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Viúva de Bruno Pereira diz que teme pela vida dela e dos filhos

Dois meses após a morte do marido, a antropóloga Beatriz Matos falou sobre como vem enfrentando a saudade de Bruno e os temores pela segurança

Publicado em 07/08/2022 às 17h45
Viúva de Bruno Pereira diz que teme pela vida dela e dos filhos
Foto: Reprodução/ Internet

Pela primeira vez após dois meses do assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, no Vale do Javari (AM), a antropóloga Beatriz Matos, viúva de Bruno, concedeu uma entrevista emocionante ao repórter Daniel Biasetto, do Jornal O Globo.

Ainda é difícil para Beatriz falar sobre o acontecimento com seu marido e pai de seus dois filhos, de 2 e 4 anos. Ela diz ter somente hoje a real dimensão da gravidade do crime:

“Não só foi uma violência contra a nossa família, foi uma violência contra a defesa dos povos e territórios indígenas do Brasil”.

Beatriz conta que teme pela sua segurança e a dos filhos tenta vencer as noites de insônia e pediu licença médica da Universidade Federal do Pará (UFPA), onde trabalha como professora de antropologia e etnologia indígena, para cuidar da saúde mental. Lembra, ainda, do que chama de deboche no tratamento dado pelo governo federal ao caso, das dificuldades em criar sozinha os filhos, e afirma que vai se “desdobrar em duas” para dar continuidade ao trabalho e projetos elaborados por ela e o marido para o Vale do Javari.

Detalhes da entrevista

A entrevista durou quatro dias e foi primeira vez que Beatriz conversou longamente sobre o episódio. Durante a conversa destacou como foi o processo de contar para os filhos sobre o acontecido.

“Quando confirmaram as mortes eu contei para eles, com a orientação de uma psicanalista, com que faço análise e que me ajuda a processar isso com eles. Fui falando aos poucos o que aconteceu. Eles sabem que o papai morreu e falei que ele está agora em nosso coração, que ele está presente com a gente. Eles falam sobre o pai e vou processando isso com eles devagarzinho”, disse.

Ao ser questionada sobre a luta pela causa indígena e se sente mais insegura em desempenhar seu trabalho, Beatriz relatou que o crime demonstrou como os ativistas que trabalham com os povos indígenas, além dos próprios indígenas, estão ameaçados e vulneráveis hoje.

“Depois de tantos avanços com a redemocratização e toda a atenção para a questão ambiental, vivemos uma grande violência contra diversas conquistas e avanços. Toda a equipe da Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari, com quem Bruno trabalhava) está ameaçada pelos invasores e já solicitou proteção à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH)”.

Além disso, a antropóloga falou que Bruno sofria ameaças desde 2015, desde quando começaram a namorar.

Beatriz ainda comentou sobre as declarações feitas pelo Governo Federal. “Eles brincavam com o sofrimento das famílias. Tripudiaram, foram insensíveis, lentos e, quando houve a pressão internacional, tentaram demonstrar serviço, mas muito centrada na Polícia Federal e Polícia Civil. O governo federal não se importa com indígenas, comunidades tradicionais e quilombolas. Esse é o recado”.

Para Beatriz o crime que aconteceu é muito maior do que realmente aparece e pretende continuar com os trabalhos de Bruno e fazer justiça por seu nome.

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