A caverna do dragão

Felizmente, entre os meninos perdidos da série animada só existia um personagem arrogante e egoísta, ao contrário da pandemia.

Marcus Lacerda
marcuslacerda.br@gmail.com
19/03/2022 às 10:35.
Atualizado em 29/04/2022 às 18:15

Cena do desenho animado Caverna do Dragão. À direita, o personagem Eric

Na minha infância, que se vai distante, existia uma série animada que ganhou muita audiência durante as manhãs dos programas infantis; chamava-se Caverna do Dragão (Dungeons&Dragons). Jovens que estavam em um parque de diversões, embarcados em uma montanha russa, são transportados para um mundo paralelo. Cada um deles recebe uma arma de poder, e são orientados pelo Mestre dos Magos (Dungeon Master). O mestre é um idoso baixinho, carismático, e que dá suas orientações por meio de frases complexas e pouco claras. O objetivo da turma é descobrir um caminho de volta para casa.

Desde que embarcamos na montanha russa da pandemia de Covid-19, tentamos enxergar um caminho de volta para a normalidade, sem muito sucesso. Cada política de saúde pública demora tanto a ser compreendida pela população, que quando começa a ser aplicada, já está obsoleta e extemporânea. Medidas coletivas só são sentidas após algumas semanas de seu uso correto. Por exemplo, o início da vacinação contra a doença começou em meio a milhares de mortes diárias, o que contribuiu para que muitas pessoas não entendessem o impacto da imunização, que só hoje é mais do que óbvio.

A população em geral tem muita dificuldade em entender que algumas medidas são dinâmicas e mudam de um mês para outro, a depender da situação epidemiológica. Por exemplo, usar máscaras quando o vírus circula pouco não é eficaz. Mas se nossa inteligência epidemiológica detecta aumento de casos, todos devemos imediatamente retomar o uso da bendita. Já a vacinação, como não tem efeito imediato, não deve ser intensificada apenas quando há alta de casos, mas muito antes. Afinal, não se pode vacinar 200 milhões de pessoas em um único dia.

A resistência dos jovens da Caverna do Dragão, frente ao charmoso e bem-vestido vilão Vingador, tinha êxito porque cada um dos jovens usava uma arma diferente, de forma complementar. Quando a capa da invisibilidade não tinha sucesso, entrava em cena uma vara de salto, um tacape de força brutal, ou uma cartola mágica. Cada um usava com maestria o que tinha disponível, e o resultado era sempre uma inevitável derrota das forças do mal, como em toda trama ficcional que se preze. Com a pandemia não foi diferente, armas do poder usadas na hora certa, pelas populações certas, tiveram grande impacto. Mas quando as armas eram usadas sem nenhum contexto, a tragédia foi certa.

Quando nenhuma vacina existia, as únicas saídas foram isolamento social e lockdown. Hoje, com a vacinação avançando, já é possível circular por aí, e eventualmente até retirar a máscara. Continuar defendendo o uso universal de medidas impopulares, sem conexão com a realidade, é atestar que a vacina não é ferramenta poderosa. Já está claro que não é possível uma política de Covid-19 zero, e, infelizmente, teremos algumas pessoas infectadas e algumas mortas, mas como uma exceção à regra.

Ainda não se sabe quem vai decretar o fim de tudo o que foi montado para evitar a circulação do vírus. É fácil colocar termômetros digitais, álcool em gel, exigir máscaras e limitar número de clientes dentro de cada loja, dentro de um centro comercial; o difícil é dizer a hora em que tudo isso deve se encerrar. Não está óbvia a saída do "Reino" para o nosso velho parque de diversões, onde éramos felizes e não sabíamos. Temos saudades de tudo, a nostalgia é um sentimento coletivo.

Para piorar tudo, nosso Mestre dos Magos é ainda mais impreciso do que o da série animada, seja ele o cientista, o governante, o empresário ou cada um de nós que se atreve a dar conselhos na forma de frases bonitas, mas ininteligíveis. Quando a série acabou, em sua quarta temporada, rumores de que se tratava de uma série de temática espírita ganharam grande popularidade, e dizia-se que os jovens estavam já desencarnados.

Mas antes de encerrar, penso que devemos olhar com atenção para um dos jovens em especial: Eric. Trata-se de um jovem arrogante e egoísta, que colocava em risco o grupo com frequência. Estava sempre na contramão das evidências e usava sua arma – um escudo – apenas para se defender. Eric não conseguia trabalhar em equipe e questionava todos a todo instante. Não raro se dava mal e precisava da coletividade para protegê-lo dos perigos.  Felizmente, entre os meninos perdidos, só existia um único personagem com tais características, ao contrário da pandemia.

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