Muito além da rica biodiversidade e das paisagens exuberantes, a Mata Atlântica também abriga um verdadeiro patrimônio natural ligado à saúde. Diversas plantas medicinais encontradas nesse bioma são utilizadas há séculos pela população brasileira no tratamento de doenças, preparo de chás e produção de fitoterápicos distribuídos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
O conhecimento sobre essas espécies atravessou gerações por meio das tradições populares, especialmente entre povos indígenas, comunidades rurais, benzedeiros e curandeiros. Mesmo com os avanços da medicina moderna, o uso de plantas medicinais continua presente na rotina de milhões de brasileiros.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 85% da população de países em desenvolvimento utiliza plantas medicinais como parte dos cuidados básicos de saúde. No Brasil, boa parte dessas espécies está diretamente ligada à Mata Atlântica, um dos biomas mais ameaçados do planeta.
Espécies conhecidas escondem propriedades terapêuticas
Entre as plantas presentes na Mata Atlântica estão espécies bastante conhecidas pelos brasileiros, mas que muitas vezes passam despercebidas como recursos medicinais. A pitangueira, por exemplo, vai além do fruto consumido in natura. Suas folhas são utilizadas tradicionalmente em infusões populares.

Já a pata-de-vaca, também chamada de unha-de-vaca ou casco-de-vaca, é amplamente conhecida na medicina popular e frequentemente associada a preparações naturais utilizadas há décadas. Outra planta bastante popular é a goiabeira. Além do valor nutricional da fruta, suas folhas são usadas em receitas caseiras tradicionais transmitidas entre gerações.
A espinheira-santa talvez seja uma das espécies medicinais mais famosas do país. Muito utilizada em chás voltados ao alívio de desconfortos digestivos, ela se tornou símbolo do potencial terapêutico das plantas brasileiras.
Guaco e maracujá-doce estão entre os destaques
O guaco é outra planta amplamente difundida no Brasil. Conhecido principalmente pelo uso em xaropes fitoterápicos, ele costuma ser associado ao tratamento de problemas respiratórios e já faz parte de medicamentos distribuídos em algumas redes públicas de saúde.
O maracujá-doce também chama atenção pelas propriedades tradicionalmente ligadas ao relaxamento e ao alívio da ansiedade. Espécies do gênero Passiflora são frequentemente estudadas pela ciência devido ao potencial calmante.
Já a pimenta-rosa, também conhecida como aroeira, possui uso medicinal tradicional e vem sendo alvo de pesquisas relacionadas às propriedades anti-inflamatórias presentes em seus compostos naturais.
Programa nacional ampliou presença dos fitoterápicos no SUS
Em 2008, o Governo Federal lançou o Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, iniciativa criada para ampliar o acesso da população a medicamentos produzidos a partir de matérias-primas vegetais.
Os fitoterápicos diferem das plantas medicinais utilizadas em receitas caseiras porque passam por processos de pesquisa, controle de qualidade e aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Esses medicamentos possuem dosagens padronizadas e riscos conhecidos.
Apesar disso, especialistas alertam que o uso indiscriminado de plantas medicinais também pode oferecer perigos. Muitas espécies contêm compostos que podem provocar alergias, intoxicações ou efeitos colaterais quando consumidos de maneira inadequada.
Falta de pesquisas ainda limita conhecimento científico
Embora o uso popular seja antigo, a ciência ainda conhece pouco sobre o potencial medicinal das plantas brasileiras. Estima-se que aproximadamente 12 mil compostos químicos vegetais já tenham sido identificados, número que representa menos de 10% do total estimado pelos pesquisadores.
Especialistas defendem maior investimento em pesquisas científicas, preservação ambiental e valorização do conhecimento tradicional. Isso porque muitas espécies medicinais dependem diretamente da conservação da Mata Atlântica para sobreviver.
Atualmente, restam apenas fragmentos da vegetação original do bioma, o que coloca em risco não apenas a biodiversidade, mas também possíveis descobertas científicas relacionadas à saúde humana.







