Turismo comunitário revela lado pouco conhecido da Amazônia no Rio Negro
Expedições recheadas de aventura apresentam aos visitantes o modo de vida dos povos originários, além de cenários paradisíacos
Quem conhece a região amazônica a partir de Manaus, do seu entorno ou das tradicionais rotas do rios Solimões e Amazonas certamente vai ficar impressionado com o cenário encontrado no Médio e no Alto Rio Negro.
Entre as cidades de Santa Isabel e São Gabriel da Cachoeira, no norte do Estado do Amazonas, revela-se uma Amazônia pouco habitada pelo homem e quase nada agredida pela urbanização.
Neste trecho, composto por um verdadeiro mosaico de reservas ambientais e indígenas, a natureza é soberana. Ela é quem dita o ritmo de vida dos povos e que, a cada nova faceta, tira o fôlego dos que estão de passagem.
É um mundo em outros tons, onde prevalecem o verde da mata, o caramelo escuro do rio, o branco das praias e o céu que, antes de converter-se do azul-claro, oferece diariamente um verdadeiro espetáculo no entardecer, com uma esplêndida variação de cores que dá boas-vindas às noites tropicais.

Cenários paradisíacos com mistura de cores da natureza impressionam os turistas (Foto: Yan Boechat) (Foto: Yan Boechat)
O sobe e desce das águas faz surgir inúmeras praias e pedras ao longo do rio, muito mais do que pode ser encontrado nas proximidades da foz do Negro, em Manaus.
O trecho também possui muitos morros, formações geológicas que não são vistas nas partes mais ao sul da região. As pedras e os morros ficam mais frequentes, e maiores, na paisagem à medida que se avança sobre o rio rumo a São Gabriel.
À certo ponto, as montanhas começam a formar serras, que reforçam o aspecto singular do lugar e que são completamente desconhecidas para muitos amazônidas, sobretudo os urbanos.

Serras dominam a paisagem (Foto: Arnaldo Franken)
Algumas dessas serras estão enraizadas como lendas na tradição oral dos povos que habitam essa parte da Amazônia. Elas serviram como mote para a implantação de um projeto turístico de base comunitária pioneiro em comunidades indígenas ribeirinhas, que oferece ao visitante — além de toda oportunidade de contemplação da paisagem e de aventuras, como trilhas e subida de morros — uma verdadeira imersão no modo de viver dessa gente, que vê na atividade uma forma de gerar renda e de fortalecer a conservação, ante os interesses predatórios.
Nesse lugar paradisíaco, que é lar de várias etnias indígenas, povos acolhedores e que historicamente foram explorados e ao mesmo tempo ignorados pela dita civilização, o projeto Serras Guerreiras de Tapuruquara está sendo desenvolvido e se consolidando como modelo para outras atividades de turismo de base comunitária em Terras Indígenas.

Modo de vida na região é guiado pelo tempo da natureza (Foto: Yan Boechat)
Nesta série de reportagens, A Crítica mostra algumas das experiências vivenciadas na expedição “teste” do projeto, que, no fim do ano passado, levou os primeiros turistas pelos dois roteiros elaborados para as visitas. Novas expedições do projeto, desta vez “pra valer”, estão previstas para serem realizadas entre agosto e dezembro.
A iniciativa do projeto partiu dos ribeirinhos e foi viabilizada e executada pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), pela Associação das Comunidades Indígenas e Ribeirinhas (Acir) e pelas organizações não-governamentais Instituto Socioambiental (ISA) e Garupa, com o apoio da Fundação Nacional do Índio (Funai) e das prefeituras locais.
Origens
Os antigos contam que essas serras alinhadas eram um grupo de guerreiros que desceu da Colômbia para travar uma guerra contra uma serra do outro lado do rio.
Após a batalha final, amanheceu, os guerreiros viraram pedra e deram origem à formação rochosa. É nesse território sagrado de vários povos originários que a viagem acontece.
Roteiros de aventura e cultura
Foram quatro viagens realizadas na expedição piloto, em grupos de 10 turistas, cada, em dois roteiros distintos de nove dias: um descendo o rio de São Gabriel até Santa Isabel (Iwitera, serras em nheengatu) e o outro fazendo a rota contrária, subindo o rio (Maniaka, mandioca em nheengatu).
Cinco das 13 comunidades da Acir foram visitadas, três por roteiro. O roteiro Iwtera tem perfil mais de aventura, com mais trilhas, por exemplo, e o Maniaka é mais cultural, mas ambos oferecem opções diversas dos dois perfis.

Em vermelho São Gabriel e em laranja, Santa Isabel (ISA/reprodução)
Uma equipe de A Crítica participou de uma das viagens do roteiro Maniaka. A expedição começa de fato a partir de Manaus, onde os turistas vindos de várias partes do Brasil se encontram com os representantes do ISA e da Garupa.
Dois argentinos participaram da viagem para conhecer o “Serras Guerreiras” com o objetivo de desenvolver um projeto nestes moldes na região do Chaco.

Membros o roteiro Iwitera e Maniaka se encontram em Santa Isabel. O primeiro terminava a expedição descendo o rio e o segundo iria iniciar subindo o Negro
De Manaus, o grupo segue de avião fretado para Santa Isabel do Rio Negro (roteiro Maniaka) ou São Gabriel da Cachoeira (roteiro Iwtera). Após isso, a viagem segue de voadeira até a primeira comunidade. As viagens seguintes às demais comunidades, descendo ou subindo o rio, também são de voadeiras, até São Gabriel, no caso do roteiro Maniaka, e Santa Isabel, no Iwtera.
Ao chegar nas comunidades, após a recepção dos ribeirinhos, os visitantes são apresentados aos alojamentos, construídos cuidadosamente para abrigar várias pessoas em redes. São nelas que os turistas dormem após um dia de várias programações.
Serras Guerreiras de Tapuruquara
Esta reportagem faz parte de uma série originalmente publicada na edição impressa do jornal A Crítica do dia 24 de junho de 2018.
Leia as demais matérias da série:
2 – Projeto turístico pioneiro em Terras Indígenas estimula o resgate cultural
3 – Turismo comunitário no Rio Negro é uma iniciativa dos próprios ribeirinhos
4 – Expedição a comunidades do Rio Negro é uma experiência humana profunda
5 – Seleção para participar das viagens do projeto de turismo comunitário é criteriosa
*O jornalista viajou a convite do Instituto Socioambiental