista Michele Aracaty, presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon), destaca que a média de participação das mulheres nas indústrias do PIM reflete “a importância da representação feminina em setores estratégicos para o desenvolvimento regional e o crescimento econômico do Amazonas”.
“Apesar da estabilidade percentual, necessitamos de estratégias para elevar o número de mulheres em atividades no Polo Industrial de Manaus, em especial a partir de segmentos vinculados à bioeconomia, biotecnologia, economia verde e economia circular. Entre os desafios, podemos destacar a equidade salarial e melhores oportunidades de acesso a cargos de liderança”, avaliou.
Reflexão
O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), Antônio Silva, afirmou que embora o percentual de 27% de mulheres no PIM esteja alinhado com a média histórica da indústria nacional, também sinaliza “a necessidade de um olhar atento para o pleno aproveitamento de talentos”.
“Historicamente, setores-chave como o eletroeletrônico e o de duas rodas, predominantes em Manaus, estabeleceram um padrão de mão de obra que se inclinou mais para o perfil masculino. Essa herança se reflete na formação e na atração de talentos, perpetuando uma tendência”, disse.
Além disso, a busca por profissionais qualificados em ciência, tecnologia, engenharia e matemática, apontados por ele como vitais para a modernização da indústria, ainda encontra um universo onde as mulheres estão em menor número, além dos desafios de conciliação entre a vida profissional e pessoal que muitas delas enfrentam.
O dirigente ressalta que, diante desse cenário, as empresas participantes do polo industrial tentam se engajar na expansão da presença das mulheres, tanto por meio de “iniciativas focadas na qualificação profissional feminina” quanto pelo esforço de se criar ambientes de trabalho “mais flexíveis e inclusivos, que contemplem as necessidades das mulheres”.
“A ampliação da participação das mulheres no Polo Industrial de Manaus não é apenas uma medida de equidade, é uma decisão estratégica que fortalece o polo como um todo. A inclusão de diversas perspectivas e experiências, inerente à maior presença feminina, é um motor para a inovação e a criatividade, fatores essenciais para a competitividade em um mercado globalizado”, concluiu.
O presidente executivo do Centro das Indústrias do Estado do Amazonas (Cieam), Lúcio Flávio Morais, destacou que a instituição reconhece que a participação feminina no PIM ainda é baixa, refletindo desafios históricos e a necessidade de mais políticas voltadas à inclusão.
“As empresas do PIM têm investido em programas de capacitação, diversidade e inclusão para ampliar a presença das mulheres na indústria. Valorizamos a participação feminina, como a significativa participação de mulheres no Conselho Superior da entidade, fundamental para a inovação, produtividade e equilíbrio nas relações de trabalho”, disse.
Estrutural
A pesquisadora Luiza de Marilac Moreira, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Amazonas (PPGAS/Ufam), avaliou que o sistema de trabalho PIM é marcado por um “machismo estrutural, no qual historicamente absorve ou não, a mão de obra feminina de acordo com as necessidades, mas não as valoriza como deveria”.
“Nas décadas passadas, as mulheres eram a maioria. Na década de 1980, chegou a ser 55% da mão de obra. Eu pesquisei algumas delas que foram linha de frente nas greves e organização sindical. Elas disseram que era a maioria porque as linhas de montagem exigiam ‘mãos delicadas, atenção e cuidados femininos’, mas as mulheres vieram caindo justamente porque as indústrias se automatizaram, e esses sistemas são considerados ‘racionais, modelos para homens’, excluindo a força feminina”, explicou.
Luiza destacou que, ao longo de todos os períodos, pouquíssimas mulheres alcançam cargos superiores, além de ainda sofrer com desigualdade salarial. Em todo caso, elas “vão aos poucos entrando na área da automação industrial” e precisam estudar e seguir carreira para “alcançar mais esse espaço”.
Absolutos
Mesmo que ainda não sejam nem 30% do total de empregados no PIM, o número de mulheres cresceu 38,53% em cinco anos, acompanhando a recuperação de empregos da Zona Franca de Manaus, que viu sua força de trabalho subir 39,74% entre agosto de 2020 e de 2025.
Em números absolutos, as mulheres passaram de 25,7 mil para 35,6 mil em cinco anos, ao passo que o total de trabalhadores efetivos, temporários e terceirizados do PIM saiu de 94,2 mil para 131,7 mil, com o maior crescimento ocorrendo entre 2023 e 2025.
Bosco Saraiva, superintendente da Suframa
Considero o índice de 27% de mulheres na mão de obra do PIM como insatisfatório e um desafio estrutural, já que a equidade de gênero é fundamental para a inovação e competitividade do modelo. A baixa representatividade pode estar relacionada a um viés setorial histórico. Para reverter o quadro, a SUFRAMA incentiva ações de protagonismo feminino em áreas técnicas e de liderança, propõe políticas de diversidade das empresas e promove a criação de ambientes de trabalho inclusivos e seguros.