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A Crítica
Saúde

Obesidade infantil: como driblar?

A cada sete crianças brasileiras, de zero a cinco anos, uma é obesa, de acordo com dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional - SISVAN, do Ministério da Saúde.

Publicado em 13/03/2024 às 10h47
Obesidade infantil: como driblar?
Foto: Divulgação

Em 2023, o SISVAN mostrou que 14,2% das crianças com menos de cinco anos de idade têm excesso de peso no Brasil, ou seja, uma a cada sete crianças. Quando comparamos esses números com a média global observada e publicada em 2022, que é de 5,6%, percebemos que no Brasil é mais que o dobro (quase o triplo, na verdade). Mas o que causa esse número alarmante? Segundo Cristiano Boccolini, pesquisador da Fiocruz, o vilão que contribui para este quadro é conhecido: produtos alimentícios ultraprocessados. Ah, os ultraprocessados… já falamos sobre eles aqui na Quarta Fit e vamos falar novamente.

Sabe aquele lance do “paladar infantil”? Então, não é por acaso que chamamos assim. Por que os produtos alimentícios ultraprocessados parecem ser tão interessantes ao paladar das crianças? Simples. Porque eles são hiperpalatáveis, desenvolvidos para esse propósito, ou seja, a junção do açúcar, gordura e sódio presente nos ultraprocessados acaba transformando o sabor do alimento em algo completamente viciante ao paladar, como afirma Cristiano Boccolini. “Esses produtos passam por processos de industrialização e recebem químicos que mudam a palatabilidade, ou seja, o sabor dos alimentos. Eles passam a ter uma hiperpalatabilidade, passam a cativar, viciar o paladar da população para consumir esses produtos”, explicou o pesquisador. 

Para as crianças, a obesidade traz uma série de problemas cognitivos a curto prazo, como baixo desempenho na escola, falta de atenção e má qualidade do sono. No decorrer da vida, elas tendem a ser adultos obesos e a desenvolver doenças articulares, diabetes, doenças cardíacas, insuficiência renal e hepática, câncer e problemas respiratórios, como asma. Ainda segundo o pesquisador, o papel dos pais na luta contra a obesidade infantil é fundamental. Abolir a compra dos ultraprocessados, que parecem mais baratos e fáceis de serem preparados, é um caminho. “É preciso resgatar os valores da alimentação saudável em casa, de preparar a comida, usar o tempo com a criança para cozinhar algo. Sabemos que a jornada de trabalho de muitos pais é cruel e que eles não têm tempo com os filhos. Mas, sempre que possível, é preciso valorizar este momento de fazer comida de verdade em casa”, sugeriu Boccolini.

Na CID (Classificação Internacional de Doenças), tabela que obedece a um padrão internacional para relacionar problemas ligados à saúde, a obesidade recebe o código E66. Mas, nos bastidores da discussão acadêmica, há quem prefira usar termos como “condição”, ou “estado de saúde”, para falar de pessoas com acúmulo de gordura excessivo no corpo. Eu, particularmente, acho que essa romantização é péssima. A verdade tem que ser dita, nua e crua. Uma pessoa obesa é uma pessoa doente. Ponto. Não existe excesso de peso saudável. Ser uma pessoa pesada sobrecarrega o corpo humano em diversos pontos, pois seus órgãos têm mais dificuldade para trabalhar, seu coração precisa bombear mais sangue, seu pulmão precisa de mais ar, suas articulações vivem sob pressão e seu joelho então, vai para Valhalla (Odin o tenha). 

Uma metanálise com mais de 10 mil pessoas no mundo mostra que o consumo de ultraprocessados está diretamente associado à obesidade. Quanto mais ultraprocessados a gente consome, maior a chance de ter obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão, infarto, demência, ansiedade, transtornos mentais. São 33 doenças elencadas como estando diretamente associadas ao consumo de ultraprocessados. Embora eu já tenha dedicado uma Quarta Fit inteira sobre esse assunto, é importante frisar sempre que possível. Evite o consumo de ultraprocessados, como salgadinhos, chocolates, refrigerantes, energéticos e a maioria dos produtos que vêm dentro de uma lata ou embalagem industrializada. 

“É preciso resgatar os valores da alimentação saudável em casa, de preparar a comida, usar o tempo com a criança para cozinhar algo. Sabemos que a jornada de trabalho de muitos pais é cruel com grande parte da população e que eles não têm tempo com os filhos. Mas, sempre que possível, é preciso valorizar este momento de fazer comida de verdade em casa, não usar temperos industrializados, mas os caseiros”, finalizou o pesquisador. 

 Ou seja, papai e mamãe, cuidem bem dos seus filhinhos. Ensinem eles a comer frutas e vegetais desde cedo, para que não tenham “paladar infantil” no futuro. Evitem dar iogurtes, refrigerantes e salgadinhos, pois eles podem acabar gostando muito do sabor e aí vai ficar mais difícil abandonar esse consumo. Os ultraprocessados são quase como drogas, geram vício e são quase impossíveis de largar. Por isso, consulte um nutricionista infantil para ajudar você neste processo. É um investimento que vai valer a pena para garantir um futuro mais saudável para sua família.