Entrevista

'Uma Concertação pela Amazônia': A Crítica entrevista Roberto Waack e Renata Piazzon

A CRÍTICA entrevistou a diretora do instituto Arapyaú e responsável pela secretaria executiva da Concertação, Renata Piazzon, e o presidente do conselho do Instituto Arapyaú e cofundador da Concertação, Roberto Waack

Waldick Júnior
online@acritica.com
17/05/2022 às 09:33.
Atualizado em 17/05/2022 às 09:33

Diretora do instituto Arapyaú e responsável pela secretaria executiva da Concertação, Renata Piazzon, e o presidente do conselho do Instituto Arapyaú e cofundador da Concertação, Roberto Waack (Foto: Reprodução)

Em 2020, pessoas, instituições e empresas se uniram com o propósito de buscar soluções para a conservação e o desenvolvimento sustentável da Amazônia. Assim surgiu a rede Uma Concertação pela Amazônia, que realizou sua primeira reunião presencial desde a criação, há dois anos. O evento ocorreu em Manaus, nessa segunda-feira, às 15h, no restaurante Caxiri (ao lado do Teatro Amazonas). 

Para entender mais sobre as ações da rede e como se movimenta politicamente em um ano eleitoral, A CRÍTICA entrevistou a diretora do instituto Arapyaú e responsável pela secretaria executiva da Concertação, Renata Piazzon, e o presidente do conselho do Instituto Arapyaú e cofundador da Concertação, Roberto Waack. 

Ambos destacam o posicionamento apartidário do grupo, embora a rede esteja trabalhando desde o ano passado em um plano com ações voltadas para a Amazônia que possa ser entregue às gestões federais, estaduais e ao Congresso Nacional a serem eleitas para atuar a partir de 2023. O objetivo, contam, é sugerir políticas de Estado sem privilegiar ou prejudicar algum pré-candidato às eleições deste ano.

Esse plano está sendo construído em uma série de encontros até então virtuais, mas que agora acontecem em Manaus para debater especificamente a Amazônia nas eleições de 2022. O foco deve ser nas áreas de saúde economia e todos os palestrantes serão agentes da Amazônia. São eles: Larissa Tukano (Foirn), Denis Minev (CEO da Bemol), Érica Peregrino e o Eugenio Scannavino (projeto Saúde e Alegria). A entrevista completa abaixo.

O que é a Concertação e como surgiu?

Renata: a Concertação é uma rede apartidária criada em 2020 como um espaço democrático para que diversas iniciativas que atuam em prol da região pudessem se encontrar e ampliar o impacto das suas ações. Então, um objetivo inicial foi reduzir a fragmentação das iniciativas que buscam fomentar o desenvolvimento sustentável na Amazônia. Hoje, ela já tem mais de 500 lideranças entre o setor público, privado, academia, sociedade civil, imprensa, e vem se reunindo em busca dessas propostas, desses projetos para a floresta e para as pessoas que vivem na floresta. 

Como a 'construção' da Concertação em formato de rede, ou seja, com vários agentes reunidos, ajuda nas atividades do grupo?

Roberto: a gente acredita muito no valor da mobilização da sociedade para fazer com que agendas avancem no Brasil. Isso ocorre na coalização Brasil, Clima, Florestas e Agricultura, na rede Raps [Rede de Atenção Psicossocial] e no Todos pela Educação. A Concertação tem esse caráter também, de fazer com que através do envolvimento da sociedade, com suas diferentes visões e sonhos, as diferentes perspectivas, ela seja traduzida num conjunto de ações que façam, de alguma maneira, acontecer esse processo de desenvolvimento inclusivo e integrado da região. A rede é um conceito muito forte para fazer com que agendas avancem. 

No dia 16 haverá o primeiro encontro presencial da rede e acontecerá em Manaus. Por qual motivo a capital do Amazonas? Qual a importância de ser realizado aqui?

Renata: o primeiro ponto que citei da rede foi a desfragmentação, a segunda coisa muito importante também é o engajamento do setor privado. E a gente vem numa busca muito grande com engajamento do setor privado local. E acho que esse evento ter tido o grande apoio de um dos grandes empresários locais, o Denis Minev [CEO da Bemol], que nos ajuda muito na articulação e na aproximação com o empresariado local, então tem um significado a gente fazer em Manaus por conta disso. Mas também, um grande significado de maior aproximação com o território. A gente quer e tem como prioridade ampliar o engajamento e a participação dos atores locais de maneira geral. Esse evento em Manaus vai servir para que sigamos falando de Amazônia e eleições 2020 e 2022 com um olhar de saúde, de economia. As quatro pessoas que falarão no evento são da Amazônia, então a gente vem cada vez mais na Concertação colocando que precisamos falar mais da Amazônia com vozes da Amazônia, por isso, é significativo realizar esse evento em Manaus.

A Concertação atualmente trabalha em um plano de ações governamentais voltado para a Amazônia e deve apresentar esse documento ao presidente que irá governar a partir do ano que vem. O que já se tem de concreto sobre esse planejamento? 

Renata: a gente colocou como prioridade esse ano a construção de um plano para os primeiros 100 dias do governo eleito e aí nos referimos ao nacional [presidente], subnacional [governadores] e Congresso Nacional. A gente, na verdade, começou esse trabalho em 2021 quando entregamos uma agenda pelo desenvolvimento da Amazônia na COP 26. E a partir disso viemos construindo o que chamamos de rodadas temáticas, a partir desse olhar de interdependência de diferentes temas. Como a gente pode construir uma agenda integrada de desenvolvimento que passe por comando e controle, agenda econômica, segurança pública, gestão pública, e que considere a Amazônia como solução e traga esse olhar de desenvolvimento além da lente ambiental. Então, estamos nesse momento agora concluindo as rodadas temáticas, são rodadas em que passamos pelo diagnóstico, por exemplo, de saúde na Amazônia e quais as propostas prioritárias nessa área para os primeiros 100 dias de governo. E a gente vai trabalhar agora no desenho dessas propostas em parceria com um escritório de advocacia para termos isso em mãos no dia 1 de novembro, após o resultado das eleições, para trabalhar com o governo de transição. A gente vem chamando propostas factíveis que possam ser implementadas nos primeiros dias. A gente sabe que tem muitas propostas e essa é a nossa lente e a escolha da Concertação no momento.

Tem o número de propostas? Pode adiantar alguma?

Renata: são 14 rodadas temáticas e queremos chegar em três propostas para cada uma das rodadas [totalizando 42 propostas]. Então, na rodada de saúde, por exemplo, tem uma proposta prioritária que é telemedicina. Como que a gente garante o acesso à conectividade a regiões remotas da Amazônia para ter um serviço estruturado de telemedicina para a região. Então, esse é um exemplo de política pública que iremos apresentar no âmbito da concertação. Além disso, a gente já vem apoiando desde o início o consórcio de governadores da Amazônia Legal, a gente fez um apoio, quatro instituições de filantropia para a estruturação da governança do consórcio e de uma secretaria executiva para ajudar na implementação dos 12 projetos prioritários. 

Roberto: é importante traduzir isso em ações muito concretas, por exemplo, decretos, mudanças dentro da estrutura administrativa de governo. São questões que servem como orientação de curto prazo e a ideia é: há uma urgência para uma transformação muito grande de como as questões são feitas na Amazônia, por isso a gente chama de 100 dias. É aquilo, o governo assume e já implementa. Mas não são ideias, a gente está chegando em um nível de detalhe, por exemplo, com a indicação de decretos. Claro que serão discutidos no Congresso e tudo, mas é diferente de um plano de governo. Na verdade, são ações que foram identificadas como mais urgentes e concretas para serem implementadas o mais rápido possível. Um outro exemplo a frente da economia é a necessidade de uma reorganização fiscal e tributária para aquilo que esteja voltado para o que chamamos de economia da conservação. É preciso criar valor econômico para a conservação rapidamente. O reconhecimento da economia da conservação é algo que o mundo inteiro já tem e isso tem que ser traduzido em organizações completas. 


No início vocês destacaram que a Concertação é uma rede apartidária e que nesse momento vocês estão focados nessas rodas, nesses projetos. Mas já teve um espaço também para entrar em contato com alguns presidenciáveis, trocar ideias, apresentar projetos, ou isso vai ser somente para após o governo eleito?

Roberto: integrantes da Concertação fazem isso [falar com presidenciáveis], em especial os que têm um papel de maior ativismo político, de maior incidência, vários integrantes da rede têm esse papel. Então, claro, a rede como um todo interage assim como ocorre com diferentes atores do mundo político, mas não é uma dedicação prioritária do tipo "vamos falar com todos os presidenciáveis", até porque uma questão fundamental é o que acontecem nos estados, nos municípios. O que é mais importante para a Concertação é ter um bom conteúdo amplamente disseminado e os diversos atores, cada um exerce esse papel de incidência política da sua forma. 

Renata: a gente pauta a rede para advogar [junto às figuras políticas], porque a gente tem um compromisso de não favorecer nem desprestigiar nenhuma candidatura. Então, a gente entende que a questão da Amazônia não é de governo, mas sim de Estado. E aí por isso a gente vem colocando as propostas da Concertação acima de qualquer discussão partidária ou eleitoral. 

Como a Concertação avalia a gestão do presidente Jair Bolsonaro em relação à Amazônia?

Roberto: é o seguinte. Não tem muita dúvida que o Brasil está enfrentando uma situação muito crítica com relação à forma como o governo tem lidado com a Amazônia. Essa é uma percepção nacional e internacional, irrefutável. É por isso que acreditamos ser tão importante o envolvimento da sociedade como um todo para lidar com as ambiguidades dessa discussão. Não é uma discussão simples de preto e branco, existe esse desafio da inclusão social e a conexão da relação social com as causas ambientais e isso no nosso entender precisa avançar de forma diferente de como está ocorrendo hoje. Então, a percepção geral é de que a gente precisa sofisticar essa discussão, ter mais densidadeporque existe, acima de tudo, uma oportunidade para o Brasil se posicionar como um país que tem um capital natural inigualável e um capital social também inigualável e que não está aproveitando essa oportunidade em nenhum meio. O mundo valoriza cada vez mais isso que o Brasil tem. Como a Renata falou, a nossa visão é a Amazônia como solução. Hoje, ela virou um problema e a nossa visão sobre a forma como isso está sendo conduzido é de que não deveria ser um problema. Ela tem tudo para ser a solução e é um pouco essa orientação que a gente vê da Concertação. 

Renata: só reforçar que a gente é crítico também ao passado e a algumas políticas que foram estritamente voltadas ao comando e controle, e super efetivas para reduzir o desmatamento, como lá em 2012, mas sem o olhar social de desenvolvimento. Então, por isso que a gente traz essa necessidade de uma agenda integrada de desenvolvimento que tenha o desmatamento como consequência dessa agenda integrada. Acho que é a primeira vez que vamos ter essa agenda integrada de desenvolvimento como uma política de Estado e é por isso o reforço dessa rede apartidária e que vem trazendo o desenvolvimento de forma tão forte.

Um ponto importante na sua fala é que muitas vezes quando falamos de preservação da Amazônia algumas pessoas imaginam o combate aos ilícitos ambientais, o desmatamento e o garimpo ilegal, por exemplo. Mas temos também a questão social. Como a Concertação pensa exatamente esse ponto e quais estratégias traz para atuar com a população dessa região?

Renata: essa é a nossa bandeira. Essa agenda integrada de desenvolvimento traz mais saúde, mais educação, menos violência, mais renda, bem-estar, direitos e menos desmatamento. E aí em educação a gente vem trabalhando com estados da Amazônia Legal para inserir a Amazônia no currículo do ensino médio como itinerários formativos, inclusive para a educação profissionalizante. Esse é um tema que pensamos ser transversal, inclusive, para agendas de combate ao desmatamento. O olhar social para as pessoas que ali vivem nesse momento do ensino médio. Saúde é outro ponto. Falamos de telemedicina, mas também SUS adaptado à realidade amazônica, muito mais pulverizado que outras regiões do país e como tudo isso contribui para o combate ao desmatamento. Tudo está conectado, essa é a agenda. 

Roberto:  a centralidade social é fundamental, ou seja, reconhecer o desmatamento como consequência da centralidade social e não o inverso. E essa centralidade social traz um ponto que é: ela tem que ser desenhada a partir da visão local. Quando a gente fala de educação, as especificidades são muito fortes. A distribuição das escolas, a forma como são construídas, todo o repertório, a formação dos professores, a questão da conectividade. São especificidades que têm de ser levadas em conta e só tem como acontecer de uma maneira robusta se for fundamentada no desenho local. Quem sabe o que tem que ser feito na Amazônia são as pessoas que vivem nas diferentes Amazônias. 

Tem surgido há um tempo um movimento de fortalecimento da identidade nortista, amazônida. Esse mesmo movimento faz críticas a um pensamento sudestino que por vezes é carregado de estereótipossobre a Amazônia. Como a Concertação observa esse movimento de fortalecimento dessas identidades? Há uma preocupação em se alinhar com ele?

Renata: a primeira coisa é o nosso engajamento com atores locais desde o início. Temos o Ruy Toni, Tatiana Schor, Virgílio Viana, e diversos artistas da Amazônia. A gente vai lançar, inclusive, a galeria de artistas da Amazônia em Manaus. Enfim, Denis Minev, Átila Denis, Rebeca Garcia, diversos atores da região nos ajudando nessas ações e estando muito próximo do grupo estratégico da Concertação, que é um núcleo duro que a gente chama, que orienta os próximos passos para que tenhamos a segurança de que teremos o respaldo sempre. Que fazemos sempre juntos com os amazônidas. Outro ponto é garantia de 50% de amazônidas nos nossos encontros, é um princípio nosso. E acho que esse papel de arte e da cultura como transversal é um princípio muito forte do que a gente faz. Desde o início nós envolvemos artistas da Amazônia como palestrantes e acho que isso culminou no resultado dessa galeria que iremos lançar.

Roberto: quero ressaltar a importância da arte na identidade de qualquer lugar do mundo, da imagem, da representação. E não tem jeito de você tratar disso sem a centralidade da questão cultural. Então, esse esforço de valorizar a arte como um campo, um espaço onde essa discussão da identidade pode se fortalecer é um dos pilares da Concertação. Isso não é muito comum, mas temos visto crescer no mundo inteiro, da valorização desse elemento que vai além da racionalidade técnica-científica. Então o que a gente busca quase como forma de atuação é você ter todo o componente científico e técnico, como a sociedade e academia tem feito, mas ao lado dela, tão ligado quanto, as questões da emoção. E nada com mais emoção que a arte. 

Há uma previsão da Concertação de um ato em 5 de setembro, no Dia da Amazônia, para levar um milhão de pessoas às ruas do país em defesa da região. Como está o planejamento para esse evento?

Renata: acho que não é só Concertação, é uma rede de organizações que vêm pensando como colocar a Amazônia no debate eleitoral. A gente tem a Amazônia 2030, a Amazônia 2022, a Concertação, a Coalização, Observatório do Clima. São muitas pessoas pensando em como influenciar o voto pela Amazônia, educando cidadãos em torno dessa temática. A gente como Concertação quer usar diversos movimentos ao longo do ano, ações de arte, orquestra na Amazônia, um festival no Dia da Amazônia. Então não é necessariamente um marco no dia desse ato, mas muitas ações voltadas para esse tema ao longo de todo o ano. 

Roberto: um exemplo é o que vai acontecer no dia 20 em Manaus, da economia criativa. Esse tema engaja. Essa discussão toda dos novos eleitores e a importância da cultura, o papel da Anitta em trazer novos eleitores é só um exemplo do quanto essa combinação da frente da arte com a racionalidade, com o pensamento econômico, é poderosa. 

A Concertação está concentrada agora em entregar esse plano de ações para o governo eleito em 2023. Mas e depois? Como a rede se projeta para o futuro?

Renata: A gente vem refletindo um pouco sobre isso. Tivemos nos dois primeiros anos da rede um esforço muito grande de mobilização e agora trazemos essas ações mais concretas sem esquecer a Amazônia plural, multidimensional, como solução e desse olhar de desenvolvimento. Para o futuro a gente deve investir muito nos grupos de trabalho da Concertação, que hoje são oito. Eles têm entregas específicas para esse ano e para os próximos, se tudo der certo. E nosso esforço estará aí. Com engajamento de atores locais para fazer isso acontecer.

Roberto: a gente tem usado muito o conceito de ações estruturantes e elas levam tempo e têm de ser ações de Estado, de país. E o Brasil precisa e está devendo para a Amazônia um conjunto de ações estruturantes que sejam específicas para a região e daí a importância dessa construção local. Não tenho dúvida que a continuidade da Concertação vai estar muito ligada a essas questões estruturantes de longo prazo. Claro, o momento que vivemos exige uma atenção a curto prazo, achamos que a Amazônia deve fazer parte da discussão eleitoral e o momento é esse, mas a existência da Concertação está muito mais ligada a institucionalização. As ações de Estado devem sair desses ciclos eleitorais curtos.

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