POR Adalberto da Silva Retto Jr

Festivais folclóricos no Amazonas: identidade cívica entre o ritual e o espetáculo.

Dedico este texto a Neomésia Cardoso Retto (dona Nenên Retto), minha avó, uma das fundadoras do Festival Folclórico da cidade de Tefé e ativa disseminadora da Lenda do Corrupião

28/06/2022 às 11:22.
Atualizado em 28/06/2022 às 11:22

Lenda do Corrupião, apresentação no Festival Folclórico de Tefé -AM (Arquivo Manoel Augusto Retto)

Em uma época como a nossa, caracterizada pela ausência de metanarrativas e mitos, os rituais e festas de junho têm imenso valor na cultura brasileira, ainda que esse valor seja expresso de diferentes formas, nas várias regiões do país. Um exemplo é o caso dos Festivais Folclóricos no estado do Amazonas. Importantes em si mesmos como "fato social total", esses festivais vêm gradualmente passando por transformações em função da supervalorização, divulgação e opulência do Festival Folclórico de Parintins. Sem diminuir, em absoluto, a relevância do espetáculo apresentado em Parintins, no contexto nacional e no internacional, ressalta-se a necessidade de políticas de valorização dos festivais de outras cidades, pois, com uma dignidade particular, todos são fundamentais para valorização da cultura no estado como um todo.

Em outras palavras, a cultura dos festivais no Amazonas não se resume aos bois bumbás. Apesar de não mais remeterem a questões arquetípicas como outrora, se analisadas mais profundamente ao longo de sua existência, tais manifestações assumiram importância coletiva desde os primórdios da constituição dos municípios. Afinal, na nossa sociedade urbana, que se sedimenta  sobre dois aspectos – consolidação de um território e de uma prática civil –, a realidade multiforme de tais festas era composta por eventos majoritariamente relacionados à esfera do entretenimento, jogos e rituais cívicos e religiosos.

As celebrações plurais nos festivais, com danças, cordões e quadrilhas, assumem aspectos do próprio rito celebratório e podem ser analisadas a partir de cinco dimensões: a primeira, simbólica, que separa a ordem da desordem; a segunda, temporal, que fixa a continuidade e a ruptura com o calendário tradicional; a terceira, processual, que representa a dinâmica do aspecto do ritual, ou seja, não apenas um ícone, mas também a pluralidade de rituais que refletem uma sociedade amazônica; a quarta, ligada ao desempenho, que surge através  das palavras e dos gestos; e a quinta, a dimensão que marca a relação entre o poder e a cidade, entre o palco e os personagens.

Embora, no passado, tais práticas tenham sido mais competitivas do que propriamente vinculadas ao conceito de espetáculo, esses eventos tiveram um papel central na construção da identidade cívica, pois habitualmente cabia a eles festejar os santos do mês de junho com celebrações comunitárias cujo significado fortemente aglutinador transformava essas comunidades em um corpo social.

É possível identificar que nas cidades amazônicas, como Tefé, tais eventos possuem regularidade formal e relatam variações que refletem mudanças socioculturais significativas na continuidade do próprio ritual nas diversas regiões do estado. Tais celebrações da identidade cívica eram, de fato, uma forma de autorrepresentação tanto da estrutura social quanto das identidades individuais dos diversos corpos que compunham a estrutura da cidade e suas relações hierárquicas, bem como das relações entre a cidade dominante e seus territórios. Precisamente a função autorrepresentativa determinou a estruturação ritual particular das festas identitárias.

Portanto, o objetivo dessas manifestações inerentes à função de autorrepresentação era confirmar e consolidar a ordem política, institucional e social por meio do ritual, como forma de apresentar a cidade com suas instituições e riqueza. Paralelamente à regulamentação de expressões lúdicas e festivas, basicamente ao longo do século XX e XXI, houve o rearranjo, em termos espaciais, de alguns centros representativos do poder político e religioso. Ou seja, desses mesmos núcleos urbanos destinados a transitar como transposição metonímica da cidade para a cenografia teatral. Pela sua dimensão, riqueza e ornamentação, esses cordões impunham-se simbolizando também visualmente a unidade ocorrida, ou induzida, da cidade.

Ao assistir a transmissão do Festival Folclórico de Parintins, a 2.569 Km de distância, amparado pelo fato de ser amazonense e ter conhecimento da importância cultural e política dessas festas até mesmo no seio familiar, identifiquei, sim, a beleza do espetáculo apresentado, mas também senti tristeza por ver a celebração de todo um estado reduzida à festa de bois bumbás. Cabe ao governo uma agenda integrada onde o festival de Parintins possa ser a grande âncora, a partir da qual todos os festivais das outras cidades sejam incluídos no roteiro turístico integrado, valorizando a cultura amazônica como um todo.

Sobre o autor:

 Adalberto da Silva Retto Jr, amazonense, nascido em Tefé – AM, atua como Professor no curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual Paulista - Unesp.

Coordenador do Curso Internacional de Especialização Lato Sensu em Planejamento Urbano e Políticas Públicas: Urbanismo, Paisagem, Território. Foi Professor-pesquisador da Universitè Panthéon Sorbonne Paris I(2011-2013) como  pesquisador visitante no Master Erasmus Mundus TPTI (Techiniques, Patrimoine, Territoire de lIndustrie: Histoire, Valorisation, Didactique). Representante da Unesp no Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de SP - Condephaat (2015 e 2016).

Possui Pós-doutorado no Istituto Universitario di Architettura di Venezia Itália (2007) como bolsista FAPESP; Doutor pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (Bolsa Capes) e pelo Departamento de História da Arquitetura do Istituto Universitario di Architettura di Venezia (2003) com bolsa sanduíche CNPq.

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